
A Imperatriz abriu sua disputa de samba-enredo na feijoada, no último sábado, em sua quadra, em Ramos. A escola encerrará a segunda-feira de carnaval com o enredo “A Memória do Rei e o Sumiço de Dona Júlia”, desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Vieira. Nesta primeira fase, 27 parcerias se apresentaram, e destas, 10 seguem na disputa. A próxima fase ocorrerá na próxima sexta-feira. A seguir, o CARNAVALESCO analisa as apresentações dos sambas classificados nesta etapa do concurso.
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Parceria de Matheus Pranto: A nona parceria a se apresentar na tarde de sábado foi defendida por Preto Joia, Dowglas Diniz e Tinguinha. O samba 13 apresentou um dos trabalhos melódicos mais interessantes da noite, com ótimo rendimento, fruto de uma defesa segura e enérgica. A obra se volta diretamente à narrativa do desaparecimento de Dona Júlia e também explora o ritual de reencantamento da boneca após seu retorno como um artifício lírico e melódico: “Foi cabra calçada com bicho de pena / Menga no ori / Renasceu pelo sagrado no peji”. Mais poética que descritiva, sem perder a função de sintetizar bem o rito. Poucos sambas utilizaram esse recurso, mas essa obra garantiu uma abordagem mais criativa a esse momento-chave do enredo, que aborda o “Sumiço da calunga Dona Júlia”. A composição traz refrões fortes, como “Iya kekere eu vi a terra tremer, Iya kekere é a noite do dendê / Imperatriz no toque da alfaia e ganzá / É mandinga de Xangô, tem mironga de Oxalá”, por seu lirismo, construção melódica, além da performance dos intérpretes, que potencializaram o peso natural do trecho, balançando a quadra. Outro momento de destaque foi o verso “Cadê a boneca?”, que explodiu, contagiante. A performance embalou não só os presentes, de maneira geral, mas também alguns segmentos, como a presidência, a equipe criativa e o carro de som.
Parceria de Zé Katimba: A parceria do baluarte Zé Katimba foi a décima primeira apresentação da noite. A obra foi defendida por Nego, Bruno Ribas e Juan Briggs e traz em sua composição um foco no retorno da calunga e na essência religiosa do Maracatu Nação, além de abordar o ritual de reencantamento da boneca após seu retorno. O samba tem sua força na composição, com uma melodia que abraça com a potência necessária. Tem refrões potentes que utilizam a repetição como artifício, e que foi eficaz para o público presente: “Igbalé Oyá, Igbalé Oyá / Meia-noite na matriz, meia-noite na matriz / Na boneca de madeira o egun da catimbozeira é o axé da Imperatriz”. A performance foi enérgica, porém, na primeira passada, alguns dos intérpretes demonstravam falta de intimidade com a letra, chegando a executar de forma um pouco truncada a repetição do refrão “Igbalé Oyá, Igbalé Oyá…”. Ainda assim, a defesa engatou ao longo da apresentação, com um rendimento crescente, terminando em um bom momento. Teve seu ápice na última passada do refrão principal, deixando um gostinho de “quero mais” nos presentes na quadra, que cantavam alto.
Parceria de Eduardo Medrado: A parceria de Eduardo Medrado foi a décima sexta a se apresentar. Wander Pires, Wandinho e Tinganá são os intérpretes oficiais, porém, Wander Pires não esteve presente na noite de hoje. Em sua narrativa, a composição é bem imagética, com uma abordagem criativa ao sumiço de Dona Júlia: “Rei do Congo atravessa o mar / Novas vestes vão lhe cortejar / É preto, banto e nagô / Se fez maracatu / Fio de Orum à eternidade / Rito de egum, ancestralidade / No trono da anciã, calunga guardiã / Moldada no ifé, reluz no cinzel / Veludo protetor, colares, paetês e um véu”. A construção melódica do refrão “Deu meia-noite, mas por lá é meio-dia / Tambor ressoa pro tambor que silencia / Maracatu Porto Rico é fundamento e raiz / É sentimento feito Imperatriz” é gostosa de ouvir, apesar de perder um pouco da potência lírica. A obra teve uma apresentação mais morna em comparação a outras obras da noite, obtendo um rendimento regular, sem grandes momentos de impacto no público.
Parceria de Josimar: Defendido por Pixulé, o décimo sétimo samba a se apresentar foi um dos grandes destaques da noite. A performance iniciou com o pé direito, trazendo uma introdução bonita e poética, valendo-se de todo o potencial do grande tenor do Carnaval, embelezando a performance, e aqueceu a quadra antes mesmo do início oficial da música, fazendo o público vibrar. Em sua composição, a obra se volta ao retorno de Dona Júlia ao Maracatu Porto Rico, explorando a narrativa com um olhar mais criativo e menos preso à simples reprodução da sinopse. O trecho “Quando o portão abrir, eparrey Oyá! / Que a ancestralidade venha nos guiar! / A gira vai começar” foi um dos pontos altos do samba – contagiante, forte e com uma boa melodia. O verso “Tem macumba e maracatu segunda-feira” espelha um dia de importância para os ritos do Maracatu Porto Rico com o dia de desfile da Rainha de Ramos em 2027 e é um destaque da construção lírica. Além da brincadeira com a expansão do sentido da frase, o verso aproxima a narrativa da comunidade. Outro destaque está nas variações melódicas de “Gira aí calunga / Boneca morada do egum no ayê”; o samba também apresenta soluções mais criativas para contar a história, como em “No encanto do criador, Porto Rico perguntou: ‘Dona Júlia, cadê você?’”, que também “explodiu” na quadra. A defesa de Pixulé foi enérgica e deu mais brilho à obra. Uma defesa equivalente à potência do samba e de rendimento excelente do início ao fim. Baianas, harmonia e direção de Carnaval também cantaram e bailaram o samba durante a apresentação, que conseguiu esquentar a quadra e fazer o refrão pegar rapidamente.
Parceria de Jeferson Lima: A décima oitava apresentação da tarde foi a parceria de Jeferson Lima, defendida por Evandro Malandro e Lissandra Oliveira. Com dois intérpretes de peso, a apresentação começou com impacto dos intérpretes: Lissandra brilhou na introdução, com toques de adaró evocando Oyá, que energizou a quadra. A composição começa explorando o valor histórico do Maracatu, resgatando a nobreza negra do Congo e a trajetória construída por pessoas escravizadas e suas gerações. A narrativa depois se aproxima da relação encantada de Dona Júlia com a festa. Em destaque, os versos “Banto, traço nagô / Laço, cor e saudade / Dama do laço, porta-estandarte…” apresentam uma construção poética que desemboca no refrão “Gira, girou, deixa girar / Tem carnaval além da despedida”. O comando “gira, girou, deixa girar” fez sucesso na quadra. O simples verso “Dona Júlia volta pro seu terreiro” também mostrou sua força: rapidamente passou a ser cantado pela quadra. Outro destaque foi “Ê calunga! Ê calunga! / Dona Júlia assentamento, seu egum foi abraçar”, impulsionado por sua melodia, que ganhou o peso dos atabaques. Além do público geral, a diretoria e o carnavalesco demonstraram estar contagiados pela melodia. O rendimento foi excelente e a composição conseguiu fazer com que parte significativa da quadra acompanhasse o samba para além do refrão.
Parceria de Moisés Santiago: A parceria de Moisés Santiago foi a décima nona apresentação, performada por Igor Sorriso, Wic Tavares, Tuninho Júnior, Rodrigo Tinoco e Diego Nicolau. A composição evoca a força histórica do maracatu e seus ritos e o reencantamento da boneca Dona Júlia. Um dos destaques é o início já forte: “Vai ter baque virado na segunda-feira pra coroar a Imperatriz macumbeira”. Na estrofe, “Ê calunga aê, calunga aê, calunga Dona Santa encantada foi guiada ao Orúm / Calunga aê, calunga aê, calunga é boneca Dona Júlia, guardiã do seu egúm” e, no refrão, “Ilê Axè Oyá Menguê, Olinda te cuidou na tradição Xambá” também há interessantes variações rítmicas. O samba, no geral, apresenta certo “swing” por todo o seu corpo melódico. A defesa foi enérgica, embora o rendimento geral tenha sido regular, recebido de maneira mais morna pelo público. Mesmo sem atingir o mesmo brilho de outros sambas da noite, a melodia foi o maior ponto de destaque da apresentação: apesar de não acompanharem o canto, muitos se balançavam ao ritmo da obra.
Parceria de Guga Martins: A parceria de Guga Martins foi defendida por Marquinhos Art Samba na vigésima primeira apresentação da noite. A composição traz uma abordagem mais criativa da narrativa e de força poética, sem seguir necessariamente uma linha cronológica dos acontecimentos propostos pela sinopse, com ênfase nos versos: “Maracatu a wurè egun iê / Baque virou e balançou o mar / Maracatu é fundamento, macumba calunga! / O sagrado que vou carregar / O couro dos batuques virou a maré / Nos passos que já foram guardei minha fé…”; e “Guardada em desencanto, ela sumiu / Tantos anos de vazio, encontrada em Olinda / Alafiou na trama de Arupemba / No ilê do caçador…”. Seu momento de peso e destaque se dá nos refrões como “Ê Congo aê gonguê… gira Imperatriz! / Ê Congo aê gonguê… canta forte Imperatriz”, que se espalhou rapidamente pela quadra; e o refrão “Oyá balé e láári ó! / Oyá balé roda contra o tempo a nossa gente e a coroa da ‘nação’ leopoldinense”. Um dos méritos do destaque se dá pela performance dos intérpretes: limpa, forte e de harmonias muito bonitas e agradáveis de ouvir, que fizeram a composição brilhar. A apresentação teve um bom rendimento e conseguiu contagiar parte da quadra, especialmente nos refrões.
Parceria de Me Leva: A vigésima quarta apresentação da noite, da parceria Me Leva, foi defendida por Grazzi Brasil e Chicão. Igor Vianna também compõe o time de intérpretes, mas não estava presente. A obra apresentou uma melodia de grande força, vibrante, com influência do ritmo do maracatu, à altura da composição. Um dos destaques está na utilização do ritual de purificação de Dona Júlia como recurso lírico e melódico. O trecho “É galinha-d’angola, farinha / Sangue no couro / Sassanha pra folha de boldo…” cria uma construção que estimula o canto e o acompanhamento com palmas. É um trecho que tem certa complexidade melódica e lírica, mas foi muito bem executado pelos intérpretes. A melodia, inclusive, é um destaque no desenvolvimento desse trecho por sua variação. O recurso ganha ainda mais importância porque o samba segue uma narrativa em ordem cronológica, próxima à apresentada na sinopse, encontrando na música uma maneira de criar movimento dentro dessa estrutura. Outro destaque é o poderoso refrão “OYÁ OYÁ… Ê LARI Ô OYÁ BALÉ OYÁ OYÁ… Ê LARI Ô OYÁ BALÉ QUE MEU OGÃ EVOQUE UM PONTO DE MACUMBA PRA GANHAR A RUA A IMPERATRIZ DO CANDOMBLÉ”, por sua força e beleza poética. O samba teve um bom rendimento, e a performance conseguiu animar a quadra, além da direção, da bateria e da equipe criativa, que cantaram o samba do início ao fim.
Parceria de Hélio Porto: A parceria campeã da junção do samba de 2026 foi a penúltima a se apresentar. O samba de Hélio Porto e companhia, defendido por Tinga e Charles Silva, foi um dos grandes destaques da noite. A composição dá foco maior ao lado ritualístico e espiritual do Maracatu Nação Porto Rico, com uma construção lírica potente e poderosos refrões, com toda a força de um bom samba-enredo “afro”. Mais uma vez, a exploração do ritual de reencantamento no trecho “Vai começar o ritual: tem vela acesa, couro em sangue, copo d’água / A cantiga tira mágoa / Veste branco no roncó… / Quem vai pra rua não vai só” foi reproduzida muito bem, em um momento de destaque e peso melódico. Outro ponto alto é a interpolação melódica de “Deu meia-noite”, alusão a um ponto de Umbanda, que cria um momento indutivo ao canto e funcionou bem na quadra. O refrão “Akoro mina dewa Oya afulele / Akoro mina dewa motumbalê / Catimbó, catimbozeiro nos encantos da calunga / Imperatriz firma seu ponto na macumba!” também foi executado e recebido à altura de sua força. O samba levantou a quadra já no final da noite, com um ótimo rendimento. Agitou os que ainda estavam presentes e contagiou a direção da agremiação, a equipe criativa e o mestre-sala.
Parceria de Renan Gêmeo: Encerrando a noite, a parceria de Renan Gêmeo foi interpretada por Wantuir. O samba, apesar de se ater à cronologia e à narrativa apresentada na sinopse, se destaca por uma abordagem mais narrativa, exaltada por sua melodia vibrante. O refrão “Imperatriz tem mironga de macumbeiro” foi um dos destaques, enquanto a melodia apresentou influências do toque do Maracatu, reforçando a conexão musical com o universo do enredo. Outro momento interessante aparece em “A eparrey! O destino na trama de arupemba / É lei, é lei / Fundamento de orixá”, que traz uma variação melódica bastante agradável de ouvir e bem executada na performance. No geral, a apresentação teve um rendimento crescente e terminou a noite em alta, com uma quadra mais receptiva e participativa, que chegou a contagiar alguns segmentos.









