
O Salgueiro deu o pontapé inicial na escolha do samba-enredo para 2027. No próximo ano, a escola levará para a Avenida o enredo “Laroyê, Xica da Silva: A história por trás da história” e será a terceira escola a desfilar na segunda-feira de Carnaval. No último sábado, a noite foi de eliminatória da Chapa Vermelha, com nove parcerias se apresentando na quadra da escola, no Andaraí. As classificadas ainda serão anunciadas, e a próxima etapa, com a Chapa Branca, acontecerá no próximo sábado, dia 15. A seguir, o CARNAVALESCO analisa as apresentações da noite.
* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp
Parceria de Raoni Ventapane: Dudah e Zé Paulo defenderam a composição de Raoni Ventapane, Dudah, Thales Nunes, Daniel Guimarães, Clara Ferreira, Denis Moraes, Vitor Menezes, Wibson Fernando, Carlinhos e Hugo Oliveira. O samba traz uma melodia vibrante, especialmente na sustentação do refrão “Arreda homem que aí vem Salgueiro, arreda homem que aí vem Salgueiro, sou a Xica macumbeira, Pambunjila! Mojubá! A faísca que acende a Furiosa no gongá!”. A apresentação teve bom rendimento do início ao fim.
A composição caracteriza a personagem histórica e controversa de Xica da Silva, estabelecendo paralelos com a Pomba Gira, conforme proposto pelo enredo. Também evoca a relação da personagem com o Salgueiro em “Com Arlindo fiz história, meu torrão eternizei… ôô ôô”, em referência ao samba de 1963, e com a cultura brasileira em “Encarei o preconceito com a força de Taís”. O verso “Ela é Maria, Mariá, na tela incorporei / ‘Ela é Maria, Mariá’, as regras eu rasguei” traz uma boa referência a um ponto de Pomba Gira e força melódica, mas passou atravessado na primeira passada. O mesmo aconteceu com o verso seguinte “A fogueira pra mentira, a coragem que inspira, corpo-espelho da ralé, o retorno que atiça”, na segunda passada.
A parceria levou uma torcida animada à quadra, com bandeiras coloridas e boa troca de energia com os intérpretes, embora o canto tenha se concentrado principalmente no refrão e não contagiasse o restante do público.
Parceria de Filipe Zizou: O samba da parceria de Filipe Zizou, em parceria com Maralhas, Luciano Gomes, Queiroga, Mineiro, Ailtinho, Sérgio Alberto Português, Beto Bombeiro, Micha e Gustavo Mineiro, foi interpretado por Fredy Vianna, Rodrigo Tinoco e Millena Wainer. A composição apresenta uma construção interessante para desenvolver a narrativa proposta pelo enredo. Em sua primeira parte, Xica é apresentada como uma pomba gira e, logo em seguida, contrapõe-se a essa ideia, trazendo a abordagem ao “factual” de Francisca da Silva Oliveira e apresentando a personagem em primeira pessoa em algumas estrofes. Quanto à melodia, faz jus à potência das letras, com destaque para a força dos atabaques, que dão peso e personalidade à obra, especialmente no refrão.
A obra apresentou rendimento regular na primeira passada, especialmente na estrofe “Laroyê nessa gira sem submissão tem gargalhada…”, porém alcança seu momento de maior força no refrão “Giro a saia na encruza tem macumba no terreiro laroyê mojubá! Arreda que lá vem Salgueiro!”, bem sustentado pela melodia envolvente, que abraça bem os versos. Entretanto, em mais de uma passada, o trecho “Força feminina, rebelde ancestral Marias, Pambungila desperta a história” passou truncado, com baixa afinidade melódica.
A parceria veio acompanhada de uma torcida animada, empunhando bandeiras nas cores da escola, apesar da participação inexpressiva no canto, que também não contagiou o restante dos presentes. A defesa foi consistente, ainda que menos empolgada, e ganhou um pouco mais de intensidade ao longo da apresentação.
Parceria de Neth Oliveira: O intérprete Ciganerey apresentou a obra de Neth Oliveira, em parceria com André Damazio, Claudinho do Pagode, Luiz Carpinteiro, Waltinho Raiz, Gabriel Rodrigues, Silvio Villas, André F. Dias, Luiz Carlos Fernandes e Sergio Pugliese. A performance apostou em alguns elementos cênicos, como uma mulher dando vida a uma Xica da Silva “pombo-girada” no palco, junto aos intérpretes, e uma torcida carregando bandeiras nas cores da escola, com baixa participação no canto, que também não influenciou os demais na quadra.
A narrativa da obra traz o ponto de vista de Xica, apresentando-se como uma pomba gira, com versos ousados como “Não sou o mito que o tempo desenhou, nem o adverso minha voz calou”. Entretanto, o refrão “Viva a liberdade, o tambor vai ressoar! Meu terreiro está em festa, vamos celebrar! Sob a carta de alforria, que me presenteou João Fernandes, o contratador” perde um pouco da força criativa que os demais versos carregam. Em contraste, o refrão “Laroyê! Vem girar no meu ilê sou a força preta que eu sempre quis bis sob a luz que alumia, o branco e vermelho sou Xica da Silva….Salgueiro!!” trouxe um momento de mais força à performance, embalado por uma melodia gostosa de ouvir.
No geral, o samba traz uma melodia com um bom “swing”, que deu bom sustento aos versos durante a maior parte da apresentação. A apresentação teve um bom rendimento, apesar de passar com menos brilho.
Parceria de Marcelo Motta: A parceria de Marcelo Motta com Dudu Nobre, Pedrinho da Flor, Leonardo Gallo, Jorge Arthur, Julio Alves, Gilberth Castro, Josy Pereira, Bruno Dallari e André Braga é originalmente defendida por Tinga, Wic e Juan Briggs. Porém, nesta noite, teve a presença apenas de Tinga e Wic, além dos cantores de apoio.
Dentre todos os atributos de ‘Xica’ a serem exaltados pelo enredo, a narrativa do samba 8 destaca a força da negritude de Xica, com letra aguerrida e defendida à altura pelos intérpretes. Os versos “Chama Padilha, Mulambo, que tem demanda” são um destaque da apresentação pela sua repetição e estrutura similar a um ponto afro-religioso, fortalecidos “na palma da mão” pela maioria dos presentes na quadra durante a terceira passada, com uma melodia interessante. Outro destaque foi a interpolação rítmica no trecho “Apesar da dor”, em alusão à melodia do samba da escola, de 1963. Ambos os recursos criativos funcionaram bem e elevaram a potência da apresentação.
A parceria contou com uma torcida animada que preencheu a quadra, entoando o samba do início ao fim. O canto e a animação não se reservaram apenas ao grupo, levantando parte do público já na metade da noite, que encarou as apresentações anteriores com pouco entusiasmo.
Parceria de Liesbeth Nunes: Nil Souza interpretou a obra de Liesbeth Nunes, PJ do Samba, Roberto Felinto, Diego Pomar, Vitor França, PC Lopes, Krys Fonseca, Vera Guedes, Cláudia Rejane e Andressa Castro. A apresentação explorou a força da Pomba Gira tanto na letra quanto nos elementos cênicos, com uma artista caracterizada como a entidade, rodopiando pelo palco e no meio da quadra, entre os torcedores. A composição tem espírito afrontoso e forte carga poética em versos como “Fui encruzilhada entre açoite e liberdade, não se prende na corrente, ideais de majestade…”, como pede a personagem homenageada.
A defesa teve bom rendimento, apesar de uma leve queda na última passada. A apresentação também poderia ter se beneficiado de uma voz feminina no carro de som, recurso presente na maioria das demais parcerias e especialmente adequado ao enredo. A torcida empunhou bandeiras da escola, mas a apresentação passou de forma mais morna para o público.
Parceria de Bernardo Nobre: Com Pitty de Menezes e Igor Vianna como vozes principais, o samba 7 foi um dos grandes destaques da noite. O samba de Bernardo Nobre, em parceria com Thiago Meiners, Leandro Pereira, John Bahiense, João Moreira, André de Souza, Ribeirinho, Diego Alba, Jonathan Tenório e Luiza Vieira, começou a apresentação com o pé direito, ao associar a pomba-gira referenciada neste ano a Xangô, padroeiro da agremiação, em: “Malelê malelê, kaô kabecilê, meu Salgueiro corre gira, mojubá laroyê, toca o barravento, firma o alujá na casa de Xangô, eu vim pombo-girar”, que evoca a identidade salgueirense e provoca o canto.
Outro destaque foi o verso “Tá pra nascer, meu Deus, quem enfrente uma moça igual a ela”, em alusão a um ponto de Pomba Gira, que levou a quadra a acompanhar com palmas. Houve uma leve queda no verso “E pra crer só o quilombo de Francisca ensinou ao escrever, a tinta apagou os moralistas…”, na primeira passada, mas o samba manteve bom rendimento. A defesa foi potente e valorizou os principais momentos da obra.
A torcida apareceu em peso, com blusas e leques personalizados, cantou o samba de cabo a rabo e puxou um bis ao final. Mesmo com a quadra já esvaziada, a apresentação conseguiu reavivar o público.
Parceria de Samir Gil: Marcelo Riva defendeu a obra de Samir Gil, Yuri Gil, Augusto Chaves, Bárbara Bastos, Isaías Demócrito, André Lustosa, Paulo Lima e William Ramos. A melodia funciona bem em sua construção geral, mas faltou maior harmonia do carro de som para sustentar a força da obra em alguns momentos. A composição segue uma estrutura que remete a sambas clássicos da Academia para narrar a história de Xica da Silva.
O refrão “Bate palmas que ela vem, pode chegar! Firma ponto! Pega fogo o gongá! ‘Vestiu’ Salgueiro, a ‘encantada’ não ‘duvida’! Laroyê! Mojubá… Xica!” é interessante, embora, melodicamente, fique aquém do potencial da letra. O trecho “Incorporei na majestosa ‘Isabel’ pro mundo me conhecer, na ‘médium Zezé’, o olhar da ‘tela’, na ‘yaô Taís’, outra história de novela” perdeu força nas duas primeiras passadas, antecedendo o refrão “Me chamou, eu quero festa! Pode tocar! Um atabaque ogã… de arrepiar! A minha história eu vou contar! – Sou ‘Chica da Silva’ – negra ‘sinhá!’”, deixando-o em desvantagem.
Parceria de Moisés Santiago: Tem-Tem Júnior, Rafael Tinguinha, Tuninho Junior, Danilo César e Lissandra Oliveira defenderam a obra de Moisés Santiago, Sereno FDQ, Rodrigo Feijú, Aldir Senna, Mateus Pranto, Marquinho Bombeiro, Marcelo Martins, Alexandre Cabeça, Sandro Nery e Marcelo Batista. Apesar do número de intérpretes, a defesa foi clara e bem dividida, com destaque para Lissandra e sua interpretação da emblemática gargalhada de Pomba Gira, que deu peso e personalidade ao canto do carro de som.
Foi um dos pontos altos da noite em melodia, com boas variações, refrão forte e uma abertura marcada pelo atabaque em “O meu Salgueiro é casa de macumba”. A composição apresenta Xica como uma entidade eternizada pela escola e o Salgueiro como um grande terreiro. O pré-refrão “Axé! Pode preparar a gira, o meu corpo tem dendê… Canjira, magia de enfeitiçar, me chamaram de mucama, mas nasci pra ser sinhá” e o trecho “Eu jamais fui o retrato… que sinhô mandou pintar, todo véu da hipocrisia… eu mandei rasgar” reforçam a força e a subversão da personagem, como bem proposto pela narrativa.
A obra ainda reúne referências históricas, bem conhecidas pelos salgueirenses, ao invocar o nome da escola no verso “Arreda que lá vem Salgueiro… Salgueiro!”, trazendo recurso rítmico próximo a sambas de exaltação e outros clássicos da escola, seguido do emblemático “ôooo” de 1963. A torcida, com perucas de espuma inspiradas nas representações das perucas vitorianas de Xica, cantou a composição inteira e puxou um bis. A defesa teve ótimo rendimento e esquentou a quadra já quase vazia.
Parceria de Rafa Hecht: A obra composta em parceria por Rafa Hecht e Samir Trindade, Thiago Daniel, Deco, JP Figueira, Clairton Fonseca, Laura Roméro, Guiga Corrêa, Geraldo M. Felicio e Jefinho Rodrigues foi defendida por Pixulé, Marquinhos Art Samba e Leonardo Bessa.
A composição carrega qualidade inegável, com boas variações melódicas e destaque para o trecho “Ninguém faz macumba como meu Salgueiro”, que chama a torcida e evoca a alma salgueirense. A obra também coloca Xica como uma entidade do terreiro do Salgueiro.
Apesar da força da obra e da qualidade dos intérpretes, faltou maior intimidade e segurança com a letra durante a apresentação. Na tentativa de evitar papéis nas mãos durante a apresentação, uma folha com a letra foi deixada no chão como guia. Entretanto, os três intérpretes passaram boa parte da apresentação concentrados no papel, o que comprometeu a presença e o domínio do palco. Em alguns momentos, a atenção voltada à letra também prejudicou a execução melódica, fazendo com que trechos como “É pembelê, iaiá conguê, é orerê Da Costa da Mina, os meus Francisca da Silva, sou eu Da arte dos catopês, da elite e das ralés” e o refrão “Faz ebó, veste vermelho….”, na primeira passada, e “Dona 7 incorporada na beleza de Zezé, Virei Taís, afrontei o país” fossem executados de forma um pouco truncada. O trecho “Furiosa vai passar” também destoou da construção melódica e chegou a provocar uma perda de controle momentânea de um dos intérpretes na última passada. Entretanto, o refrão “Faz ebó, veste vermelho e firma o ponto, Deixa que o meu segredo eu conto, A dona da casa protege o terreiro, Ninguém faz macumba igual meu Salgueiro” funcionou bem melodicamente.
A parceria e sua torcida estavam trajadas com uma blusa vinho, com a frase-chave “Ninguém faz macumba como meu Salgueiro” circundando a logo da Academia do Samba. A pequena e tímida torcida assistiu à apresentação empunhando bandeiras alvirrubras com o símbolo da escola. A apresentação conseguiu se sustentar bem; entretanto, não conseguiu provocar na quadra o mesmo nível de agitação dos principais destaques da noite.









