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Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A disputa pelo samba-enredo que embalará a comunidade do Borel em 2027 avança. No próximo carnaval, a Unidos da Tijuca levará para a avenida o enredo “A Cabeça do Santo”, desenvolvido pelo carnavalesco Lucas Milato. Nesta quinta-feira, sete parcerias concorrentes se apresentaram na quadra da escola, no Santo Cristo. As eliminadas serão anunciadas pela agremiação na próxima segunda-feira. A seguir, o CARNAVALESCO analisa as apresentações dos sambas concorrentes.

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Parceria de Totonho: O samba composto pela parceria de Totonho abriu a noite de apresentações, interpretado por Juan Briggs, Charles Silva e Tinga. A obra aborda a narrativa do enredo, trazendo o ponto de vista de Samuel, protagonista de ‘A Cabeça do Santo’, em sua peregrinação até Candeia. A composição traz o peso da religiosidade popular brasileira, sincrética, ao incorporar uma alusão a uma cantiga de Umbanda no verso “Santo Antônio de Pemba, caminhou, caminhou”. Também traz uma melodia com interessantes variações, com destaque para o trecho “Que som é esse que causa querência, pura cadência, de se arriar / Era rosário nas mornas de dengo / Era um quengo a desabafar (Carcará)”, que embala os versos mais descontraídos, além da referência à bateria ‘Pura Cadência’ da escola, que aprofunda a relação da narrativa com a comunidade. Entretanto, os versos marcados pela poética e “descontração” perdem força lírica no refrão principal “Se o mar virar sertão, vamos transbordar o amor / Reerguer a nação que o ‘santo’ ‘endireitou’ / Tijuca arretada é prece, é raiz! / Chama o povo do Nordeste pra salvar nosso país!”, perdendo a oportunidade de ter um ponto alto à altura da energia da obra. O trecho “Deixa o Borel passar” recebeu uma ênfase especial dos intérpretes, mas não conseguiu trazer o público junto na mesma intensidade. A defesa se manteve enérgica na maior parte da apresentação, tendo um bom rendimento até passar por uma leve queda na última passada. A performance conseguiu contagiar alguns dos presentes na quadra, como passistas e integrantes das baianas.

Parceria de Leandro Gaúcho: Wantuir e Lissandra Oliveira deram voz ao samba 01, que puxa fortemente o lado da religiosidade popular da narrativa, aprofundada pela mistura sincrética cheia de brasilidade, como nos versos “Vem com Chico e Romão”, “Moganga de boiadeiro, Xetruá” e com seu ápice no refrão “Santo Antônio pequenino do sertão / Eu trouxe a luta! / Venha abrir nossos caminhos, a vitória da Tijuca / Ele é de fé! / Amansador de burro brabo / Se duvida é melhor tomar cuidado”, que brinca com o sincretismo, trazendo também alusão a uma cantiga religiosa. A introdução foi um dos destaques, com um show à parte dos intérpretes cantando o trecho “Meu pai, quantas vezes te esperei ao pé da porta / Pedi todo dia, roguei sua volta e veja só. / Sempre esteve aqui! / É hora, pai. / De seguir pro meu Juazeiro / Levando um rosário, batendo no peito / Outro milagre ainda está por vir”, que traz um dos pontos mais tocantes da narrativa, interpretado à altura de sua sensibilidade. Outro destaque está no uso do vocabulário regional como um recurso criativo nos versos: “Da ‘moleira’ de Antônio fez seu usucapião” e “O problema foi o ‘santo’ responder a promessa pra menina se ‘ajuntá’”, que dão personalidade e certa “bossa” à obra. Desde o início da apresentação, o samba já estava sendo cantado na quadra, especialmente o refrão principal “Santo Antônio pequenino do sertão / Eu trouxe a luta…”, principalmente pela ala de passistas, que se reuniu à frente do palco, dançando e cantando durante toda a apresentação. A defesa sustentou a energia da obra do início ao fim e garantiu-lhe um bom rendimento, sendo um dos destaques da noite.

Parceria de Samir Trindade: A obra da parceria de Samir Trindade foi defendida por Evandro Malandro e Tem Tem Jr. A obra traz um olhar interessante para a narrativa, ao espelhar a realidade do Borel à de Caridade, cenário da narrativa de “A Cabeça do Santo”, aprofundando a conexão da comunidade com o enredo: “Minha história é sertaneja brasileira / Feito tantas por aqui / Tipo gente do morro que pede socorro / Para o santo acudir”. O fato também culmina no refrão principal “Ê Santo Antônio, em teu colo a esperança / Que é toda criança do sertão e do Borel / Sou Tijuca, vai ter samba e ladainha / No terreiro ou na igrejinha, lá na Rua São Miguel”. Um dos destaques da obra é o verso “Rodeia meu Santo Antônio” no refrão, que também traz referência a uma famosa cantiga religiosa e funcionou muito bem na quadra, sendo bem cantado pelos presentes em todas as passadas. O trecho “Ouvi a voz de um povo sofredor / A mesma fé que uniu destinos me envergonhou” também foi bem cantado pelo público. A obra traz uma melodia mais cadenciada e menos enérgica do que as anteriores, tendo uma defesa justa e equilibrada, que apostou em uma interpretação descontraída e obteve um rendimento regular. Além do refrão principal contagiante, a obra empolgou alguns dos presentes, incluindo a Velha-Guarda.

Parceria de Lico Monteiro: O intérprete Wander Pires defendeu o samba da parceria de Lico Monteiro. A obra traz um olhar criativo sobre a proposta do enredo, trazendo a perspectiva de Samuel contando sua história. A obra se destaca pelo refrão “É só rezar pra Santo Antônio ouvir / Ô diacho, me esqueça! / Vou achar um cazuá / Atender a simpatia pra Toinho descansar”, que traz uma melodia envolvente e fez o público acompanhar com palmas. Bem como os versos “Aos pés do corpo, encontro a redenção / Chorar, chorei / Toca o sino e vem a romaria / Guardo no peito o amor de Rosário / Meu coração se fez moradia”, que estavam na boca do povo do início ao fim da performance. A apresentação também conseguiu animar passistas, integrantes da Velha-Guarda e outros presentes na quadra, que dançaram e cantaram durante a apresentação. A performance teve um bom rendimento, com uma defesa que abrilhantou e valorizou melodicamente o samba.

Parceria de Márcio André: A parceria de Márcio André foi defendida pelo intérprete Nego. A composição traz a perspectiva de Samuel na narrativa com peso poético, conforme destacado nos versos “Tijuca, o luar do meu sertão / Alumia a escuridão do causo que eu vou contar / Pelas veredas lá vou eu / Em devaneio, nesse aperreio / O Pavão vai me guiar”. Outro trecho que se destaca por seu ar lúdico, “Vixe Maria, nunca tinha visto isso / A cidade em rebuliço, um tremendo quiproquó / E quem diria, por assombro que pareça / Tem um santo sem cabeça / Era um fuxico só”, valorizado pela melodia, é agradável de ouvir. A apresentação, porém, enfrentou alguns problemas de execução. Em determinados trechos da primeira e da terceira passadas, os intérpretes atravessaram a melodia, prejudicando a fluidez do samba. Na penúltima passada, houve algumas falhas de som e certa perda de fluidez no refrão principal. O rendimento foi decrescente, passando com menos brilho pela quadra.

Parceria de Arlindinho: Igor Sorriso e Rodrigo Tinoco performaram o samba da parceria de Arlindinho. A obra foi um dos destaques da noite, por seu lirismo irreverente e melodia com variações interessantes, formando um conjunto brilhante. A composição também traz Samuel narrando sua história: é simples, mas se destaca pela estrutura rítmica, como nos versos “Sem sorte, sem eira nem beira / Errante, distante do quê?”, além dos coloquialismos que enriquecem os versos “Dei com os ‘zói’ em Caridade / Nos festejos de Antônio / Achei um canto ‘bão’ pra esticar ‘os pé’ / E acordei com as ‘muié’ me pedindo matrimônio”, que ganham seu ápice no refrão espirituoso “Joana queria José / Mas Zé só pensava em Maria / Maria não sabe o que quer / Nem com quem se casaria / Foi tanto causo de amor que apareceu / No fim das contas vi que o santo era eu”. No público, os versos “Ê rodeia / Ê amansador de burro brabo do sertão / Ê rodeia / Ê faz esse conto encantar meu pavilhão” pegaram rapidamente, e o refrão “Êta cadência arretada / Escola danada do meu coração / Tijuca vem e me vira a cabeça / Que Santo Antônio abençoe o Pavão” mostrou sua força em todas as passadas. A resposta foi tamanha que algumas pessoas continuaram cantarolando a composição mesmo depois do fim da apresentação. O samba conseguiu contagiar alguns dos presentes na quadra quase vazia, como integrantes da ala de passistas. Teve uma defesa aguerrida; apesar disso, o rendimento foi decrescente ao longo da apresentação.

Parceria de Ian Ruas: A noite terminou com a apresentação do samba da parceria de Ian Ruas, cantado por Dowglas Diniz e Victor Cunha. Também traz um dos destaques líricos da noite, pela carga sentimental que trazem a perspectiva de Samuel de forma poética, como nos versos “Mainha, do céu, vem me abençoar / Mainha, me guarda em teu colo / A luz da saudade vagueia no olhar / No brejo, a casinha, o sereno / Memórias que o tempo não pode apagar”. Também se destaca a variação melódica que cria uma “tensão” nos versos “Vá de retro Belzebu, não me venha assombrar / Padim Ciço me proteja, São Francisco vai curar”. O refrão “Em terra de fé, brotou o fruto da oração / Traz viola, meu sinhô / A sanfona anunciou / Tem festança no sertão (vem sambar no meu baião)” também mostrou sua força. A obra foi bem defendida, com a carga interpretativa que os versos pediam, valorizando a composição, além da beleza da harmonia dos vocais dos intérpretes. Obteve um bom rendimento na quadra, já quase vazia, contagiando alguns dos presentes, como a equipe criativa, que ficou atenta à performance desde seu anúncio, além de cantar alguns trechos.