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Foto: Luiz Gustavo/CARNAVALESCO

A Unidos de Vila Isabel realizou a sua semifinal de sambas-enredo na última sexta-feira, com três obras se apresentando na quadra da azul e branco. O maior destaque da noite ficou por conta da parceria de PC Feital, com uma apresentação impecável. O samba de Ricardo Mendonça também chamou atenção com uma passagem enérgica, enquanto a parceria de André Diniz completou a noite com um desempenho menos vigoroso. A Vila desfilará no domingo de carnaval, 7 de fevereiro, exibindo o enredo “Torto Arado – Sobre a terra há de viver sempre o mais forte”, desenvolvido pelos carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad e pelo enredista Vinícius Natal. A seguir, o CARNAVALESCO analisa a passagem dos sambas finalistas.

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Parceria de PC Feital: Rafael Tinguinha e Juan Briggs cantaram a obra de Thales Nunes, Paulo César Feital, Gustavinho Oliveira, Danilo Garcia, Julio Alves, Marcelo Martins e Gabriel Simões. O refrão principal “Jarê, Jarê, vai descer o morro todo, o Brasil nasce de novo pela força da enxada, o quilombo é do povo, é a Vila incorporada” mais uma vez mostrou sua valentia, levantando a apresentação. A primeira parte possui uma construção mais poética, formatada na forte ancestralidade que permeia o livro-enredo, em versos como “eu ando pelas águas pra cicatrizar, a velha mágoa, memória secular, zanzei em corpos pelo breu, de quem me recebeu na gira e no altar”. O refrão central “Eh Donana, caboclo vai caminhar, simbora do Caxangá, simbora Vila, ê Donana, encantado tem poder, incorpora no Dendê, incorpora Vila” puxa bem o canto e melodicamente tem ótimo funcionamento. A melodia é bem construída e, na segunda parte da obra, melodicamente é bem inspirada, como nos versos “Velho curador, Santa Rita pescadeira, aqui estou eu, no terreiro vivo que me acolheu, e resiste em águas negras”. O trecho final “livrar do severo abandono, esta terra que tem dono, hoje tem macumbaria” encerra com força um samba redondo e bem construído, cujo desempenho foi excelente nas primeiras passadas, com muita sustentação e uma melodia extremamente agradável se sobressaindo, com ótimo desempenho dos dois refrãos. Nas duas últimas passadas, o desempenho foi um pouco menos quente, mas seguiu estabilizado e deixando suas qualidades evidentes. O samba teve boa recepção do público presente fora da torcida e alcançou uma grande apresentação.

Parceria de Ricardo Mendonça: Evandro Malandro e Lissandra Lima foram as vozes principais do samba da parceria de Ricardo Mendonça, Jarbas Bittencourt, Diego Nicolau, Diego Jorge, Aldir Senna, Antônio Pontes e Gigi da Estiva. A dupla defendeu a composição de maneira visceral, buscando inflamar palco e público. A obra emenda uma sequência de três bis, sendo o mais contagiante e que possui maior magnetismo o dos versos “abre a sala de Angola, olha a Vila, lelê, abre a saia de Angola, olha a Vila, leleco”, enquanto o anterior “Quem ama a terra é quem tem que colher, quem ama a terra é quem tem que morar” retrata a imagética do enredo. O bis de cabeça que completa o conjunto “Samba vai virar jarê, samba vai virar jarê” tem a pegada de uma cantiga de roda e encerra muito bem a sequência de versos que inicia com categoria a composição. A narrativa da primeira parte exalta o amor pela terra e a força daquele chão presente na Chapada Diamantina, vide os versos “Essa mesma terra onde Donana semeou, nascem duas rosas, fruto do amor, quando o verbo cala, fala o olhar, como o rio abraça o mar”. A parte central possui força mesmo sem possuir um refrão de fato, muito por conta da narrativa que inicia o ritual de jarê e a evocação aos orixás, com uma melodia que possui estrutura de refrão, porém sem repetição dos mesmos versos, “Eparrei Oyá, ora iê iê mamãe Oxum, na gira, Cosme e Damião chamou Doum, andei na mata de Odê, pedi a cura, Atotô, traz a justiça em seu oxé, Obá Xangô”. Na sequência, utilizando a mesma estrutura melódica, surgem os versos “Axé velho nagô pra sete saia incorporar, e ver a dança de Ogum e Iemanjá, sou nesse mar de Vera Cruz, um saravá, epa babá, amém Jesus”. A segunda parte começa com uma narrativa carregada, vide versos como “quanta injustiça, meu Deus, no encanto de Severo, o rio sangrou, eu me desfiz em chuva, pra só mais uma vez molhar tua boca e galopar teu corpo”, que contam a passagem com bastante lirismo. Um samba que une uma melodia qualificada, com variações diversas, e uma narrativa construída com poesia e carregada na tinta emocional em alguns momentos. Essa miscelânea gerou uma apresentação com grandes momentos, como na sequência de refrãos, principalmente o “Abre a sala de Angola…”, que em todas as passadas se exibiu com uma potência absurda. Em outros momentos do samba, o mesmo teve uma queda na temperatura e na fluidez da apresentação, principalmente na primeira parte, resultando em um desempenho com algumas oscilações, mas os momentos de maior ápice foram de impressionar.

Parceria de Martinho da Vila: André Diniz, na primeira passada, e depois Vandinho Pires lideraram a apresentação da parceria de Martinho da Vila, Evandro Bocão e André Diniz. A obra tem uma estrutura de um refrão “a semente que ficou é se juntar, dividir o que plantou, e se a vida derrubar, enxugue o pranto, te levanto pra lutar”, que é de semântica simples, bonita e teve um funcionamento correto, seguido de um trecho que possui uma linha de refrão principal, porém não tem bis, “nas páginas de um livro admirado, torto arado é retrato brasileiro, a nossa Vila, mais que uma escola, aguerrida quilombola, risca o chão desse terreiro”. Pela narrativa e melodia, acaba obtendo um funcionamento maior que o refrão. A primeira parte apresenta variações melódicas interessantes, algumas conexões entre versos que fogem da linha mais comum, mas que funcionaram dentro da obra, vide o trecho “tortuosa travessia que o destino reservou, e a poeira anuviou, a cobiça inebriante lapidava diamantes”. O refrão central “na brincadeira, o batuque do jarê, rodo na gira do corpo pra corpo benzer, à luz de um velho nagô, o lume de lampião, o caruru na tigela comendo com a mão”, que inverte os versos na repetição, tem uma estrutura interessante e resume os ritos de Jarê, mas não alcançou um grande desempenho. A segunda parte dá protagonismo às irmãs da história nos versos “a professora dá a mãos à profetiza, nos dramas, na lida, na fé e no amor, mulheres destemidas não se calam, contra injustiças e grilhões”, com narrativa mais descritiva. Mais uma vez sem a presença de Wander Pires, o samba sentiu a ausência e não chegou ao seu nível máximo, apesar do esforço dos intérpretes, principalmente Vandinho Pires, que segurou bem durante a apresentação. A obra teve alguns momentos de mais fôlego, como no citado trecho antes da cabeça do samba, mas, no geral, foi uma apresentação correta, realçando a narrativa seguida pela parceria, bons momentos em letra, porém sem maior pujança.