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Fotos: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A porta-bandeira ‘careca’, com as pinturas brancas tradicionais que simbolizam a iniciação de um iaô no candomblé, empunhando o pavilhão Verde e Rosa com um sorriso marcante, sagrou-se como uma das imagens históricas do Carnaval recente. Na quarta-feira de cinzas de 2016, quando a Mangueira foi coroada campeã com “Maria Bethânia: A menina dos olhos de Oyá”, e o casal Squel Jorgea e Raphael Rodrigues gabaritou merecidamente o quesito, a história foi feita. A cena simboliza a carreira da artista e é o ponto de partida para o documentário de Zeca Brito e Celina Torrealba, que chegou aos cinemas no Festival do Rio.

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O filme traz a história de Squel Jorgea, a primeira porta-bandeira que empunhou os dois pavilhões mais antigos e tradicionais do Carnaval carioca, Mangueira e o atual, Portela. Entre esse feito histórico, uma aposentadoria. Após a trajetória campeã na Mangueira, escola de seu avô, o icônico sambista Xangô da Mangueira, a artista decidiu se aposentar em 2022 e se dedicar à maternidade. Entretanto, o convite da Portela quebra o recesso, e a obra acompanha o processo de preparação até o desfile de retorno, em 2024.

O diretor do filme, mangueirense e fã do trabalho de Squel, se juntou a Celina Torrealba para acompanhar o hiato da carreira da porta-bandeira. A codiretora resume a obra e a motivação do filme a um sentimento: afeto.

“Esse filme nasce da palavra ‘afeto’, de uma relação que Zeca e eu temos com o Carnaval e com a vida. E a Squel incorpora os vários valores que o Rio de Janeiro representa, a alma da nossa história afro-brasileira, que tem na sua maior expressão o Carnaval”, declarou Celina.

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Já Squel conta que o convite para retratar sua história chegou de forma inesperada. Focada na maternidade, teve a oportunidade de ser foliã e aproveitar o carnaval com mais leveza no desfile da Viradouro de 2023. Então, recebeu o convite da Portela no sábado das campeãs, e a produção do documentário acompanhou todo o processo que seguiu.

“Só que no sábado das campeãs tudo muda. E muda para entrar para a história, com o convite da Portela, que, na época, ele era o vice, o nosso atual presidente, Júnior Escafura. As palavras dele são muito marcantes. Ele fala: ‘A Portela precisa de uma porta-bandeira que entenda de tradição e saiba lidar com pressão’. E eu só falei: ‘Ok, vamos’. Então, para aquela mãe que só tinha dois meses, que tinha parido, estava aprendendo a ser mãe, aprendendo tudo sobre esse universo, foi uma grande experiência. E está sendo até hoje, agora, estar aqui neste lugar em que poucas mulheres negras chegam, e poucas mulheres negras da cultura popular e do nosso Carnaval. Então, eu devo ser uma das poucas a estar aqui ocupando esse lugar e, para mim, é uma honra”, declarou.

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Diretores Zeca Brito e Celina Torrealba

Além do momento marcante que vivia, Squel chega para defender o pavilhão da Majestade do Samba junto ao mestre-sala Marlon Lamar no enredo ‘Um defeito de cor’, baseado na obra de Ana Maria Gonçalves. Um tema sensível que trata maternidade e negritude em uma história que ecoa em diversas mães brasileiras, principalmente em Squel. A porta-bandeira se emociona, na película, ao relacionar seu processo de retorno com o enredo do ano e conta ao CARNAVALESCO que esse é o ponto mais tocante da história.

“Neste processo, aprender a lidar com tudo isso, aprendendo a ser mãe, com os hormônios à flor da pele. Eu não lembro das coisas que eu falei. Eu estou super curiosa. Mas você estar aprendendo a ser mãe, voltando ao Carnaval e voltando pela Portela, para fazer história, para ser a primeira a defender os pavilhões de Portela e Mangueira. É uma responsabilidade grande”, declarou.

Entretanto, o filme trata também do processo após o retorno oficial. O casal Marlon e Squel encerra o Carnaval 2024 sem o tão sonhado gabarito. Porém, o acolhimento dos portelenses e a confiança da administração foram base forte para a recuperação e o trabalho da dupla.

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“É um filme, para mim, muito emocionante que vivi. O retorno dela e toda a preparação para o Carnaval de 2024. Toda a dificuldade que foi a retomada dela na carreira, a questão do filho também. E a forma que a Celina produziu o filme, passo a passo, mostrando os problemas, a superação dos problemas. Como a escola disse sempre, é isso: problemas o tempo inteiro, dificuldades têm que ser vencidas, superadas. O resultado, em relação às notas dela, não foi bom, mas a escola apostou na continuidade do casal. E eu acho que isso é muito importante no Carnaval, entender que a nota é importante, sim, mas o processo de trabalho, na avaliação sobre os profissionais, isso tem que ser levado em consideração. E, nos dois anos seguintes, 2025 e 2026, ela e Marlon gabaritando na Avenida. E esse, sem dúvida nenhuma, é um dos melhores casais do Carnaval carioca hoje”, afirmou o ex-presidente da Portela, Fábio Pavão.

Ao trazer temáticas pertinentes, como o julgamento do quesito Mestre-Sala e Porta-Bandeira, reflexão sobre o bailado e o carnaval como trabalho e carreira profissional, Squel vê a obra como uma oportunidade de humanizar o ofício de porta-bandeira.

“Para mim, o filme humaniza a porta-bandeira, que é uma coisa que eu luto muito, que eu tento sempre mostrar para as pessoas. Eu tento sempre ser o mais normal, a mais tranquila possível, para que as pessoas não tenham só a figura do mito da porta-bandeira, mas também tenham compaixão e respeito pelo ser humano, pela mulher. E isso, para mim, é muito forte, muito importante, de estar vivendo agora, de estar aqui neste lugar representando esta mulher, a mãe, a filha, a funcionária, porque enxergam o mito. Mas eu sou funcionária. Eu sou uma formiguinha que faz o espetáculo acontecer. Eu sou mais uma nessa cadeia de grandes artistas que faz o Carnaval acontecer. Para mim, é um sentimento de honra, de alegria e de muito orgulho por estar aqui representando aos meus”, afirmou.

Os diretores reforçam a importância da defesa dos profissionais da cultura, tendo a história de Squel como fio condutor. A escolha de acompanhar uma porta-bandeira também coloca em evidência uma profissão que, apesar de ocupar um lugar central no Carnaval, ainda enfrenta dificuldades para ser reconhecida e valorizada como trabalho.

“Acho que acompanhar uma trajetória de superação de uma mulher brasileira que apresenta o máximo que a gente pode apresentar no nosso país, que é a nossa cultura, que é a cultura genuinamente popular, mas, ao mesmo tempo, com muita dificuldade por conta de toda uma engrenagem social que ainda tem que valorizar muito mais o trabalhador da cultura. É um recomeço a cada ciclo, e a gente acompanhou um desses ciclos, que também foi um ciclo pessoal dela de crescimento, de amadurecimento, de concretizar o sonho da maternidade, de poder também escolher o momento de parar, de poder escolher quando retornar. Para a gente, foi uma oportunidade de testemunhar o momento de vida de uma grande artista desse país e que a gente vai poder perpetuar isso através do filme agora para as próximas gerações e para quem vive nessa cultura e acredita”, declarou Zeca.

Serviço

“Squel – Confissões de uma Porta-Bandeira” no Festival do Rio”

6 de outubro, terça-feira, às 19h
Cinesystem Belas Artes Botafogo 4
Praia de Botafogo, 316 – Botafogo

7 de outubro, quarta-feira, às 18h15
Cine Santa Teresa
Rua Paschoal Carlos Magno, 136 – Santa Teresa

8 de outubro, quinta-feira, às 18h30
Estação Claro Rio 3
Rua Voluntários da Pátria, 35 – Botafogo