viradouro final27 5
Fotos: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Encerrando o ano que garantiu a quarta estrela para a Viradouro, a escola apresentou um show de potência musical e saudação à memória ancestral em cada detalhe: do show ao samba escolhido, e até mesmo o convite carinhoso a um representante de cada escola de samba para aproveitar a noite na quadra, no conforto do melhor camarote da escola. Ao falar de memória, o show não poderia começar de outra maneira. A escola homenageou a cantora Débora Cruz, que faleceu em agosto deste ano, em uma versão delicada da música “Andar Com Fé”, de Gilberto Gil, entoada pelo carro de som da agremiação.

Em seguida, o show se iniciou com o bailado de Phelipe e Marcela ao som do samba-exaltação da escola, junto aos outros dois casais da escola, em um belo destaque aos três pavilhões. O repertório passou pelo samba de 1999, em homenagem a Anita Garibaldi, cantado a plenos pulmões pela quadra; o campeão “Arroboboi, Dangbé”, de 2023, também esquentou a quadra. Já o icônico samba de 2007, “A Viradouro vira o jogo”, também trouxe a musa Madu Fraga ao palco. Apesar de não haver grande teatralidade ao longo das apresentações, e de haver um foco maior em boas apresentações dos segmentos, as musas Madu Fraga, Carol Macharethe e Lore Improta performaram de forma interessante, integradas aos grupos coreográficos, por vezes surgindo em meio aos componentes, como grandes “divas”. Uma brilhante valorização para um dos melhores times de musas do carnaval, atualmente.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

viradouro final27 6

Os segmentos foram apresentados de forma concisa, incluindo um momento dedicado ao canto do time de Harmonia da escola, que pulava e cantava em frente ao palco ao som de “Orgulho de Ser Niterói”. A parte musical terminou com o show à parte do samba que rendeu o último campeonato da escola, em 2026. “Pra cima, Ciça” continua tão apoteótico quanto sua passagem na última segunda-feira de carnaval: Ciça emociona o público, comanda a bateria, é erguido pelos diretores de harmonia, e o canto explode na quadra, em festa.

A chave para 2027 virou de forma simples e simbólica: o “Griô”, que personifica o enredo na representação, entrou no palco lado a lado com o casal Phelipe e Marcela, e apertou a mão da representação de Ciça criança, parte da comissão de frente Estandarte de Ouro de 2026.

A montagem foi uma recriação enxuta do que foi apresentado na Noite dos Enredos, com algumas adaptações: elenco reduzido, novas imagens de telão, além da coreografia e movimentos de Ananse que interagiam com as imagens e frases. A performance, ao todo, se destaca pela forma como conseguiu transmitir toda a clareza da sinopse do enredo desenvolvido por Tarcísio Zanon e pelo enredista João Gustavo Melo, de forma ainda mais didática à comunidade. A narrativa traça um paralelo entre os Griôs da África Atlântica e as escolas de samba, que preservam e transmitem um conhecimento ancestral, através da palavra cantada ou falada.

viradouro final27 7

No telão, a frase “tentaram silenciar os saberes, mas a memória persistiu” introduz um momento de exaltação à resistência cultural frente à colonização, trazendo representações de culturas diferentes. Processos pelos quais povos que estão além do Ocidente e do Norte Global passaram, e o próprio carnaval não escapou. Dessa forma, a performance se encerra com malandros representando as escolas do Grupo Especial, sambando ao som de sambas históricos de cada uma. Como uma personificação da Viradouro, Bellinha Delfim surge ao final, dançando junto ao grupo. Para selar a performance, bailarinas ergueram bandeiras com a arte de cada enredo que passará na Sapucaí pelo Grupo Especial em 2027, consolidando o papel de resistência cultural das agremiações.