
A mesa “Carnaval: economia criativa e projeto de cidades”, realizada no último sábado, durante a edição especial de 20 anos do Desenrolando a Serpentina, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), debateu a importância de compreender o carnaval para além dos dias de desfile, considerando seu papel na produção cultural, na economia criativa e no desenvolvimento dos territórios. Entre os pontos levantados estiveram o financiamento público, a acessibilidade, a preservação da memória e a relação das escolas de samba e dos blocos com as comunidades onde estão inseridos. O encontro reuniu a secretária de Articulação Federativa e Comitês de Cultura do Ministério da Cultura, Roberta Martins; o secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro, Lucas Padilha; o diretor da Associação Artise de Arte, Cultura e Acessibilidade de Brasília, Dorival Brandão; e o carnavalesco da Imperatriz Leopoldinense, Leandro Vieira. A mediação foi da doutora em Comunicação e Cultura e pesquisadora de carnaval Andrea Estevão.
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A discussão abordou como o crescimento do carnaval pode ser incorporado a um projeto permanente de cidade, conectando cultura, turismo, entretenimento, empreendedorismo e políticas públicas. A proposta também foi refletir sobre as possibilidades de trabalho geradas pela cadeia produtiva carnavalesca e sobre como as atividades desenvolvidas pelas agremiações podem movimentar diferentes setores ao longo de todo o ano.
Carnaval para além do evento
Um dos principais pontos do debate foi a necessidade de reconhecer o carnaval como manifestação cultural permanente, em vez de restringi-lo à lógica de um evento concentrado em poucos dias. Para Leandro Vieira, essa mudança de perspectiva é fundamental para ampliar a compreensão sobre o trabalho desenvolvido pelas escolas de samba, que produzem diferentes manifestações artísticas durante praticamente todo o ano.
“A lógica do evento coloca o carnaval dentro da ideia de festa, que faz parte de um calendário. Se o carnaval for apenas uma festa, ele terá uma dimensão específica, restrita aos cinco dias de celebração, o que é diferente da lógica da cultura. Quando você defende o carnaval dentro dessa perspectiva, percebe que ele tem importância durante todo o ano. Isso porque a construção das linguagens visuais nos barracões, ao longo de aproximadamente dez meses, faz parte da produção cultural. Além disso, as escolas de samba realizam atividades musicais e corporais, assim como ensaios que se estendem por quase todo o ano. Se você pensar que uma escola de samba passa pelo menos dois meses produzindo música, poesia e promovendo disputas para a escolha de um samba-enredo, começa a entender que ela também produz literatura. Nesse sentido, defender a escola de samba e o carnaval dentro da lógica da cultura significa reconhecer que a escola de samba é teatro, literatura, linguagem visual, aquilombamento e manutenção de tradições ancestrais, assim como as baterias das escolas de samba são manifestações musicais ancestrais. Portanto, quando você defende o carnaval por essa perspectiva, atribui a ele uma importância muito maior do que a de um desfile de escola de samba, que dura pouco mais de uma hora”, afirmou.
Escolas de samba e a cultura nas periferias
A relação entre as agremiações e os territórios onde estão inseridas também esteve entre os temas centrais da mesa. As escolas de samba desempenham um papel importante na oferta de atividades culturais nas periferias, especialmente em comunidades que não contam com equipamentos como cinemas e salas de teatro. Para o carnavalesco, reconhecer essa atuação é essencial para compreender a dimensão social das instituições e pensar políticas de incentivo que contemplem sua produção permanente.

“Isso amplia a percepção que a sociedade pode ter sobre o que é uma escola de samba, porque ela é um polo de cultura dentro de uma comunidade que, geralmente, não dispõe de cinemas, salas de teatro e equipamentos culturais. Portanto, quando você defende a escola de samba como cultura durante todo o ano, ela passa a ser reconhecida como um polo cultural e um espaço de cultura dentro da periferia. Acredito que esse seja um debate muito maior do que a lógica do evento. Lamento apenas que a maioria dos dirigentes não tenha o letramento racial e social necessário para compreender essa questão. Todos os argumentos são pautados na lógica do evento, da verba e da avaliação de quanto investir em uma escola de samba é lucrativo. Então, fica difícil”, declarou.
Encontros para provocar mudanças
A importância de espaços de discussão como o Desenrolando a Serpentina também esteve entre os pontos abordados. Realizados fora do período da festa, esses encontros permitem aprofundar questões sobre o futuro do carnaval e aproximar profissionais do setor dos representantes responsáveis pela formulação de políticas públicas. O carnavalesco da Imperatriz também falou sobre o tema.
“Eu defendo essa perspectiva que acabei de apresentar e acredito que, durante os dias do evento, não há espaço para esse tipo de debate. Por isso, esses encontros, realizados fora do período do carnaval, mas que, de alguma forma, reúnem as pessoas que fazem parte desse universo, são sempre importantes. Durante a festa, não temos a possibilidade de falar sobre essas questões como fazemos aqui. Já longe dos dias de desfile, existe a oportunidade de promover encontros que possibilitem essas provocações. Hoje, por exemplo, havia representantes oficiais das políticas públicas presentes. E o que acontece nesses eventos? Você consegue fazer provocações com a expectativa de que essas ideias germinem”, concluiu.
Políticas públicas e financiamento do carnaval
A discussão sobre o financiamento foi um dos eixos da mesa, que procurou refletir sobre as condições necessárias para garantir a continuidade das atividades culturais ligadas ao carnaval. Roberta Martins, secretária de Articulação Federativa e Comitês de Cultura do Ministério da Cultura, abordou as políticas públicas voltadas para a festa, a importância do financiamento estatal e os diferentes modelos de apoio ao setor.
O tema dialoga com um dos desafios apresentados pelo evento: reconhecer o carnaval como uma cadeia produtiva que movimenta profissionais e negócios para além do período dos desfiles. A produção carnavalesca envolve artistas, trabalhadores dos barracões, músicos, produtores culturais e profissionais de diferentes áreas, além de atividades relacionadas à comunicação, à moda, à gastronomia e aos serviços.
A mesa também colocou em pauta a relação entre investimento público e reconhecimento cultural. Ao discutir o carnaval para além da lógica do evento, os participantes abordaram a importância de considerar as atividades permanentes das agremiações e dos blocos no planejamento de políticas culturais, ampliando a compreensão sobre o papel dessas instituições na vida das comunidades.
Acessibilidade e memória como parte do projeto de cidade
A acessibilidade foi outro tema abordado durante o encontro. Dorival Brandão, diretor da Associação Artise de Arte, Cultura e Acessibilidade de Brasília, destacou a importância de considerar as condições de acesso e participação no planejamento do carnaval. A questão amplia o debate sobre como a festa pode ser pensada de maneira inclusiva, levando em conta as necessidades de diferentes públicos.
Já Lucas Padilha, secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro, destacou a importância da memória do carnaval. A preservação das trajetórias das escolas de samba, dos blocos e das comunidades constitui uma dimensão importante do reconhecimento da festa como patrimônio cultural.

Segundo ele, a memória permite compreender como essas manifestações se desenvolveram nos territórios e contribuíram para a formação da identidade cultural da cidade. Ao lado do financiamento e da acessibilidade, esse aspecto reforça a necessidade de políticas que não considerem o carnaval apenas como uma atividade sazonal, mas também como uma expressão cultural que reúne história, criação artística e pertencimento comunitário.








