
Nascida da luta sindical e potente ao trazer narrativas políticas para a Sapucaí, o Império Serrano comemorará seus 80 anos em 2027 fazendo jus à sua essência: levará para a avenida um enredo que exalta a luta pela democracia. “Seja marginal, seja herói: a revolução em sua legítima razão” é assinado pelo carnavalesco Renato Esteves e pelos enredistas Emanuelle Rosa e Jorge Sant’Anna.
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“Fazer um enredo político no Império Serrano é reafirmar o DNA da escola. O DNA do imperiano é se manifestar, meter o dedo na ferida e dizer: ‘Estou aqui, sou livre e vou lutar pelos meus direitos e pela minha liberdade’. É isso que o Império vai fazer mais uma vez. Vamos entrar na Avenida dizendo que o desfile de escola de samba também é um posicionamento político. É reafirmar o jeito imperiano de ser”, destacou o carnavalesco.
Conhecida por seus enredos de caráter político e social, a escola foi um dos símbolos de resistência entre as agremiações durante a Ditadura Militar (1964-1985). Como importantes aparelhos culturais do país, as escolas de samba também sofreram com a censura do regime, tendo sambas e enredos submetidos ao controle dos órgãos oficiais. O caso mais emblemático do Império aconteceu em 1969, com o enredo “Heróis da Liberdade”, quando a palavra “revolução” precisou ser substituída por “evolução” por determinação da censura. Neste ano, a frase constitui o título do enredo em sua escrita original, como um resgate histórico.
O enredo “Heróis da Liberdade” foi uma das referências principais na idealização do tema de 2027, complementado pelo desejo de abordar a trajetória de Hélio Oiticica. O artista foi expoente da contracultura e autor da bandeira-poema “Seja marginal, seja herói”, que dá título ao enredo. Renato Esteves conta que a aproximação com a União Nacional dos Estudantes, a UNE, instituição com papel importante na resistência contra a ditadura, que completará 90 anos em 2027 e também será celebrada na ocasião, foi essencial para selar a escolha. Começaram a pesquisar movimentos estudantis, até que surgiu a contracultura, movimento que foi impulsionado pelos estudantes e, assim, se tornou “a menina dos olhos” da equipe criativa.

“O enredo mostra como as artes foram fundamentais como manifestação política, sobretudo por meio da contracultura. Começa na ditadura, chega aos dias de hoje e projeta o futuro, porque a luta pelas liberdades nunca termina. O sambista faz arte, faz samba, e a nossa maneira de lutar é cantando e fazendo carnaval”, explicou o carnavalesco.
Por outro lado, ter um forte rol de enredos políticos no Reizinho de Madureira não torna a tarefa mais fácil. Renato conta que o desafio é fugir do padrão do que se entende como enredo político e voltar o recorte da temática às artes.
“A arte não fala apenas pelo discurso, mas também pelas entrelinhas. Muitas vezes, ela diz mais do que a própria boca. Fazer arte é, de alguma forma, fazer política. Escolhemos a contracultura justamente porque ela nos permite expressar esse posicionamento por meio da poesia, das artes plásticas, do teatro e do cinema”, pontuou Renato Esteves.
Nesse sentido, a arte como instrumento de resistência e contestação é um dos motes do enredo. O carnavalesco garante que o protesto estará presente durante todo o desfile de uma maneira que permite que o público tenha fácil leitura da mensagem, mas que também aprecie a manifestação artística.

“Buscamos referências em Hélio Oiticica para mostrar que a arte pode ser um instrumento de manifestação política. Não será um desfile de cartazes ou uma passeata tradicional. O desfile de escola de samba já é, por si só, a nossa passeata”, ressaltou.
Transformar esse universo artístico variado e denso em desfile tem sido uma das missões da equipe. O carnavalesco conta que o desafio de trazer essa visão à vida é filtrar e compactar as inúmeras referências dentro do limite das três alegorias e vinte alas permitidas ao Grupo Ouro.
“O desafio é reunir essa gama de artistas e manifestações em poucos elementos e transformar tudo em um discurso linear. Queremos que as pessoas entendam que não se trata de uma lista de obras de arte, mas de uma narrativa construída a partir delas. Esse é o nosso maior desafio, mas está sendo um processo muito prazeroso”, explicou.
Com tantas referências artísticas pulsantes no período abordado, o carnavalesco conta que Cinema Novo, o Teatro Experimental do Negro, o Teatro Oficina, Lygia Clark, Hélio Oiticica e Ferreira Gullar pintarão na Sapucaí no segundo dia de desfiles do Grupo Ouro, o que renderá um belo trabalho plástico para a escola.
“O carnaval é feito de imagens. O grande desafio do carnavalesco é transformar um discurso em imagem, e a contracultura já fazia isso naturalmente. Esse recorte aproxima a mensagem do público, porque a arte aproxima as pessoas. Tenho certeza de que conseguiremos comunicar tudo isso visualmente na Avenida”, concluiu.









