
O futuro das escolas de samba não começa na avenida, mas na infância, no primeiro contato com o pavilhão, no encanto com os desfiles e na convivência com uma cultura que atravessa gerações. Foi com esse sentimento que a Fábrica do Samba, em São Paulo, recebeu, na última segunda-feira, pelo segundo ano consecutivo, a festa do Dia das Crianças promovida pela Liga-SP. Entre apresentações das escolas mirins, brinquedos, alimentos e momentos de confraternização, famílias e representantes das agremiações reforçaram uma mensagem em comum: preservar o samba também significa criar oportunidades para que as crianças conheçam, vivam e deem continuidade a essa história.
A celebração foi além da diversão. Para quem acompanha o carnaval de perto, proporcionar às crianças experiências como essa representa uma maneira de aproximá-las das escolas de samba desde cedo, fortalecendo os laços com as comunidades e garantindo que a paixão pelo pavilhão continue viva nas próximas gerações. A percepção apareceu em diferentes entrevistas realizadas pelo CARNAVALESCO durante o evento.
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Mãe de uma menina que torce pela Imperatriz da Pauliceia, Vilma Maria de Paula destacou a importância de apresentar a cultura do samba às crianças e valorizar as raízes que sustentam a tradição das agremiações.
“Para mim, é tudo. A importância de ela estar curtindo, conhecendo a nossa cultura, os nossos ancestrais. Para mim, é muito gratificante, e ela gosta bastante também, desde a barriga”, contou.

A experiência também foi celebrada por Luana Poletti, torcedora do Camisa Verde e Branco. Integrante de uma família ligada ao carnaval, ela ressaltou que a transmissão desse vínculo começa dentro de casa, mas precisa ser acompanhada por iniciativas que aproximem os pequenos das escolas de samba.
“Nós somos uma família do carnaval, todo mundo lá em casa trabalha com o carnaval. Nossas filhas já nasceram no carnaval. A gente acha superimportante valorizar a cultura, valorizar as tradições e, desde pequeno, conseguir seguir nesse legado e saber a importância das raízes”, afirmou.
Para Luana, a realização de eventos voltados ao público infantil ajuda a mostrar que o carnaval também é espaço de convivência, alegria e pertencimento, além do compromisso exigido pelos ensaios e desfiles.
“É totalmente importante a Liga valorizar as crianças, porque são o futuro das escolas de samba. A gente sabe que, se as crianças não seguirem esse legado, daqui a pouco não temos escolas de samba. É importante incentivar as crianças e fazê-las gostar desde pequenas”, completou.
Cultura, inclusão e oportunidade para as novas gerações
A importância de aproximar as crianças do samba também passa pela necessidade de combater preconceitos e ampliar o acesso à cultura. Pâmela, torcedora da X-9 Paulistana, avaliou que a festa contribui para apresentar às novas gerações o significado do carnaval e os valores que fazem parte da vida das comunidades.
“É importante porque o carnaval precisa ser desmistificado. Às vezes, as pessoas colocam o carnaval como se fosse uma coisa feia, uma coisa do diabo. É importante trazer as crianças para elas verem realmente a essência do carnaval, que é o amor, a união, a preservação do samba e da nossa cultura brasileira”, declarou.

A presença das famílias na Fábrica do Samba também foi uma oportunidade de convivência entre crianças de diferentes agremiações. Para Pâmela, levar os pequenos ao espaço e permitir que acompanhem a escola do coração ajuda a fortalecer essa relação com a comunidade.
A inclusão foi outro ponto destacado por Sabrina Yldebrando, que participou do evento pela primeira vez com a filha, Lorena, e o marido. Torcedora do Vai-Vai, Sabrina ressaltou a importância de iniciativas que ampliem as oportunidades para as crianças e acolham diferentes públicos.
“Eu acho importante porque a desigualdade é muito grande em relação às escolas. Isso cria oportunidades para todos, e tem a inclusão de crianças especiais também, que eu acho muito importante, porque eles abraçam essa causa e ajudam também as comunidades que precisam tanto”, afirmou.

Sabrina também destacou a continuidade do carnaval por meio da participação infantil. Para ela, a aproximação entre as novas gerações e as escolas é essencial para que a tradição não se perca com o passar do tempo.
“Vai renovando de geração em geração e cada vez mais vão participando. As gerações atuais precisam dar continuidade e ver que vale a pena para o carnaval”, disse.
Legado que passa de uma geração para outra
Entre os representantes das escolas de samba, o sentimento de continuidade ganhou um exemplo concreto na história de Kawe Lacorte, mestre-sala da Pérola Negra. Integrante de uma família de sambistas, ele destacou a importância da estrutura oferecida pela Liga-SP e das atividades que permitem às crianças vivenciar o carnaval para além do desfile oficial.
“Foi um acontecimento muito importante para as nossas crianças. A estrutura que a Liga trouxe para esse evento foi muito boa, com entrega de comida, brinquedo e a oportunidade de proporcionar uma tarde maravilhosa para elas nesse dia tão especial”, avaliou.

Para Kawe Lacorte, a renovação do samba começa com o incentivo aos talentos infantis e com a criação de espaços em que as crianças possam descobrir suas próprias vocações dentro das agremiações. Sua própria família representa esse movimento. A sobrinha dele se tornou porta-bandeira mirim neste ano, dando sequência a uma relação com o samba que atravessa gerações. Kawe Lacorte já projeta o futuro dessa parceria dentro da escola.
“Minha sobrinha se tornou porta-bandeira mirim da escola. É de geração em geração que vai acontecendo, e é muito importante a gente não deixar esse legado morrer, a história do samba morrer. Eu, com certeza, vou passar meu cargo para ela, como mestre-sala dela”, contou.
A relação familiar com o carnaval, segundo ele, ajuda a explicar por que a festa tem significado especial para quem vive o universo das escolas de samba. Seu pai e sua mãe se conheceram no samba, assim como irmãos e outros familiares mantêm essa ligação. Agora, a presença da sobrinha na escola representa mais um capítulo dessa história. Kawe Lacorte também destacou a importância da presença das escolas mirins como parte da formação de novos integrantes e da descoberta de talentos dentro das comunidades.
“É muito importante a gente estar aqui, cultuando. Eu sou de família de sambistas, e agora estou passando o legado para minha sobrinha. Acredito que isso acontece em todas as escolas”, afirmou.
Festa para as crianças e para o futuro do carnaval
A programação foi marcada pela participação das crianças, pelos desfiles e pela oportunidade de reunir famílias em um ambiente dedicado à cultura do samba. Para Luana Poletti, a organização e a tranquilidade do evento ajudaram a proporcionar um dia especial aos pequenos. A filha Isadora também aprovou a experiência.
“Eu amei o evento, está muito organizado, está muito legal, as crianças estão curtindo bastante e eu amei, está muito lindo”, disse Isadora.

Sabrina Yldebrando também comemorou a experiência inédita ao lado da filha Lorena. “É a primeira vez que eu estou aqui com ela, com meu esposo. Nossa, é um evento surpreendente”, contou.
Ao reunir diversão, convivência e apresentações das escolas mirins, a festa promovida pela Liga-SP reforçou a importância de aproximar as crianças do universo do carnaval. O desafio de manter vivas as tradições das agremiações depende também da capacidade de acolher as novas gerações e oferecer a elas oportunidades de participação.
Na Fábrica do Samba, a mensagem ganhou rosto e voz nas famílias que levam os filhos às escolas, nos representantes que compartilham suas histórias e nas crianças que começam a construir a própria relação com o pavilhão. Afinal, para que o samba continue atravessando gerações, é preciso que os pequenos não sejam apenas espectadores do carnaval de hoje, mas protagonistas da história que será contada amanhã.









