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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

A Mocidade Unida da Mooca inovou na maneira para apresentar as fantasias para o Carnaval 2027. Ao invés da tradicional Festa dos Protótipos, a MUM idealizou uma exposição para exibir as indumentárias para a própria comunidade e para os sambistas da cidade. Intitulada “Antes que o samba desfile – o enredo ainda em silêncio”, a mostra teve início nesta sexta-feira no Bananal Arte, na Barra Funda, Zona Oeste de São Paulo. A MUM será a sexta escola a desfilar na sexta-feira do Grupo Especial de São Paulo e terá como enredo “Modupé, Cardeais”, assinado pelo carnavalesco Renan Ribeiro. Sempre presente em eventos importantes para as escolas de samba de São Paulo, o CARNAVALESCO conversou com pessoas importantes para o desfile da MUM em 2027.

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Artista com a palavra

Perguntado sobre a inspiração para a criação do conjunto de fantasias da Mocidade Unida da Mooca para 2027, Renan apelou para o espírito do enredo em geral: “Tem um incômodo de alguns anos para quem é sambista de São Paulo e para quem conhece profundamente o carnaval de São Paulo, suas características, sua estética, sua sonoridade, seu jeito de fazer, de desfilar e de pensar carnaval. Vem um incômodo por conta de um distanciamento que a gente tem evidenciado cada vez mais ano a ano daquilo que é a nossa cara e uma busca desenfreada por referências de outros carnavais, de escolas de samba e de outras praças, principalmente do Rio de Janeiro: um espelhamento que não faz parte da nossa tradição nem da nossa cultura. O carnaval de São Paulo não precisa de outras referências a não ser se referenciar na própria história. Esse incômodo que vinha ano a ano se agravou a partir da gente sentir a necessidade de se religar com a nossa própria história: não só se reconectar com a própria história (porque vez ou outra a gente se conecta com ela com algum tipo de enredo ou história que leva a gente em algum aspecto para as tradições do carnaval de São Paulo) mas, também, se reconectar com o jeito de fazer, a estética do carnaval de São Paulo e o jeito que a gente faz carnaval seguindo aquilo que é da cultura do carnaval paulistano. A gente vem sentindo falta disso”, lamentou.

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Logo depois, o carnavalesco exaltou o resgate que o desfile da MUM em 2027 fará: “O que a gente propõe nesse enredo, além da celebração dos 60 anos da regulamentação do carnaval para além da homenagem aos cinco cardeais do samba de São Paulo, é propor o nosso carnaval. Que essa corrida desenfreada pelo resultado, pelo regulamento, pelo critério de julgamento: a gente pode pensar isso de maneira mais trabalhosa, mas de uma forma que a gente não deixe o concurso de lado, não abra mão do concurso, porque a competição faz parte desde sempre; mas que isso não faça com que a gente deixe nossas tradições de lado, nosso jeito de fazer de lado e abrir mão das nossas tradições. O que motivou a gente foi propor um enredo e um desfile que tenham as características dos desfiles tradicionais e fazer com que eles se encaixem no jogo de hoje. Continuar competindo, mas entendendo que essa comunhão entre esse carnaval grandioso que a gente tem hoje não pode ser a substituição do carnaval de São Paulo”, explicou.

O profissional aproveitou para destacar o quanto a temática está mexendo com a escola: “Eu vejo muita comoção interna por conta desse enredo. Com a gravação do audiovisual, que gerou uma comoção muito grande para várias pessoas que têm essa necessidade e essa saudade, acordamos desse desespero que o sambista vem sentindo há algum tempo, do distanciamento, de talvez chegar em algum ponto onde a gente não consiga voltar mais”, refletiu.

Cores, materiais e estampas

Em questões mais técnicas relacionadas às fantasias, Renan destacou que a profusão de tons que as escolas de cada um dos cardeais não foi um problema em momento algum: “As cores, para mim, nunca foram uma questão. Quem trabalha comigo ou quem me conhece mais próximo, sabe que eu tenho uma preocupação muito grande com as cores da escola. Não só com a cor da própria escola, mas com a cor do desfile, do que o enredo propõe. Mas isso não foi uma questão para mim, porque desde o início a ideia era um carnaval festivo. Essa mistura de cores é uma escolha que a gente faz desde a escolha do enredo, qual o caminho a seguir com a colorimetria da escola. Essa mistura de cores, na verdade, é mais um impulso para tornar tudo muito carnavalesco, tudo muito colorido, tudo muito carnavalesco. Obviamente que a gente tem essas misturas de forma consciente e os cardeais vão entrando no enredo em períodos diferentes, e vai se colorindo diferente também o desfile conforme eles vão entrando. Eles aparecem no começo do desfile, depois eles vão aparecendo no decorrer da história de novo. A gente não abre mão do vermelho da escola: apesar da MUM ser uma escola com três cores, o vermelho é a cor que a escola mais usa. Eu não abro mão disso na abertura. E depois, conforme o desfile vai se desenrolando e eles vão entrando para dentro do desfile, as cores vão também aparecendo nas escolas de cada um deles e todas se relacionam com a própria cor da escola. De tudo, a minha preocupação sempre foi, desde o início, em relação à cor, respeitar a coloração que a gente via antigamente na escola. Hoje, com o advento da tecnologia e da importação de materiais que os últimos anos deram para a gente, eu busquei sempre cores mais sóbrias e mais chapadas, sem muita distribuição de tonalidades, porque antigamente não tinha isso. E eu quero voltar a essa mistura de cores mais dura, mais primária”, relembrou.

Sobre as cores que serão utilizadas na agremiação, o carnavalesco novamente resgatou os antigos desfiles das escolas de samba paulistanas para explicar a produção das indumentárias: “A gente fez muita pesquisa em relação aos materiais. Usando muito cetim e muito brocado, que são os tecidos que a gente usava. Também quero dizer que fizemos, principalmente, uma pesquisa de estamparia muito extensa para poder remeter a esses carnavais. Muito listrado, muita bola, muito losango, muito quadriculado, muito xadrez, que eram esses tecidos usados mais antigamente. Preto com branco, vermelho com branco, verde com branco, verde e rosa, que o Pé Rachado também carrega. A gente foi buscando essas referências de estamparia e de tecidos que remetam a isso. E principalmente os contornos, os brilhos e essas cores muito fortes. Antigamente, o vermelho era vermelho-sangue, o verde era verde-bandeira. Todas essas cores têm esse tom forte, porque antigamente não tinha o verde-água, não tinha o azul-celeste. Quando você ver azul, é azul-royal. Esses tipos de cores, de estampas e tecidos foi o que fez parte da pesquisa”, comentou.

Preferências

O carnavalesco detalhou quais são as fantasias que vieram à mente dele quando foi indagado sobre qual a fantasia predileta: “Não sei se eu tenho uma fantasia favorita, porque todas elas são muito diferentes. Mas gosto muito da fantasia da Ala das Baianas, principalmente porque é uma fantasia muito tradicional, com laçarote, com turbante, com babado, com renda, com colares, com balangandãs, com pano nas costas, tudo que baiana merece. Eu também gosto muito da fantasia dos cinco cardeais, que representam cada uma das alas deles. E tenho um carinho muito grande pela ala de abertura, que é a ala dos Cordões e dos Ranchos, que são roupas de época: gosto muito dessa pesquisa estética de modelagem que foi feita em cima das roupas dos anos 1910, 1920, 1930, esse período em que os cordões, os ranchos e os blocos de rua estavam em alta. Gosto muito também de uma fantasia que é um outro ponto do enredo, que são os blocos de rua. Como exemplo, temos o Bloco dos Esfarrapados, que existe até hoje lá no Bixiga, que é de 1947 e completa 70 anos em 2027. A gente vai fazer uma ação com eles mais para frente. E da Batalha de Confete da Vila Esperança, que é do final do século XIX também”, afirmou.

Rafael Falanga, presidente da Mocidade Unida da Mooca, utilizou uma vivência dele próprio para destacar uma indumentária favorita: “Todas as fantasias mexem muito comigo, mas, na minha origem como sambista, eu passei muito tempo como ritmista, depois fui mestre de bateria da MUM por 12 anos e passei por várias escolas. A fantasia da bateria, para mim, é uma das fantasias mais representativas. Isso é uma questão pessoal pela minha origem sambística. Homenagear o Lagrila, o maior campeão como mestre de bateria do carnaval de São Paulo, campeão em dez anos seguidos e em quatro escolas diferentes… ele e uma das maiores referências como mestre de bateria da história de São Paulo. É muito especial, pessoalmente falando. Eu tenho uma outra, também, que é muito especial, que é a do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira: é uma homenagem lindíssima a Pato N’Água e Dona Maria Ester. É um enredo repleto de homenagens, de lembranças, de resgates: a gente vai ver essas homenagens ao longo da avenida, em alegorias, em guardiões de casal e em diversos setores que a gente vai se sentir representado. A gente, como sambista, vai se sentir muito representado nesse desfile”, comemorou.

Presidente exultante

Falanga, por sinal, mostrou estar bastante alinhado com o carnavalesco da escola comandada por ele ao exaltar o conjunto de fantasias por meio do enredo: “É um desfile de sambista para sambista! É um desfile que conta a história de muitos títulos do Carnaval, a história de grandes sambistas, as pedras fundamentais do carnaval de São Paulo. E vai ser um desfile grandioso também, não poderia ser diferente, porque já é uma característica da escola, tem toda uma atmosfera envolvida, a grandiosidade das escolas que estão representadas nas fantasias. É um desfile de muito volume, mas ao mesmo tempo é um desfile de muitas intervenções, que vão trazer à tona movimentos que a gente via no passado e hoje a gente não vê mais, movimentos que ficaram pela história e a gente vai fazer um resgate dentro, óbvio, de um contexto seguro, com as ferramentas que o regulamento nos oferece para isso. Tudo para tentar mostrar para o carnaval de São Paulo a proposta desse enredo: um resgate de fato do que a gente deixou, do que ficou pelo caminho e que precisa ser, de alguma maneira, resgatado e fomentado nas novas gerações: ala de pandeiristas, baliza, quituteiras, cabrochas, passistas, do desfile mais solto. Faremos isso numa ala de ação justificada, em que a gente pode provocar essa questão. É um desfile que eu acredito muito que vai representar a vontade e o desejo de muita gente que frequenta o Anhembi nessas últimas décadas. É um desfile que vai refletir o passado e que vai ficar marcado por isso”, comentou.

Assim como o carnavalesco, o presidente não viu grande problema em ver a Mocidade Unida da Mooca, uma escola que tem o vermelho, o verde e o branco como cores, utilizar uma cromia muito mais extensa no desfile da próxima temporada: “É um prazer esse multicolorido! A gente retratar o Vai-Vai, retratar os cordões, a Nenê de Vila Matilde, Camisa, Peruche, Lavapés… a gente está falando da história do samba de São Paulo, da nossa origem! Em 2019, trouxemos o enredo ‘Manto Sagrado, a história que o tempo bordou’, que era similar ao enredo de 2027. A gente dizia, naquele samba, que também foi escrito pela nossa parceria, que ‘bem mais que preto, verde, branco ou colorido, eu vejo o mundo no estandarte de um cordão’. O carnaval é alegria, é cor, é história. A história tem que ser contada e reverenciada à maneira que ela foi escrita. É o que a gente vai fazer com o maior orgulho do mundo, com o maior prazer, mesmo tendo escolas homenageadas concorrendo com a gente nesse carnaval. Esse carnaval é acima do concurso, é um carnaval genuíno, de uma homenagem merecida e que a gente vai fazer e vai exaltar essas grandes escolas e esses grandes personagens da nossa história com o maior prazer do mundo”, finalizou.

Evento intimista

O primeiro dia da exposição “Antes que o samba desfile – o enredo ainda em silêncio” teve a presença de segmentos importantes da MUM, como Velha Guarda, Direção de Harmonia e Musas. A escola também apresentou, em primeira mão, trechos do audiovisual do samba-enredo de 2027 da Mocidade Unida da Mooca, produzido pela própria agremiação. Por fim, dona Iracema, viúva de Betinho e nora de seo Nenê, um dos cardeais do samba homenageados pela Mocidade Unida da Mooca, pediu a palavra e emocionou ao relembrar o carnaval antigo de São Paulo, pedir união da escola e perguntar: “Se vocês estão representando tantos títulos na avenida, por que não imaginar que vocês podem ganhar um?”, refletiu.

Nos próximos dias, a exposição terá roda de conversas com os carnavalescos Caio Araújo (Mocidade Alegre), Flávio Campello (Tom Maior) e Augusto de Oliveira (atualmente na Associação Cultural Orun Àyé e com passagens por coirmãs como Nenê de Vila Matilde, Camisa Verde e Branco e X-9 Paulistana); visitação à exposição com parentes dos cardeais do samba e outra roda de conversas com os biógrafos dos respectivos homenageados.