
A Torcida Jovem comemorou seu aniversário de 57 anos no último sábado. Teve bolo, queima de fogos, sinalizadores, shows de Gica, MC Lon e Samprazer, além, é claro, da escola de samba! A noite de festa foi a data escolhida pela diretoria para que a comunidade cantasse, pela primeira vez ao vivo, o samba-enredo do Carnaval 2027. A obra é assinada pelos compositores Capuava ABC, Glauco do Cavaco, Maurício Rocha Jr., Rafa Hecht, Dodô Ananias, Baco, Ricardo Bernardes, Alex do Cavaco, Ygor Dla Sant e Vila Ede (in memoriam). O enredo “Porto de Santos – O Mundo se Encontra Aqui” atraca na Torcida para conectar a identidade e a história da comunidade santista. A opção por falar e cantar sobre o porto mais famoso e importante do país já era um sonho antigo, porque o clube e a cidade de Santos puxam a Jovem como o mar.
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O presidente Jefferson Silvano, o Jé, destacou ao CARNAVALESCO tudo o que este enredo representa: “O que ficou mais forte, e mais latente entre a gente, foi a questão de qual enredo iríamos escolher. E tocou no nosso coração. Falar sobre o porto já era um tema antigo que a gente queria falar. O nosso fundador Cosmo Damião, que hoje não se encontra mais aqui, tinha uma vontade muito grande de falar do porto, por causa da história em si. Pela ligação da cidade de Santos com o time de futebol, e toda essa questão que o porto envolve. O quanto mexe e movimenta a cidade. O que pegou mais mesmo não foi a questão dos compositores, mas a questão do enredo; tinha que ser o ‘Porto’. Tem a ver com o Pelé e a época que o Santos viajava de navio, os vários imigrantes que vieram e hoje estão em Santos. O porto é um tema perfeito que liga o Pelé, a Vila Belmiro, a cidade e a torcida”, exaltou.

Perguntado sobre sua parte predileta no samba, o presidente comentou o cotidiano dessa vida serrana, de ter sede e participação no carnaval em São Paulo, mas com a certeza de defender e ter seu coração na descida da Imigrantes-Anchieta: “Quando fala ‘e fez de Santos o nosso lugar’. É isso! O porto, com toda a sua história, fez, de fato, Santos ser o nosso lugar. Isso é uma coisa bem real. Hoje, é o nosso local sagrado. Por mais que a gente seja uma torcida organizada daqui de São Paulo, o nosso time é de Santos, e, para a gente, isso é muito importante. Gostei muito do refrão principal, e o do meio, porque a gente já ganhou um carnaval falando de Iemanjá em 2023. É um refrão que fala sobre essa ligação com as águas e Iemanjá. É uma parte que eu gosto muito”, declarou.
Escolha por uma comissão
A Torcida Jovem opta por organizar seu carnaval através de uma comissão. Dentro das possibilidades e da trajetória da escola, a posição de não ter carnavalesco tem funcionado, e, segundo o presidente, essa estrutura montada em 2020 tem colhido bons resultados: “Tenho uma ambição muito grande de colocar a Jovem no Grupo Especial; é uma meta da nossa gestão. Enquanto isso não se concretizar, eu não vou desistir. A Torcida Jovem sempre teve carnavalesco. Só que a gente passou por alguns momentos difíceis e precisávamos fazer renascer o carnaval da Jovem. Quando a gente montou essa comissão de carnaval, deu certo. E ela se estende até hoje. Obtivemos grandes resultados. Quem acompanha um pouco do nosso trabalho vê que a gente vem batendo na trave quase todo ano. Eu gosto muito do modelo que tem um carnavalesco, um enredista e todo esse contexto. Porém, hoje, para a Torcida Jovem, e pelo momento que a gente vive dentro da nossa realidade e dificuldade, associado ao perfil da nossa escola, o melhor é uma comissão de carnaval. E as pessoas que fazem parte são pessoas que estão aqui por amor e fazem esse trabalho com muito coração. É o sentimento na ponta da chuteira”, contextualizou.

Integrante da comissão e diretor de carnaval, Evandro Guedes especificou como foi o processo de diálogo com os compositores: “A gente teve, sim, um cuidado muito especial para falar com os compositores. Passamos para eles tudo que a gente precisava, e de uma forma que eles conseguissem entender. Tivemos oito sambas que vieram concorrer. E foi uma concorrência fechada, interna. Nós decidimos e mexemos muito pouco nesse samba. Foi muito bem elaborado pelo pessoal do Capuava e Companhia. O samba está perfeito”, salientou.

Muita coletividade na quebrada
A música encontrou um enredo que conecta todos os elos do que a Torcida Jovem significa. De olho, ou melhor, com os ouvidos ligados nessa identidade coletiva e histórica que forjou a comunidade santista, o mestre Marcelo Caverna organizou essa perspectiva que introjeta cultura e ritmo, e o que vislumbra e planeja para a ‘Firmeza Total’ navegar no Anhembi: “É um samba-enredo que tem a cara da Torcida Jovem, em todos os sentidos; questão de melodia, homenagem a uma cidade que temos uma ligação histórica profunda. Nascemos como Torcida aqui na cidade de São Paulo, em 1969. Daí, a escola começa a desfilar em 1978. Mas é inegável que a Torcida Jovem é ligada ao Santos Futebol Clube e toda a comunidade da Baixada. É muito importante prestarmos essa homenagem ao ‘Porto de Santos’. Esse lugar de chegada e partida, e que ajudou a forjar a cultura popular do Brasil e do povo brasileiro. Sobre a batucada, quando você chega com um enredo que tem toda essa conexão e sintonia, e um refrão muito especial que fala dessa bênção de Iemanjá abençoando o porto, e das pessoas que lá trabalham e suas fés, fica ‘delícia’. Como uma escola de samba oriunda de torcida, há muita fé nas nossas veias e na nossa alma. Preparamos uma bossa muito especial para esse momento de Iemanjá. Temos outra bossa muito bonita no refrão principal, e uma outra surpresinha que a gente está guardando a sete chaves. Agora é aquele momento de lapidar o diamante, e o andamento vem com aquele jeito nosso; entre 146, 145 e 144. Varia nesse ‘ziriguidum’; bora que bora”, dissertou.

Voz do porto
Depois de embarcar no meio do percurso no Carnaval 2026, o intérprete Ivan Ribeiro, o Ivanzinho, assume o leme para seu primeiro ciclo completo na Torcida Jovem. O cantor expressou suas expectativas com o samba-enredo de 2027 e como as diretrizes das vozes estão sendo preparadas: “Esse ano vai ser completamente diferente, porque o samba foi feito para eu cantar. Vamos trabalhar de uma forma que vai ser melhor para todo mundo. Para a ala musical e para as cordas. O elenco inteiro em si está começando a trabalhar com um único cantor; um que já trabalhamos há quatro anos juntos e no mesmo elenco. A dificuldade será menor porque a gente já se conhece e temos pessoas bem experientes no elenco. Vai ser um ciclo mais fácil. Um samba bom e que podemos lapidar legal. Adaptaremos alguns trechos para melhorar para todo mundo, porque não adianta ficar fácil para mim e ruim para os outros; ficar bom para todo mundo. É uma questão de interpretação. Eu vou fazer de uma forma que não fuja tanto do coro. Vou procurar fazer de uma forma que todo mundo cante igual a mim, ou pelo menos próximo. Tem pessoas que cantam muito mais que eu. E, em alguns trechos, eu vou tentar cantar igual a eles. Vamos caminhar bem. E, se Deus quiser, dará tudo certo”, explanou tecnicamente.

Pavilhão já trabalha no porto
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Pingo e Verônica Nascimento, já trabalha a coreografia em cima do samba. Segundo Verônica, a rotina de ensaios está tranquila, fluida e consistente: “O samba é muito melódico e nos dá várias entradas para coreografias diferentes. Desde o processo da inclusão do samba para a gente, nosso ensaio tem sido bastante leve, proveitoso e com duas folgas na semana, tipo CLT”, brincou.

Para o mestre-sala Pingo, o conhecimento prévio do samba ajuda na elaboração da coreografia e nos ajustes técnicos do segmento. Apesar da tentativa de desconversar e guardar no convés alguma novidade exclusiva da dança, o CARNAVALESCO conseguiu do mestre-sala uma dica, ou melhor, uma palavra: “Não era para falar nada, mas tudo bem: mar”, emergiu.
O samba-enredo da Torcida Jovem foi, sem dúvida, abraçado por seus componentes. Unir história, identidade e poesia é sempre um bom passo para construir um desfile histórico e/ou uma música inesquecível. Sobre uma parte preferida do samba, Verônica dividiu um trecho que ela e Pingo partilham a opinião: “A parte que fala do barão e do café; onde entra no segundo refrão. É a parte mais emocionante e, assim, toca o coração”, concluiu.









