
O tapete verde e rosa já estava quente quando o Palácio do Samba foi arrebatado pelo espetáculo da final da Estação Primeira de Mangueira. A apresentação encenou a multiplicidade de Oyá, senhora dos raios e da ventania, que energizou e entregou o pavilhão da agremiação nas mãos do “casal furacão” Cyntia Santos e Matheus Olivério. Em noite de gala, a Mangueira transformou a energia guerreira de Oyá em uma celebração da mulheridade mangueirense. Por trás dessa concepção está Fábio Batista, diretor artístico da agremiação, uma função que, como ele faz questão de ressaltar, muitas vezes é incompreendida no mundo do samba.
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“É muito questionado o que o diretor artístico realmente faz em uma escola de samba. Ele pode ser confundido com enredista, pode ser confundido com carnavalesco, mas não: o diretor artístico tem uma função de comunicação interna, um entendimento entre o que a escola tem como proposta para o desfile e o que ela já consegue realizar como estética, imagem, musicalidade e, principalmente, como questão histórica”, afirmou o coreógrafo ao CARNAVALESCO.
Foi esse entendimento que guiou os dois meses de criação do espetáculo. Fábio apostou em uma proposta imersiva, que reuniu as linguagens da dança, do teatro e da música antes de devolver o público ao samba como folia.

“A proposta é a de uma imersão [no enredo] e, depois, que a gente caísse no carnaval mesmo, linkar a beleza daquilo que as pessoas estão vendo com a possibilidade de o carnaval ser folia. E a escola comprou essa briga”, disse.
Protagonismo para o chão da escola
Se o espetáculo impressionou pela estética, o que Fábio destaca como maior conquista é outra coisa: colocar como protagonista quem faz a Mangueira funcionar todos os anos. “Quando eu cheguei na escola, falei para a Guanayra: ‘eu amo a Mangueira, gosto de participar daquela roda, mas eu queria muito trabalhar a questão do protagonismo dos setores’”, relembrou. Para ele, essa mudança tem efeito direto sobre quem desfila. “Isso eleva a autoestima do mangueirense! Ele se sente capacitado para outros desafios além do ensaio técnico”.
A proposta não era abandonar a roda tradicional, mas ampliá-la: dar protagonismo à figura do passista, da baiana, da velha guarda, dos harmonias e de todos aqueles que já sustentam a Mangueira como potência para além da imagem verde e rosa mais visível. “Por baixo desse tapete tem mais poeira para a gente levantar”, resumiu o coreógrafo.
Conversa de historiadores: o diálogo entre diretor artístico e carnavalesco
Fábio Batista revelou que a proposta estética do espetáculo também nasceu do diálogo com o carnavalesco Sidnei França. Os dois compartilham a formação em História e a atuação nas artes, o que fortalece ainda mais a afinidade entre os profissionais.
“O Sidnei organiza tudo, é muito participativo, chega junto, me mostra a pesquisa, questiona cor, debate cada figura e cada quadro comigo. Ele traz umas questões para mim que minha cabeça fica mirabolando coisas e ele não me deixa sozinho na criação, porque ele é a figura para mim principal para chegar até aqui”, contou.

Foi dessas conversas que surgiu a proposta estética do espetáculo deste ano: a recusa em reduzir Oyá a um enredo restrito ao candomblé, ao ritual e ao culto, buscando também apresentar a orixá como uma presença viva na Mangueira. “A gente imortaliza as figuras divinas numa figura sempre etérea. Iansã como uma mulher feita, mas ela se desconstruiu. Então, quisemos mostrar essa sensibilidade, desconstruir essa ideia de que Iansã só se transfigura em búfalo e raio… Calma! Ela tem suas nuances, tem suas fraquezas. O enredo tem o cunho político do poder feminino, que nem sempre é bélico”.
O que vem depois do espetáculo
Com o minidesfile e o desfile oficial no horizonte, Fábio já projeta a próxima etapa como uma continuidade do trabalho. “Hoje, a gente abriu uma porta e conhecemos a sala. Agora a gente vai para a cozinha e para o quarto”, disse, recorrendo a uma imagem que resume sua relação com o trabalho artístico: uma vez aberta a porta, não há como recuar. “É difícil fazer um enredo que não aconteça; você gritando lá de fora e ninguém lá dentro te ouvindo. E dessa vez a gente está criando eco”.
O plano, segundo ele, é promover um crescimento gradual até a Sapucaí, com novos elementos no mini desfile, público cada vez mais mobilizado e cuidado redobrado com quem carrega o enredo no corpo, da rainha de bateria Evelyn ao casal de mestre-sala e porta-bandeira. “Essas pessoas têm que estar energizadas”, finalizou Fábio.










