O Salgueiro abriu a temporada de ensaios de rua para o Carnaval 2027 com um desafio: a interdição de um trecho da Rua Maxwell por obras da Light, que obrigou a escola a se concentrar em uma única pista e a bateria a realizar algumas passadas em silêncio, conforme combinado previamente com a direção. A resposta veio do chão. A evolução contornou o estreitamento com fluidez, e a comunidade sustentou o samba, em uma demonstração da força da harmonia, grande destaque da noite, conduzida por Igor Sorriso em performance exemplar. A estreia de Laryssa Victória como primeira porta-bandeira, ao lado de Sidclei Santos, e a comissão de frente de Paulo Pinna, com desenhos claros e fluidos, completaram um primeiro ensaio de saldo positivo, com ajustes pontuais de fôlego no trecho final e de domínio da letra. Com o enredo “Laroyê Xica da Silva: a história por trás da história”, assinado pelo carnavalesco Jorge Silveira em parceria com o enredista Leonardo Antan, o Salgueiro será a terceira escola a desfilar na segunda-feira de carnaval.
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COMISSÃO DE FRENTE
Paulo Pinna chega ao Carnaval 2027 com a credencial dos 40 pontos, nota máxima conquistada no quesito em 2026. E o primeiro ensaio de rua mostra que o coreógrafo segue em excelente fase. Ainda é cedo para falar em proposta dramatúrgica. O que está posto, neste momento, é a movimentação coreográfica, e nela Pinna demonstra, mais uma vez, sua excelência. As propostas e os desenhos são claros, e as células coreográficas se desenrolam com fluidez de um momento a outro.
Duas imagens já se destacam. A primeira é a formação em V: as quinze bailarinas abrem os braços em sequência, a partir da ponta e em direção às laterais, em um efeito cascata que se propaga pelo grupo. A segunda é a roda. Todas se encontram e estendem os braços para os lados, como em um abraço coletivo. A imagem sugere a saia e o giro, símbolos que atravessam o enredo de Xica da Silva, e abre espaço para especulações: virá aí um elemento cênico ligado à saia? Por enquanto, tudo segue no campo das possibilidades. Mas vale lembrar que, em 2026, o elemento cênico foi peça central no desenvolvimento da apresentação da comissão.
No refrão principal, a coreografia aposta em movimentações de matriz afro. Aqui, há um caminho a explorar: dar mais chão, peso e densidade a essa gestualidade. Ela aparece com força em alguns integrantes, mas ainda não no conjunto. Ganhar esse corpo pode trazer mais vigor ao trecho.
Os ajustes, por ora, são pontuais. Uma ou outra transição entre células ainda apresenta atrasos, algo natural para um primeiro ensaio e que deve se resolver com a maturação do trabalho. O ponto que merece mais cuidado é o canto. A comissão canta pouco, quase nada, o samba. Cantar e dançar ao mesmo tempo é difícil e se conquista com o tempo, mas essa é uma lacuna que precisa ser trabalhada ao longo da temporada.
No saldo, uma comissão excelente, com uma apresentação muito agradável de assistir, que já se credencia para buscar, mais uma vez, a nota máxima.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Na final de samba do Salgueiro, uma imagem resumiu o enredo de 2027: o pano vermelho e branco se estendia até se transformar em saia, vestida pela intérprete de Xica da Silva no palco. Naquele momento, o Salgueiro incorporou Xica. A saia e o giro, símbolos tão caros ao enredo, ganharam corpo no primeiro ensaio de rua da escola, na dança do primeiro casal, formado por Sidclei Santos e Laryssa Victória.

O ensaio marcou a estreia de Laryssa na rua como primeira porta-bandeira da “Academia do Samba”, e o que se viu foi um casal com uma nova característica de dança. Sidclei segue como eixo seguro da apresentação. Exímio mestre-sala, ele conduz com precisão, corteja a dama com elegância e sabe abrir espaço na cena para que a porta-bandeira baile à vontade e apresente o pavilhão. O bailado malandreado, marca de seu estilo, continua intacto.
Laryssa chega com vigor. Sua dança tem a assinatura de uma porta-bandeira de estilo clássico: os giros não apostam na velocidade, mas na densidade. São giros firmes, de presença, que dão outro peso à dança do casal. E é justamente aí que a apresentação conversa com o enredo. Quando o samba chega ao refrão principal, que saúda Xica da Silva com um “laroyê”, Laryssa desenha um giro em torno do próprio eixo, levemente curvada, quase recolhida sobre si. A saia vermelha e branca roda, e o pavilhão do Salgueiro tremula com potência.
É a imagem mais bonita da apresentação e talvez a que melhor traduz o enredo: o giro mais encorpado de Laryssa pode ser lido como um gesto de ancestralidade, como se a saia que gira trouxesse de volta a Xica da Silva que o próprio Salgueiro levou à avenida em 1963 e que agora retorna em uma releitura. Girar, nesse caso, é também fazer o tempo voltar.
A apresentação do pavilhão foi muito boa. Houve pequenos desencontros na chegada do casal, mas pontuais. O cortejo e o olhar estão lá. Sidclei procura a porta-bandeira a todo momento, durante as movimentações e ao fim de cada execução, em um cuidado constante. O caminho para Laryssa é devolver esse olhar com a mesma intensidade e jogar com o parceiro, ficando cada vez mais à vontade na dança a dois.
O primeiro ensaio de rua aponta para a consolidação de um casal que tem tudo para dar certo: de um lado, a juventude e o vigor de Laryssa; do outro, a experiência e a performance refinada de Sidclei.
HARMONIA E SAMBA
A harmonia foi o grande destaque do primeiro ensaio de rua do Salgueiro. A comunidade canta, e canta bem. No trecho estreitado pelas obras da Light, a bateria não conseguiria passar tocando, e a direção combinou previamente algumas passadas sem ela. Durante esses momentos, o samba foi sustentado pela voz dos componentes, sem perda de fôlego, e o resultado superou as expectativas da própria diretoria. “A gente sabia que o pessoal ia segurar o canto, mas foi melhor do que a gente esperava”, disse o diretor de carnaval Wilsinho Alves.

Não é a primeira vez. No ensaio técnico de 2026, quando o sistema de som falhou, o Salgueiro também sustentou o canto e, quando o som voltou, a comunidade estava cantando no tempo certo. Naquela ocasião, foi uma falha; desta vez, uma estratégia planejada. Nos dois casos, a mesma resposta: um trabalho de harmonia constante e consistente. “O Salgueiro está virando especialista”, brincou Wilsinho. “Toda vez que a comunidade do Salgueiro foi desafiada, ela deu conta”.
À frente desse coro está Igor Sorriso, em performance exemplar. O intérprete mostra por que é um dos grandes nomes do Grupo Especial. Sua dicção é invejável: cada palavra do samba chega inteira a quem ouve. A afinação é precisa, e o carisma completa o conjunto. Igor não fica preso ao carro de som. Passa entre as alas, canta para a comunidade e para o público. Por trás da voz, há um chão firme: cantores de apoio que chegam junto, um time de cordas afiado e um casamento de excelência entre carro de som e bateria, sob a direção de Alemão do Cavaco. É essa estrutura que permite ao intérprete sobressair e interagir com o componente salgueirense.
Parte desse trabalho é invisível. Desde a escolha do samba, a direção musical fez ajustes pensando em quem canta. “Adequamos palavras onde achávamos que alguma coisa podia travar a língua ou não deixar o componente respirar para cantar”, contou Alemão. A tonalidade também foi revista: “Trouxemos para uma altura bacana, mas confortável para o componente”.

O resultado aparece no percurso do samba. A cabeça é muito bem cantada. O refrão do meio soa forte e ganha, na voz de Igor, um balanço que traz respiro ao samba logo no início. A bateria acompanha com uma bossa que dá frescor ao trecho. O refrão principal é o momento de celebração. Os salgueirenses incorporam a mensagem e a devolvem para fora, cantando para o público e uns para os outros. É a tradução do próprio enredo: uma celebração da história do Salgueiro e da história de Xica da Silva, que retorna como pombagira na proposta do enredista Leonardo Antan e do carnavalesco Jorge Silveira.
O ponto de atenção está no trecho que vem logo depois do refrão do meio. Ali, boa parte das alas canta menos, mistura os versos e ainda não demonstra domínio da letra. Se a direção já preparou o samba pensando no fôlego do componente, o que falta agora é tempo de assimilação. Como o samba é narrativo e conta a história de maneira muito feliz, o caminho passa por trabalhar as imagens desse trecho para que a comunidade as incorpore, assim como já demonstra ter incorporado o restante. Também na parte final do ensaio, o cansaço dos componentes comprometeu um pouco o rendimento do canto.
São ajustes naturais de um primeiro ensaio de rua. Houve ensaios de canto na quadra depois da escolha do samba, mas o processo segue em maturação, e o que se ouviu na Maxwell ainda não é o samba completo. “Eu não gosto de entregar todo o ouro no começo”, disse Alemão, adiantando que ainda há surpresas no esquenta e um arranjo construído por etapas com a bateria. E o Salgueiro já mostrou que sabe trabalhar a harmonia. O Carnaval 2026 é a credencial que a escola leva para 2027.
EVOLUÇÃO
As obras da Light também colocaram a evolução à prova. Antes da chegada ao segundo módulo de julgamento, a pista se estreitava, e as alas precisavam se afunilar em uma única faixa para, logo depois, voltar a ocupar as duas. Era o tipo de obstáculo capaz de desmontar a fluidez de qualquer escola. No Salgueiro, transformou-se em demonstração de um trabalho de evolução bem consolidado.

O estreitamento e a reabertura aconteceram com naturalidade. As alas se recolheram e se expandiram sem quebrar o andamento do cortejo. Superado o gargalo, a escola voltou a ocupar a Maxwell com folga. A rua estava muito bem preenchida, e os componentes se mostravam à vontade para brincar, cantar e desfilar. No geral, as alas evoluíram bem.
O ponto de atenção ficou para o trecho final. Um pouco antes do segundo recuo da bateria, na altura da simulação do terceiro módulo, abriu-se um pequeno clarão após o primeiro casal. O espaçamento poderia ser mais compacto, ainda que seja, em boa medida, reflexo do afunilamento enfrentado anteriormente. Também na parte final, algumas alas deram sinais de cansaço: o vigor e a leveza do desfile já não estavam presentes em todos os componentes.
São ajustes de fôlego e compactação, naturais em um primeiro ensaio. O saldo é positivo. Diante de um imprevisto, a escola soube contornar o problema e manter a evolução de pé.
OUTROS DESTAQUES
A rainha de bateria Viviane Araujo marcou presença no primeiro ensaio de rua do “Torrão Amado” e mostrou, mais uma vez, por que é tão querida pela comunidade. Interagiu com o público ao longo do percurso e, em diversos momentos, com a bateria, especialmente com a ala de chocalhos. Uma troca bonita de ver, que reafirma o lugar de Viviane no afeto salgueirense.
A ala “Maculelê”, dirigida por Carlinhos Salgueiro, diretor artístico da escola, também chamou a atenção. Muito bem trajada, desfilou de preto, com detalhes que lembram veludo. À frente do grupo, o próprio Carlinhos imprimiu vigor à apresentação.
Os passistas completaram o quadro com samba no pé de sobra. As mulheres, de vermelho, e os homens, de branco, deram show de ginga e reafirmaram a força da premiadíssima ala no conjunto da escola.










