chacon imperatriz
Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

O mistério, a ancestralidade e o respeito ao sagrado da cultura afro-brasileira são os principais pilares do enredo “A Memória do Rei e o Sumiço de Dona Júlia”, que será apresentado no próximo carnaval pela Imperatriz Leopoldinense. Idealizada por Leandro Vieira, a história resgata a memória da calunga Dona Júlia, do Maracatu Nação Porto-Rico, em Pernambuco, que ficou 34 anos desaparecida. Em 2014, Dona Júlia retornou ao seu maracatu de origem e, com uma história marcante e ritos ancestrais, em 2027, 13 anos depois de seu reaparecimento, será homenageada no maior espetáculo da Terra.
Em entrevista ao CARNAVALESCO, o líder do Maracatu Nação Porto-Rico, Mestre Chacon, revelou que a história com a Imperatriz, sobretudo com Leandro Vieira, começou de maneira inusitada. Isso porque o babalorixá, de início, não viu a mensagem que o carnavalesco tinha enviado pelo Instagram. Em seguida, Leandro ligou diretamente para o líder, que pensou ser mais um pesquisador acadêmico.

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“Quando o Leandro mandou uma mensagem no Instagram, eu não a localizei. Em seguida, ele me ligou dizendo que precisava falar comigo a respeito de coisas da cultura. No início, eu achei que era mais um pesquisador que estaria querendo saber sobre o terreiro, Candomblé, Maracatu… Eu fui. Ele falou: ‘Posso conversar com você agora? Tem um tempo?’. Eu digo: ‘Tenho’. Eu saí de onde eu estava para outro local, e ele perguntou se eu ainda era o Babalorixá, o coordenador responsável do Maracatu, e se podia falar sobre Dona Júlia. Eu digo: ‘Posso’, mas, até então, eu achava que era só mais uma pesquisa. Ele me falou: ‘Não, eu sou carnavalesco’. Ele se apresentou e eu disse: ‘Tudo bem’”, contou o mestre.

Por se tratar de um tema oriundo de religiões afro-brasileiras, eles decidiram que só poderiam trabalhar o assunto com a permissão do sagrado.

“Leandro me disse: ‘Só podemos trabalhar isso se for autorizado pelo sagrado’, porque Dona Júlia, junto com as outras quatro calungas, é tudo de mais sagrado que a gente tem dentro da nação do Maracatu, junto aos orixás, aos eguns, aos mestres e mestras do catimbó. Nós marcamos, joguei o Ifá, fiz um jogo on-line, Oxalufan autorizou, alafiou, e, quando ele autorizou, eu disse: ‘Está autorizado trabalhar o tema e que ela seja muito bem-vinda, bem-vista e bem trabalhada a sua história dentro da Imperatriz’”, disse mestre Chacon.

Com a permissão de Oxalufan, deram-se início aos trabalhos e a uma grande parceria. Quando questionado sobre o desenvolvimento do projeto, o babalorixá não se conteve nos elogios ao carnavalesco.

“Está maravilhoso. Temos uma pegada muito parecida, eu e Leandro. A gente não faz nada que não seja autorizado pelo ancestral, pelos orixás, pelo sagrado. E Leandro é um cara da cabeça muito aberta e muito além do tempo dele. A gente se conecta muito bem. Sou eu no sagrado e ele na conjuntura do profano, da festa, do brilho, da história. Casou muito bem, Leandro/Chacon, Chacon/Leandro, porque, independentemente de tudo isso, a gente se respeita muito. Estamos todos os dias conversando, tentando resolver e fazer o melhor e levar a Dona Júlia e a sua história para o carnaval, para que todo mundo passe a conhecer. É muita felicidade, é muita emoção, é muito mágico e é um desafio, porque é muito fácil você contar o que está no Google, mas contar uma história que estava apagada, desaparecida, guardada, e aí você a tira e a leva para o mundo é muita responsabilidade. Pelo sagrado e pelos ancestrais, tudo o que a gente tem dentro dos nossos terreiros”, afirmou.

O trabalho de Leandro Vieira está resgatando uma memória viva da cultura afro-brasileira de forma clara, para que o público possa entender, se interessar e se apaixonar por Dona Júlia e pelas calungas.

“Sabe quando a coisa é muito complexa e, de repente, ela está sendo tão bem contada, tão bem apresentada, que vai ser tão fácil o mundo entender esse mundo mágico dos eguns, dos ancestrais, do orixá Iansã? Porque falar de Oyá é muito fácil, mas falar do fundamento de Oyá aos eguns e do que ela representa junto com a calunga não é tão fácil. Mas está sendo contada de uma forma tão simples, tão direta, tão objetiva, tão transparente, que o público com certeza vai se apaixonar”, ressaltou mestre Chacon.

Assim como o público sambista irá se encantar com o próximo desfile, Chacon conta que ficou impressionado com o barracão da agremiação, na Cidade do Samba. Durante a visita, o impacto visual das alegorias e fantasias foi marcante.
“A minha maior surpresa foi quando eu conheci lá o grande templo, o templo mágico onde tudo se cria, tudo se transforma e nada se perde, que é o grande barracão, que é um local mágico. Eu não imaginava que tudo era tão grande, era tão mágico. Quando você chega e diz: ‘Está tudo muito vivo, está tudo muito presente’. Pode acreditar que vocês vão ter um grande espetáculo na Avenida. É surpresa”, declarou.

No carnaval, a Nação Maracatu Porto-Rico também está em festa. No próximo ano, os desfiles irão acontecer em dias seguidos. Porém, mesmo com uma agenda corrida, Chacon confirmou sua presença na Sapucaí.

“O Porto Rico desfila no domingo, e aqui é na segunda. A gente termina o desfile, pega o foguete e cai aqui na Imperatriz para estar junto com ela. Dona Júlia desfila no domingo e vai estar aqui com a Dama do Passo, com a Rainha, com tudo o que é preciso e é possível para o carnaval da Imperatriz. Pode acreditar, vai ser um sucesso, vai ser um momento mágico”, disse.
Agora, além do líder religioso do Maracatu, há outra coisa que não pode faltar de jeito nenhum no desfile da Imperatriz Leopoldinense em 2027: “Dona Júlia! O que não pode faltar é ela. Ela vai estar linda, maravilhosa, junto ao nosso grande pai Oxalá, que é o dono do orí dela. Eu só posso dizer a cor com que ela vem, que é branco, porque ela é de Oxalá, já foi divulgado para o mundo, ela não pode vir com outra cor. Mas ela vai estar linda, trazendo todo o axé e toda a magia que os eguns e os ancestrais podem trazer para esse carnaval dentro da Sapucaí, representado pela Imperatriz Leopoldinense”, concluiu.