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A Unidos da Tijuca realizou, na última quinta-feira, a terceira noite de disputa pelo samba-enredo do Carnaval 2027. Na segunda eliminatória do concurso, nove parcerias se apresentaram na quadra da escola em busca de uma vaga na próxima fase. A rodada teve obras de forte apelo melódico, diferentes formas de desenvolver a trajetória de Samuel e apresentações que se destacaram pela conexão entre letra, música e enredo. O enredo tijucano para 2027, “A Cabeça do Santo”, é baseado no romance homônimo da escritora cearense Socorro Acioli. A história acompanha Samuel, jovem que parte de Juazeiro do Norte, no Ceará, para cumprir uma promessa feita à mãe antes de sua morte: encontrar a avó e o pai que nunca conheceu. Na caminhada até Candeia, ele encontra abrigo dentro da cabeça abandonada de uma estátua inacabada de Santo Antônio e descobre que, naquele local, consegue ouvir as orações das mulheres que pedem ajuda ao santo casamenteiro. A partir daí, sua trajetória passa a envolver fé, amor, perdão, família e elementos de realismo fantástico. Abaixo, a análise do CARNAVALESCO sobre o desempenho das parcerias.

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Parceria de Claudio Mattos: Abrindo a noite de apresentações, a parceria de Claudio Mattos, Gustavinho Oliveira, Anderson Lemos, Daniel Goulart e James Bernardes teve um desempenho seguro, mesmo com a ausência importante de Pitty de Menezes. Rafael Tinguinha conduziu a interpretação e garantiu consistência nas duas primeiras passadas, embora tenha sido percebida uma pequena perda de intensidade na apresentação final. O refrão principal, “Valei-me, Santo Antônio, venha me valer, abençoe a Tijuca que tem sede de vencer, arriégua, faço um pedido ao céu, chegou a hora do milagre do Borel”, funcionou bem como conjunto e apresentou boa capacidade de sustentação durante a execução.

Na primeira parte, a letra reúne passagens de destaque, especialmente nos versos que narram a partida de Juazeiro e a esperança carregada pelo personagem. Há imagens interessantes e uma construção poética que contribui para o desenvolvimento da história. Musicalmente, porém, o trecho apresenta menos impacto nas variações melódicas, fazendo com que alguns momentos percam força.

A segunda metade cresce em relação à primeira, principalmente pela condução da melodia e pela transição para o refrão, que acontece de maneira natural e bem construída. No conjunto, a parceria apresentou um samba equilibrado e competitivo, superando o desafio de abrir a noite e ainda lidar com o desfalque de um de seus principais intérpretes.

Parceria de Dudu Nobre: Com Tinga à frente da interpretação, a parceria formada por Dudu Nobre, Totonho, Fadico, Júlio Alves e Kadu Gomes apresentou um dos sambas mais bem resolvidos musicalmente da noite. O intérprete manteve uma atuação firme e vibrante durante as três passadas, contribuindo para que a obra preservasse sua intensidade do início ao fim. A melodia apresenta boas soluções e conversa de maneira eficiente com a narrativa. O pré-refrão conduz bem para o refrão principal, enquanto o trecho de meio, marcado por uma levada de xote, acrescenta identidade à composição e reforça a ambientação nordestina proposta pelo enredo.

A letra também se destaca pela riqueza de imagens e pela capacidade de transportar a história para o universo do sertão. Há bons momentos na construção da trajetória do personagem, com referências à fé, à peregrinação e à busca por dignidade. A segunda parte ganha um caráter mais lírico, acompanhando o momento de redenção do personagem e criando uma boa ligação entre conteúdo e melodia. O refrão principal mantém o nível, com uma mensagem de amor, reconstrução e valorização do povo nordestino.

A composição, porém, apresenta um ponto que poderia ser melhor amarrado na narrativa. A figura de “João Ninguém”, apresentada inicialmente como representação de tantos pais e famílias brasileiras, perde espaço ao longo da obra, justamente quando a história de Samuel também passa pela busca pelo próprio pai. Essa conexão poderia ser mais clara para reforçar o eixo central da trajetória do personagem. Ainda assim, é um samba de boa construção, com personalidade melódica, letra criativa e forte comunicação com o enredo.

Parceria de Leandro Gaúcho: Wantuir conduziu a apresentação do samba de Leandro Gaúcho, Ailson Picanço, Padre Felipe Calisto, Marcelo Moraes e Ricardo Construção em uma passagem segura. A obra aposta em uma sonoridade fortemente regional, explorando elementos melódicos que remetem ao universo nordestino e ajudam a ambientar a trajetória de Samuel. A primeira parte é o principal destaque. A melodia apresenta bastante fluidez, com uma cadência próxima do arrasta-pé que dá movimento à composição e combina bem com a narrativa. A letra acompanha esse ambiente com expressões e imagens ligadas ao sertão, contribuindo para a construção da atmosfera proposta pelo enredo.

O pré-refrão é outro momento de destaque, especialmente pela maneira como trabalha a palavra “Rosário”. O termo dialoga tanto com o objeto de devoção religiosa quanto com a personagem que faz parte da busca de Samuel, criando uma interessante camada de interpretação para a narrativa. Na segunda metade, porém, a obra perde parte da energia apresentada inicialmente. A melodia se torna menos envolvente e a passagem acaba sendo um pouco mais arrastada. O refrão principal recupera parte dessa força e fecha o samba com uma mensagem de fé, luta e desejo de vitória para a Tijuca.

No conjunto, é uma composição que encontra sua maior virtude na identidade regional e na boa combinação entre melodia e ambientação nordestina. A primeira parte e o pré-refrão são os momentos de maior destaque, enquanto a segunda metade ainda apresenta espaço para ganhar mais força e dinamismo.

Parceria de Arlindinho: Igor Sorriso comandou a defesa do samba de Arlindinho, Igor Leal, Diego Nicolau, Fred Camacho e Bruno Dallari em uma das apresentações mais fortes da noite. A obra chama atenção desde os primeiros compassos pelo andamento envolvente e por uma melodia que incorpora elementos do forró e do arrasta-pé sem perder a característica de samba-enredo. O refrão do meio é um dos grandes trunfos da composição. A mudança de dinâmica e a maneira como os versos são encaixados na melodia dão movimento à obra, criando um momento de forte comunicação com o público. O samba também utiliza vocalizes e soluções próximas do canto popular, reforçando a atmosfera nordestina que atravessa toda a composição.

A letra é outro ponto de destaque. A parceria consegue transformar passagens da sinopse em versos com liberdade poética, utilizando uma oralidade característica do Nordeste que aparece em expressões como “visagi”, “zói” e “muié”. A abertura sintetiza com eficiência a trajetória de Samuel, apresentando suas dores, sua origem e a condição de um personagem marcado pela falta e pela busca.

Musicalmente, o samba apresenta boas variações e mantém um fluxo bastante agradável. Alguns versos são desenvolvidos de maneira mais acelerada, criando contrastes interessantes dentro da composição, enquanto o refrão principal cresce progressivamente e ganha força a cada passagem. Com boa construção melódica, letra inventiva e um andamento que favorece a condução da narrativa, o samba de Arlindinho foi um dos grandes destaques da noite.

Parceria de Gabriel Machado: Charles Silva conduziu com bastante vigor o samba de Gabriel Machado, Júlio Pagé, Hélio Porto, Serginho Motta e Orlando Ambrósio, garantindo uma apresentação consistente nas três passadas. A interpretação trouxe vivacidade à obra e ajudou a manter o samba em movimento, sem grandes oscilações de rendimento. A melodia é agradável e bem estruturada, com soluções que favorecem a fluidez da composição. O refrão central é um dos momentos mais interessantes nesse aspecto, combinando uma condução melódica envolvente com elementos que reforçam a atmosfera de fé e religiosidade presente no enredo.

O refrão principal também apresenta bastante força, sustentado por uma melodia mais vigorosa e de andamento para frente, que funciona bem como ponto de chegada da composição. É um trecho que ganha ainda mais força pela interpretação de Charles Silva. Na letra, a segunda parte se destaca pela maneira como desenvolve o arrependimento de Samuel e seu encontro com Nossa Senhora do Rosário. O trecho que apresenta o perdão e a fé como caminhos para a transformação do personagem é bem construído, especialmente no jogo de palavras que relaciona a ideia de que “o amor se encontra na fé” com a própria trajetória.

No conjunto, a parceria apresentou um samba bem resolvido, com melodia de fácil assimilação, letra que consegue avançar na narrativa e uma interpretação bastante segura. Uma boa apresentação, que colocou a obra entre os destaques dessa segunda eliminatória.

Parceria de Márcio André: Nêgo foi a voz principal do samba de Márcio André, Daniel Katar, Robson Bastos, Rômulo Massacessi e Gilson Bernini. Em alguns momentos, o intérprete demonstrou dificuldade com determinados trechos da letra, mas contou com bom suporte dos cantores de apoio, o que ajudou a manter a apresentação equilibrada e sem comprometer o rendimento geral da obra. A melodia é um dos pontos positivos do samba, com variações que tornam a condução agradável e envolvente. A composição consegue passear por diferentes momentos da narrativa sem perder fluidez, e a letra acompanha esse percurso, apresentando de maneira clara a trajetória de Samuel.

O refrão do meio é, provavelmente, o maior destaque musical da obra. A levada descontraída de “Vixe Maria” combina com o caráter popular da narrativa e cria um momento bastante agradável de cantar, especialmente pela construção da cena de uma cidade em alvoroço diante do episódio do santo sem cabeça. É um trecho que apresenta personalidade e se comunica facilmente com o público.

A letra também encontra bons momentos ao abordar a peregrinação de Samuel, especialmente na passagem que parte do Cariri e apresenta o sertão transformado em mar. São imagens que ajudam a traduzir poeticamente a dimensão fantástica da história e demonstram boa compreensão do enredo. O principal ponto de atenção está justamente no refrão principal. Apesar de cumprir a função de encerrar a composição, não apresenta a mesma força encontrada no refrão de meio e passou de maneira mais morna durante a apresentação. A sensação é de que o samba perde impacto na reta final.

Ainda assim, a parceria encerrou a noite com uma apresentação segura, sustentada por uma melodia interessante, boa leitura do enredo e um refrão de meio bastante marcante.

Parceria de Samir Trindade: Evandro Malandro e Tem-Tem Jr. defenderam o samba de Samir Trindade, Sandro Nery, Kléber Rodrigues, JP Figueira e Gilberth Castro em uma apresentação bastante equilibrada. A obra se diferencia pela escolha de colocar Samuel como narrador da própria história, em primeira pessoa, aproximando o personagem do público e fazendo com que sua trajetória adquira um caráter mais íntimo e universal. A melodia é bem construída e encontra soluções que favorecem a carga emocional da composição. O refrão do meio é um dos pontos altos, especialmente pela maneira como trabalha imagens de céu, areia, sol e mar para traduzir o ambiente de realismo fantástico presente na narrativa. A repetição dos versos contribui para criar uma atmosfera de busca e incerteza, acompanhando o percurso do personagem.

O pré-refrão é outro grande acerto. A passagem que aproxima Santo Antônio da esperança, relacionando o sertão ao Borel, conduz muito bem a obra e culmina no “Rodeia, rodeia, rodeia, meu Santo Antônio, rodeia”, momento que teve excelente resposta na apresentação e se tornou um dos trechos mais marcantes do samba.

A segunda parte se destaca pela força narrativa. O arrependimento de Samuel, sua peregrinação, o encontro com a própria fé e, principalmente, o reencontro com o pai são desenvolvidos com sensibilidade. A imagem de que “cabeça e corpo se abraçaram” resume de maneira poética o perdão e a reconciliação que representam o ponto de transformação da trajetória do personagem. A combinação entre uma melodia bem resolvida, uma narrativa envolvente e uma interpretação de alto nível resultou em uma das apresentações mais completas da noite.

Parceria de Lico Monteiro: Wander Pires conduziu o samba de Lico Monteiro, Marcelo Adnet, Marcelo Lepiane, Telmo AG da Estiva e Juca Gomes em uma apresentação de bom nível. O intérprete explorou bem a linha melódica da composição, que aposta na narrativa em formato de “causo” e encontra diferentes maneiras de aproximar o público da trajetória de Samuel. A primeira parte é um dos pontos fortes da obra. Logo no início, a letra apresenta a motivação da jornada do personagem, estabelecendo a promessa feita à mãe e o sentido de sua caminhada. A composição não entrega todas as respostas de imediato, mas oferece ao ouvinte a informação necessária para compreender o que impulsiona Samuel.

A parceria também acerta ao trabalhar uma linguagem popular e bem-humorada em determinados momentos. O trecho que fala em rezar para Santo Antônio, procurar um “cazuá” e fazer uma simpatia para Toinho descansar traz leveza à narrativa e encontra uma melodia bastante agradável, explorada com segurança por Wander. Na segunda parte, a obra ganha ainda mais força musical. A passagem iniciada por “Chorar, chorei” apresenta uma mudança melódica mais dolente, criando um contraste interessante e preparando a chegada do refrão principal. O fechamento retoma a trajetória de Samuel e, ao mesmo tempo, estabelece um diálogo com a própria Tijuca, transformando a missão do personagem em uma espécie de metáfora para a escola. O refrão principal teve boa sustentação nas três passadas e funciona como um encerramento coerente para a história, especialmente pela ideia de luta, fé e cumprimento da missão.

Wander Pires apresentou uma atuação segura, embora tenha optado por uma condução mais contida do que aquela que o público costuma associar ao intérprete. Até algumas de suas marcas tradicionais, como o conhecido “a hora é essa” e o “valeu” ao fim da apresentação, ficaram de fora, com o primeiro momento sendo assumido por Wandinho. Foi uma apresentação um pouco diferente do Wander que estamos acostumados a ver, sem que isso comprometesse o rendimento do samba. No conjunto, a parceria entregou uma obra criativa, bem narrada e musicalmente consistente, com destaque para a primeira parte, a bela virada de “Chorar, chorei” e um refrão principal que sustentou bem a apresentação.

Parceria de Ian Ruas: Dowglas Diniz e Vitor Cunha conduziram o samba de Ian Ruas, Caio Miranda e José Carlos em uma apresentação que encerrou a noite em alta. A obra aposta em uma narrativa sentimental, com forte presença do realismo fantástico e uma melodia que alterna momentos mais líricos com passagens de maior movimento. A primeira parte se destaca pela construção poética dos sentimentos de Samuel. As imagens de terra rachada, estrada, dor e busca pelo amor ajudam a traduzir os medos e as incertezas do personagem, criando uma atmosfera bastante coerente com a proposta do enredo.

O refrão de meio é um dos grandes acertos do samba. A mistura de batuque, arraiá, gingado e elementos da cultura popular nordestina produz uma passagem ritmada e agradável, que ganhou bastante força na interpretação dos cantores. É também um trecho em que a composição consegue unir a dimensão fantástica da história à musicalidade regional. A letra ainda encontra espaço para trabalhar o perdão, elemento importante na trajetória de Samuel, em uma passagem que coloca frente a frente o personagem e seu pai. Esse aspecto ajuda a dar continuidade à narrativa e prepara o terreno para a resolução da história.

O refrão principal funciona bem como encerramento. Com uma melodia bonita e uma condução mais festiva, aproxima a fé da celebração popular e termina a obra com uma sensação de afirmação e esperança.

Durante a apresentação, o microfone de Dowglas Diniz apresentou algumas falhas e precisou ser substituído. A intercorrência, porém, foi rapidamente contornada e não comprometeu o rendimento da obra. No conjunto, foi uma boa apresentação, com andamento para cima, boa variedade melódica e uma letra que desenvolve com sensibilidade os principais elementos da trajetória de Samuel. Uma forma eficiente de fechar a noite.