
‘Xica’ do Salgueiro, de 1963, e ‘Xica’, de Zezé Motta, de 1976, nos dão uma certeza: Xica muda por onde passa. É assim que a atriz que deu vida à personagem no icônico filme de Cacá Diegues, em 1976, define a trajetória da figura histórica que volta à cena com o enredo do Salgueiro para 2027. “Laroyê, Xica da Silva: a história por trás da história” será desenvolvido pelo carnavalesco Jorge Silveira a partir do livro de Leonardo Antan, enredista da escola. A atriz que deu vida a Xica da Silva ou, como proposto pelo enredo, uma das “cavalas” de Xica, em sua primeira representação no audiovisual brasileiro conta ao CARNAVALESCO que o filme foi “um divisor de águas em sua vida como artista e como mulher”.
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“Existe uma Zezé antes e outra depois desse filme. Eu era uma atriz apaixonada pelo meu ofício, mas Xica me apresentou ao Brasil e ao mundo de uma forma que eu jamais poderia imaginar. Foi um personagem intenso, desafiador, cheio de camadas, que exigia coragem numa época em que quase não existiam protagonistas negras no cinema brasileiro”, avaliou.
O filme nasceu histórico. Levou mais de três milhões de pessoas aos cinemas por todo o Brasil em meados dos anos 1970, em um mundo pré-internet, sem redes sociais e sem as divulgações massivas dos tempos atuais. Venceu as barreiras do preconceito contra filmes protagonizados por atores negros, abriu debates acerca da negritude e da representação feminina. Com ‘Xica da Silva’, Zezé viajou o mundo, participou de festivais, deu inúmeras entrevistas e, mesmo com uma carreira já consolidada aos 32 anos, alcançou um patamar ainda maior de exposição, sendo reconhecida por todos na rua como “Xica”.
O que permitiu que esse trabalho chegasse ao coração do povo foi sua inspiração inicial: nasceu de uma festa popular. Cacá Diegues chamava ‘Xica da Silva’ de “filme-escola de samba”, pois foi inspirado pelo emblemático desfile de 1963, do Salgueiro, que será revisitado pela agremiação em 2027. Trouxe do Carnaval a música, na trilha sonora de Jorge Ben; as cores, em fotografia assinada por José Medeiros, que tinha relação próxima com a cultura negra; o humor, a ironia, a sensualidade e a ‘ginga’.
O enredo homônimo de 1963 criou o primeiro imaginário da figura de Francisca da Silva de Oliveira, uma ex-escravizada do Arraial do Tijuco, em Minas Gerais, durante a segunda metade do século XVIII, que mudou de vida por meio da união com o contratador José Fernandes de Oliveira. Por ter uma vida tão incomum para uma mulher negra em um período escravagista, sua riqueza gerou mitos que se perpetuam até hoje.
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‘Chica’ também foi um divisor de águas para o Torrão Amado. O desfile constitui o auge da Revolução Salgueirense, período de vanguardismo estético e narrativo, liderado por Fernando Pamplona, em que a negritude era protagonista sob um olhar heroico na Avenida. Além disso, o enredo campeão, desenvolvido por Arlindo Rodrigues, garantiu a primeira vitória individual da escola no Carnaval. Nas palavras do carnavalesco Jorge Silveira, Xica compõe o “Orum salgueirense” junto de Zé Pelintra, Zumbi dos Palmares, Chico Rei e Xangô, personagens de enredos marcantes que hoje são vistos de forma mítica, norteando a essência e os caminhos do Salgueiro.
No filme de Diegues, a Xica de Zezé subverte a ordem do esperado de uma mulher negra e, principalmente, de uma protagonista negra nos anos 1970. A personagem carrega uma liberdade que raramente era permitida às personagens negras no cinema, como Zezé descreve: “ocupava os espaços com orgulho, ria alto, dançava, corria, provocava, olhava nos olhos das pessoas, não pedia licença para existir”.
Zezé conta que sua maior inspiração foram “as mulheres negras brasileiras, que enfrentam as adversidades com dignidade, inteligência e coragem”.
“Eu queria que Xica carregasse essa verdade. Ela não podia ser apenas uma figura sensual; precisava transmitir humanidade, desejo de liberdade e uma força que desafiasse as estruturas de poder daquele período”, refletiu.
‘Filme-escola de samba’: como o Salgueiro inspirou um clássico do cinema brasileiro
Assim como o filme nasceu sob o signo da “escola de samba”, sua influência se estende à construção da protagonista, reforçando a importância do carnaval como um lugar de potência e liberdade para os artistas negros.
“De certa forma, dialoga com a força que vemos no carnaval, especialmente nas mulheres negras que sempre transformaram seus corpos em instrumento de expressão, de resistência e de alegria. Naquela época, a maioria dos personagens negros era construída a partir da dor, da submissão ou de papéis muito limitados. A Xica rompeu com esse imaginário. Ela era complexa, contraditória, irreverente e profundamente viva. Acho que foi isso que chamou tanta atenção. Não era apenas uma personagem negra em destaque; era uma mulher ocupando a tela inteira com uma presença que o cinema brasileiro ainda não estava acostumado a mostrar”, concluiu.
Xica volta ao carnaval
Um dos motes do enredo do Salgueiro para o Carnaval 2027 é manter viva a memória das Xicas de Isabel Valença, Zezé Motta e Taís Araújo. Assim que foi anunciado, o perfil da escola publicou um vídeo especial de Taís Araújo falando sobre a importância do enredo. Zezé também manifestou apoio, celebrando a homenagem e parabenizando a escolha do enredo em suas redes sociais.
Zezé conta que ficou emocionada em saber que mais pessoas poderão conhecer a história de Xica, porém ainda não recebeu um convite oficial da escola para desfilar. Aos 82 anos, a atriz vive uma intensa rotina de trabalho entre cinema, música e TV, além de viagens e preparação física, e afirma estar disposta a organizar a agenda para participar do desfile de Carnaval.
“Se houver um convite e todas as condições forem adequadas, será uma alegria conversar sobre isso. Afinal, tenho uma gratidão imensa pela Xica da Silva. Ela transformou a minha vida, marcou a história do cinema brasileiro e continua abrindo caminhos para tantas gerações de artistas. Sempre que esse legado for celebrado, estarei torcendo, apoiando e comemorando junto”, afirmou.










