
A bateria entra no estúdio e, em poucos minutos, o ambiente começa a ganhar outra dimensão. Surdos, caixas, tamborins e demais instrumentos se encontram, enquanto o samba-enredo deixa de ser apenas uma composição e passa a incorporar a força sonora de cada escola. É o chamado “sabor ao vivo”, aposta de Alceu Maia, diretor musical do álbum dos sambas-enredo do Grupo Especial do Rio de Janeiro para o Carnaval 2027, para aproximar a gravação da energia que toma conta das quadras e da avenida. A proposta é simples na concepção, mas exige precisão na execução: levar para o estúdio uma minibateria tocando de verdade, integrada aos demais músicos e elementos que ajudam a construir a identidade musical de cada agremiação.
* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp
“A concepção do álbum de 2027 é gravar a bateria ‘sabor ao vivo’, como o pessoal fala. A bateria, uma minibateria tocando ao vivo e depois fazer as tomadas de vídeo”, explica Alceu.
Não há como reproduzir no estúdio a dimensão de uma bateria completa, com centenas de ritmistas. A solução é preservar justamente aquilo que torna cada conjunto reconhecível: sua característica, sua levada e o entrosamento com os demais segmentos da escola.
“Cada escola traz para o estúdio a sua característica: harmonia, que eu falo de instrumentos de corda, os instrumentos musicais, a harmonia entre os componentes todos, e o que a gente… também o DNA de cada bateria. Aí depois chega porta-bandeira, mestre-sala, rainha de bateria, destaques, os passistas… E você vê o congraçamento, o entrosamento entre todo mundo de cada escola”, conta.
É nesse encontro que o álbum começa a ganhar personalidade. Apesar de reunir 12 sambas-enredo, o projeto não segue uma receita pronta. Cada agremiação chega com intérpretes, músicos, bateria, arranjos e maneiras próprias de transformar a obra escolhida para o Carnaval 2027 em uma gravação.
Álbum que nunca se repete
Alceu Maia conhece esse processo de diferentes posições. Começou tocando cavaquinho, passou pelos arranjos e pela produção e, depois de um período mais dedicado aos shows, voltou a trabalhar na construção do álbum. Para ele, é um trabalho que está longe de ser repetitivo.
“Eu comecei só tocando cavaquinho, depois tocando cavaquinho fazendo arranjo. Aí, durante uns anos, eu toquei cavaquinho, fiz arranjo, produzi. No início fiquei um pouquinho reticente, mas isso aqui é uma cachaça. É música! Está dentro de mim assim desde molequinho, provavelmente desde a barriga da minha mãe”.
A experiência também permite acompanhar uma transformação que começa muito antes de o samba chegar ao estúdio. Alceu vê as obras ainda nas disputas das quadras e acompanha as mudanças que acontecem até a construção da versão definitiva do álbum.
“Essa jogada do samba-enredo é uma coisa muito envolvente e que a gente pega os sambas desde o início, de quando eles estão concorrendo, até as transformações que vão acontecendo durante as gravações. E cada ano é uma novidade”.
A movimentação entre intérpretes, mestres de bateria, arranjadores e diretores musicais contribui para que uma temporada nunca seja igual à outra.
“Um enredo diferente, são escolas diferentes, cantores diferentes; uma vez o cantor está em uma escola, da outra vez está na outra escola; o mestre de bateria está numa escola, depois está em outra… É um projeto que nunca é estático”.
Cacos e alusivos entram na conversa
Entre os assuntos que costumam provocar discussões durante a produção estão os cacos e alusivos utilizados pelos intérpretes. Segundo Alceu, não existe uma fórmula definitiva para determinar o que entra ou fica de fora da gravação. As decisões são tomadas de acordo com cada projeto e em diálogo com as agremiações.
“Um ano tem mais, outro ano tem menos, um ano pode, outro ano não pode. É tudo conversado, não tem nada assim de imposição nem restrição”.
A escolha também passa pela coerência com a proposta do “sabor ao vivo”. Para Alceu, determinadas soluções podem funcionar muito bem na avenida, mas perder força quando transportadas para uma gravação — e o contrário também acontece.
“A gente ainda brinca com os compositores, brinca com os mestres de bateria, com os diretores musicais que disco é disco, que agora é álbum é álbum, e avenida é avenida. Tem coisas que você pode fazer na avenida que não rende no disco, e coisas que no disco você faz e fica maravilhosa e você não pode levar para a avenida, porque é muito risco e que às vezes nem tem muito a ver mesmo”.
Finais apertadas não são um problema
Como as escolhas dos sambas acontecem em datas diferentes, algumas escolas chegam ao estúdio com mais tempo de preparação do que outras. Para Alceu, no entanto, o calendário apertado não costuma ser um obstáculo para profissionais acostumados à dinâmica das baterias.
“Todos os sambas que vão para a final já ficam bem na cabeça do mestre de bateria, do diretor musical, da pessoa que vai fazer o arranjo. A bateria já tocou o samba nas disputas. Todos os mestres de bateria têm gabarito e competência para pegar um samba no sábado passado e gravar na segunda-feira. Os mestres de bateria são maestros de uma orquestra de percussão. Antes, às vezes você recebia um samba às 2h da manhã para gravar às 9h da manhã, e você tinha que fazer os arranjos de duas escolas. Iam dois sambas para a final da escola X, eu já fazia o arranjo… Já fazia os dois arranjos para poder dormir na véspera”.
Se há algo que a experiência ensinou a Alceu é que a impressão deixada por um samba durante as disputas nem sempre determina o que acontecerá no estúdio.
A gravação pode revelar qualidades que não estavam tão evidentes nas apresentações das quadras. Também pode confirmar a força de uma obra que já chegava madura.
“É um mistério: tem sambas que você acha que eles são médios e chegam aqui e viram… crescem muito. E outros que já estão tão bem que chegam aqui e não evoluem mais, continuam muito bons também. É sempre uma surpresa”.
A diferença, para Alceu, está justamente na natureza do projeto. O álbum reúne escolas com identidades, profissionais e concepções distintas, fazendo com que cada gravação tenha seu próprio caminho.
“Quando você faz o álbum de um artista, é um artista em todas as músicas. Aqui são 12 artistas diferentes. Cada álbum é diferente. As músicas são diferentes, as levadas, as concepções, as ideias”.









