
A União de Maricá realizou, na noite da última sexta-feira, sua segunda eliminatória para a escolha do seu samba-enredo para o carnaval 2027. A escola, que estreia no Grupo Especial e vai abrir os desfiles no domingo de carnaval, irá homenagear Darcy Ribeiro com o enredo “Utopia Brasil”. A seguir, vem a análise do CARNAVALESCO sobre as parcerias que se apresentaram.
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Parceria de Diogo Nogueira: O samba não contou com a presença oficial do seu intérprete, Pitty de Menezes. A obra veio trazendo uma abordagem bastante diferenciada dentre todas as parcerias que estão concorrendo, pois é o próprio Darcy Ribeiro, em um tom mais aguerrido, que narra a própria história. Um trecho que se destaca pela sua força lírica é: “De tudo isso é que eu nunca fui omisso. A feira, a festa, a cada rua o compromisso, de enxergar este país qual procissão”, pois mostra, em uma abordagem contextualizada, a infância de Darcy, que, quando é trabalhada de uma forma mais significativa e narrativa, e não cronológica, fica mais forte em sua coesão. Um outro trecho que tem um potencial muito forte é “minha missão eu encarei de peito aberto, no lado do coração que sempre foi o lado certo”, por trazer um significado em suas entrelinhas. Também se destaca o seu refrão: “Se é pela nossa gente, nós não vamos recuar. Clamo ao povo brasileiro: ouça a voz da Maricá! Subversivos, nós seguimos nas trincheiras, pois a luta é a vitória de quem tem uma bandeira”, por, além de trazer um peso lírico, também trazer um peso político mais forte. O samba passou bastante frio, sem empolgar o público presente, e não tinha torcida para acompanhar nessa noite.
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Parceria de Jô Borges: Defendido por Wandinho Pires, Roger Linhares, Alexandre Simpatia, Jô Borges e Cacau Souza, a obra trouxe um dos destaques da noite na parte lírica, por abordar um Brasil cantando para Darcy Ribeiro. Começa muito forte com o verso “Eu sou um pai assim / Tenho tantos filhos, mas não consigo cuidar / Tão bocado a um, mas eu reservo pra mim / Aos preferidos e não posso negar / Um deles tá aqui / Sangue de caboclo / Menino Darcy”. A composição conseguiu trazer uma sintetização de grandes ideias em poucas imagens. Um trecho que se destacou bastante foi “Pele Montes Claros, tatuam no Brasil / Vivos num império imaginário riscado de giz”, pois trouxe uma infância, a utopia e o sonho de Darcy de transformar esse país, com a educação sendo esse instrumento para essa transformação. Outro trecho que se destacou bastante foi “Eu seria tão melhor se andasse no seu caminho / Ajudar os seus irmãos, dar estudo e carinho / Espalhando o saber em catedrais feitas de concreto / Minha neta no cerrado / Legado de um futuro incerto / Tão perto, tão longe de mim”, pois reconhece tudo aquilo que Darcy fez pelo Brasil através da sua luta por educação. Na sequência, ainda passou pelas “fardas e gravatas”, pela volta do exílio, pelo ensino integral até chegar à avenida. O refrão é simples, mas tem potencial muito grande por trazer a identificação com a escola e provocar o canto da comunidade por incluir uma frase utilizada pela agremiação na divulgação do seu enredo: “O povo brasileiro vai tomar a passarela / Meu nome é Brasil e posso afirmar: / Essa utopia já nasceu em Maricá”. O samba passou tranquilo e veio com bastante torcida, levantando as bandeiras para defender o samba.
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Parceria Sandra Sá: Defendido por Emerson Dias, a obra foi uma dos grandes destaques da noite, por trazer Darcy contando a própria história. Apesar de se ater da cronologia que a sinopse gostaria, mas não trouxe uma abordagem literária prezada por poesias como podemos ver nos versos “Cresci sonhando ser coroado / Em plena Festa do Divino / A utopia no olhar de um menino/pela janela da esperança” , que se destaca por trazer beleza e criatividade uma boa síntese de proposta. Também traz uma melodia que conseguiu embalar a composição e traz uma força necessária a sustentação dos versos. O principal destaque em sua forma lírica está no seu refrão “Rodeia as matas de Tupã e da Jurema / Na pajelança aprendi o ritual / Quando o mal da covardia me condena / Eu viro flecha com veneno de coral”. O imaginário criado no verso “flecha com veneno de coral” mostrou a sua força ao condensar a experiência de Darcy junto aos povos indígenas, sua defesa dessas populações e também o seu enfrentamento a violência política. Esse trecho funcionou muito bem durante toda a performance. A parceira também conseguiu mostrar um olhar aguerrido da trajetória de Darcy, especialmente de tratar de alguém que sonhou desde a infância com um Brasil melhor, mas que viveu justamente os conflitos e violências de um país que não realizou essa utopia, que fica bem claro no trecho: “Sem medo vejo que não fracassei / Almejei o florescer dessa nação / E quem tentou me derrubar e me vencer / Sumiu da história e não virou enredo, não”, que também de reescrever a história, recria e rebate um pensamento famoso do antropólogo: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. (…) Mas os fracassos são minhas vitórias. O samba conseguiu empolgar através do seu refrão e uma boa torcida presente na quadra.
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Parceira Magnum Amado: Defendido por Marquinhos Art Samba, a obra trouxe um Darcy contando a própria história, só que em um tom mais sensível, como se vê nos trechos “Fui reizinho nos golguedos, coroado em poesia. Dona Fininha em seus braços me embalava tanta ternura que guardei na travessia”. Vale se destacar a sua beleza poética de versos como nos trecho “feito boiúna, me entranhei na mata, mergulhei nas águas”, que trouxe um abordou um imaginário indígena a uma relação tão próxima do escritor com esses povos, e “Brasil, moinho de gastar gente, que exaltou o caráter aguerrido desta composição. Um outro ponto muito forte da composição é o seu refrão “Voa, acanã, pássaro guerreiro. No avesso de avá, sou Darcy Ribeiro. Canta, acanã na pura eufonia. Destrói com seu canto a extrema agonia”, que foi muito bem recebido pelo público presente, que conseguiu se destacar mais do que o refrão central e a repetição dos versos foi crucial para intensificar esse rendimento. Passou sem ter problemas, mas com uma torcida menos potente na hora de defender esse samba.
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Parceria de Moacyr Luz: Defendida por Tinga, Charles Silva e Matheus Gaúcho, a obra foi a outra grande destaque da noite, por trazer uma abordagem mais descritiva, que se distingue nas suas primeiras estrofes, que resolve imediatamente diferente aspectos do enredos, desprendendo-se da literalidade e da cronologia fiel, dando maior profundidade criativa como no trecho “Desperta pra sonhar / Menino na janela do Divino / Já raiou sua missão / Quando o império desatino / Utopia no destino / Cai na indignação”. Na sequência a obra vem para um tom mais aguerrido e com uma melodia pujante com destaque para o seu refrão “Meu país é Maricá / Utopia mãe gentil / Nunca pare de lutar / Pra mudar esse Brasil / A vitória popular / Nessa pátria tão hostil / É o educar um filho / Da mãe solo que pariu”, por sua força melódica, poética e um alto potencial de identificação. Um outro trecho que conseguiu refletir num canto forte e num bom funcionamento nas passadas foi o trecho “tantas peles eu vesti… para que todo favelado vá sonhar como Darcy”, bem executados pelos cantores, que trabalharam a valorização melódica e trouxeram à vida a força que o verso tem por natureza. A composição consegue trazer a utopia de Darcy para uma realidade social mais concreta, especialmente ao aproximar seu pensamento da educação e da vida da população. Outro destaque que podemos fazer é o seu refrão “ergue a zambi um monumento, nessa praça um fazimento coroando Rei Zumbi”, que faz referência ao monumento de Zumbi dos Palmares, que fica próximo do Sambódromo e que também foi idealizado por Darcy Ribeiro que dialoga profundamente e traz um peso em coerência e identificação a um samba que se candidata a ser cantado na Sapucaí. A parceria teve uma torcida numerosa e animada, com bandeiras, embora nem todos cantassem o samba, mesmo no
refrão. A energia porém, ultrapassou a torcida e conseguiu contagiar muitos dos presentes nas mesas e camarotes, tornando-se um ponto quente da noite. Passistas também estavam junto à torcida. Também trouxeram efeitos cênicos, como tiros de fumaça e fogos indoor. A performance teve um bom rendimento.
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