A Beija-Flor concluiu a segunda etapa da escolha do samba-enredo para 2027. Na última segunda-feira, 10 parcerias se apresentaram na quadra da escola, em Nilópolis. Destas, três foram cortadas, e a próxima etapa eliminatória acontecerá na quinta-feira. A seguir, o CARNAVALESCO analisa os sete sambas classificados desta noite.

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Parceria de Márcio França: O samba 77 foi defendido por Ronaldo Junior, Diego Nascimento, Guinho, Diego Natural e Rodrigo Carvalho. A composição mostra a trajetória de Zeneida como uma mulher nascida para trilhar seu destino como pajé, sendo escolhida desde o ventre da mãe. Um olhar bonito para a narrativa da última pajé marajoara da tribo Sacaca. A defesa foi enérgica e muito segura, respeitando a força e a energia que o samba pedia, e os intérpretes obtiveram um bom rendimento.

Um destaque foi o trecho “destino traçado, forjado”, que traz uma marcação melódica interessante, bem executada pelos intérpretes, além do refrão “respeite meu manto, tem carimbó no quilombo azul e branco” e da força lírica do verso “Minha escola é feitiço, Beija-Flor”. O samba se destaca pela potência melódica que, apesar de não ter gerado grande reação na quadra, fez com que a maioria dos presentes assistisse à apresentação marcando o ritmo com o corpo, batendo os pés e balançando a cabeça.

A animação ficou a cargo da torcida, com dançarinas de carimbó caracterizadas com as longas saias floridas; alguns outros carregavam bandeiras azul e branca e muitos vestiam camisas personalizadas da parceria.

Parceria de Paulo Cesar Feital: A composição da parceria de Paulo Cesar Feital levou uma defesa emocionante e poética à quadra, na voz de Wander Pires. A apresentação se iniciou com o próprio compositor declamando um poema como uma carta de amor da Beija-Flor a Zeneida Lima. A beleza da pequena introdução, com destaque para os versos “Guarda, portanto, querida Zeneida, o mel desta amizade que é nobre e pura, mas que, na verdade, tem todo encanto de um primeiro amor”, sintetiza o carinho e o valor desse “reencontro” com quem, na verdade, nunca foi embora. A letra é descritiva da história de Zeneida, contada em primeira pessoa, e é poética ao trazer sua relação com a encantaria. Um destaque lírico é o refrão “meu Beija-Flor, te amo demais, te entrego minha sorte no altar dos carnavais”, que sela a relação entre a pajé e a escola, permeada pelo sagrado. Apesar de não ser um refrão explosivo, a repetição o torna satisfatório de ouvir.

O samba traz interessantes variações melódicas, em uma crescente, incluindo trechos em um tom mais baixo, que remete a tantos clássicos eternizados por Neguinho da Beija-Flor, que dialogam com a identidade da escola. E foi interpretado com respeito à personalidade da obra, com um bom rendimento em todas as passadas. Entretanto, houve uma leve falha na terceira passada devido a um desencontro melódico no verso “Louvado seja Deus que me criou um dia”: “um dia” constitui a parte mais baixa da frase e acaba sendo mal pronunciado ou atropelado pela rapidez do próximo verso, como ocorreu na terceira passada. Ainda na crescente, versos como “êê jurema, juremá” o levantam novamente e culminam no refrão “meu Beija-Flor, te amo demais, te entrego minha sorte no altar dos carnavais”.

A melodia conseguiu contagiar alguns segmentos da agremiação, com destaque para o verso no refrão “sangue quente, Beija-Flor”, de fácil assimilação e que prende na mente em poucas passadas. A parceria carregou uma torcida numerosa, ainda que descaracterizada em relação à identidade visual da parceria, com um dos membros “coordenando” o desempenho dos apoiadores. Enquanto isso, alguns cantavam acompanhando a letra na folha, e outros se concentravam em cumprir o papel de animação.

Parceria de Junior PQD: Um dos pontos altos de energia da noite, a apresentação do samba 02 foi realizada por Pitty de Menezes e Wic Tavares. A narrativa trazida pela composição se diferencia das demais e do que foi induzido pela sinopse, ao trazer a voz de Zeneida para contar sua história. Apesar disso, é poética e aguerrida na dose certa e pode ser resumida em uma palavra: união.

Celebra a união de Zeneida com a Beija-Flor, e a parceria traz compositores nortistas e nilopolitanos, em uma obra carregada por ambas as identidades, como pode ser visto nos versos: “M’BARAYÓ/POVO SOBERANO NUNCA ANDA SÓ/ERGUE SUAS LANÇAS FEITAS DE CIPÓ/NESSAS ÁGUAS TURVAS PODE APARECER”. Esses primeiros versos são embalados por uma melodia cheia de swing.

Outro destaque é a melodia marcada em “sem medo vamos lutar! (naê, naê)”, que provocou um canto mais forte. Outro destaque de canto é o “ôôô, já chamou na doutrina”, que ganhou boa resposta durante a apresentação. Os intérpretes mantiveram a energia em alta do início ao fim, com ótimo rendimento.

A torcida marcou a animação desde o início da performance. Chegaram com atabaques, fitilhos, coreografia e muito canto. Contagiou alguns dos presentes, incluindo alguns membros da harmonia da escola.

Parceria de Marquinho Beija-Flor: A parceria 13 foi defendida por Pixulé de forma enérgica e segura. A composição é simples, forte e direta ao ponto, cumprindo bem seu papel narrativo sobre o “retorno” da pajé Zeneida ao cenário nilopolitano. Em destaque, o lírico cria uma imagética sobre a trajetória espiritual da pajé em versos como “A PAJERAMA ENTÃO ANHANGA FOI FLECHAR DEZESSETE DIAS AMARRADA NO CIPÓ EU, FILHA DAS ÁGUAS, FLORESCI EM MINHA FÉ FOI O MEU CHAMADO, MAS EU NÃO ESTAVA SÓ A MATA ME ASSENTOU PAJÉ”.

Essas características não descredibilizam ou são negativas; pelo contrário, as impulsionam e projetam sua assimilação. Com grande destaque para o refrão “ê, incorpora caboclo! ê, incorpora caboclo! quero ver incorporar!”, chiclete e contagiante.

O samba teve uma defesa boa e enérgica, à altura do samba e da sinergia entre a torcida animada, cantando o samba do início ao fim, e os intérpretes, sendo um dos destaques da noite. Não chegou a levantar o público, mas a composição claramente está na boca do povo, com baianas e alguns membros da harmonia acompanhando o canto. Ao final, a torcida rendeu um bis, cantando o samba mesmo após o fim da apresentação.

Parceria de Diogo Rosa: Outro destaque da noite foi conduzido por Tinga. A composição traz a potência espiritual de Zeneida e brinca com melodias que abraçam o lírico forte e os refrões potentes da obra, como “CHAMA KARUANA QUE A BAIXADA INCORPOROU/CHAMA KARUANA QUE A BAIXADA É BEIJA-FLOR/PAJELANÇA CABOCLA SAWÉ! SAWÉ!!/NA MAGIA DA FLORESTA O SEGREDO PRA VENCER”.

Outro recurso interessante aparece nos trechos “Invisível vira folha, folha vira… pó de louro, caminho aberto” e “mundiada em ventania, o tempo parou… pra ver o Brasil dos maracás”. A composição brinca com o recurso poético entre frase e pausa musical, criando pequenas falsas conclusões: “folha vira pó”, “o tempo parou” para, em seguida, completar o sentido na continuação: “…de louro, caminhos abertos”, “pra ver o Brasil dos maracás”. O recurso provoca uma suspensão de expectativa e dá movimento à construção dos versos.

A defesa foi enérgica, defendendo a obra com justiça e proporcionando um ótimo rendimento. A performance contagiou para além da torcida animada presente, que já cantava desde antes de o samba ser anunciado. A performance mudou a energia da quadra, mesmo no final da noite. Até mesmo alguns membros da equipe criativa e integrantes do carro de som da escola foram “pegos” pelo samba 01.

Parceria de Junior Trindade: O samba foi defendido por Bruno Ribas e Lissandra Oliveira. Nesta composição, Zeneida retorna à Beija-Flor para se apresentar e contar sua história. A ideia pode ser vista nos versos, também como destaque lírico: “Do norte / Sopro pó de louro de minhas mãos / Borboletas revelam voltei nesse chão / Eu sou Zeneida / Energia da natureza / E vim de onde renascemos”, que trazem também um pouco da ligação espiritual que a escola manteve com a pajé.

Já o refrão “Mãe luz de Nazaré / Me mantém de pé na esperança / Por Deus, pelos ancestrais / Nas lutas sociais, proteja as crianças / É o amor o nosso elo em comum / Que meu caboclo outra vez / Firme a vitória do seu Ogum / Ixéa-îkobé, Opáara / Te dei meu poder, se fez vencedor / Meu filho anajá, na mata incorporou / A soberana caruana Beija-Flor” funciona bem ao sintetizar Zeneida e brindar a relação com a comunidade nilopolitana.

No entanto, a obra tem uma melodia mais linear, com pouca variação, o que a faz passar sem brilho. Veio morno até mesmo para os intérpretes, Bruno e Lissandra, que são conhecidos pela intensidade, mas foram tolhidos na interpretação justa que renderam ao samba. Bruno Ribas, entretanto, esqueceu alguns trechos do refrão “Ixéa-îkobé, Opáara / Te dei meu poder, se fez vencedor / Meu filho anajá, na mata incorporou / A soberana caruana Beija-Flor” durante a primeira passada. A torcida, pequena, mas animada, conseguiu contagiar algumas pessoas na quadra.

Parceria de Sidney de Pilares: O samba da parceria campeã de 2026 foi defendido por Igor Vianna e Igor Sorriso, um encontro de potências que rendeu lindas harmonias vocais. Destaque para o show de interpretação no verso “no rio-mar do Marajó, do Marajó”. A defesa fez brilhar o potencial melódico e de canto da obra.

O samba, por si só, já carrega poesia ao falar da trajetória de Zeneida e destacar seu encontro, marcado pela espiritualidade, com a Beija-Flor. O samba traz o tom um pouco mais baixo, mas que funciona com a comunidade da Beija-Flor. O verso “de pajé pra pajé vou curar” se destaca pelo swing e pela marcação melódica, que abre a possibilidade criativa para a musicalidade.

Outro destaque é o potente refrão “FIRMA A CURIMBA NA GIRA DO CARIMBÓ! FIRMA A CURIMBA NA GIRA DO CARIMBÓ! É A PAJELANÇA NILOPOLITANA O MEU BEIJA-FLOR INCORPORA CARUANA”. O samba contagiou alguns dos presentes, incluindo membros da equipe criativa da escola.