Por Gustavo Lima e Almir Aprígio
A comunidade do Tucuruvi encheu a sua nova quadra, localizada na Rua Manuel Gaya, na noite do último sábado, para prestigiar a final de samba-enredo, além de torcer pelo seu favorito. O evento contou com a presença da coirmã Mocidade Alegre, que levou a comunidade em peso para fazer a festa e abrilhantar ainda mais a festa no local do “Zaca”. Após a apresentação da Morada do Samba, chegou o aguardado momento dos quatro sambas finalistas se apresentarem no palco. Todas as parcerias levaram grandes torcidas e nomes consagrados para comandar os microfones, como Fredy Vianna, Pixulé, Celsinho, Darlan Alves e Luiz Felipe. Seis passadas, sambas iorubas, pirotecnia, bexigas e papéis picados fizeram a festa do povo. Contudo, o primeiro samba a se apresentar se sagrou o campeão. O time número 7, que tem como compositores: Thiago Meiners, Thiago Morganti, Claudio Mattos, Sukata, Wilson Mineiro, André Valencio, Ítalo Pires, André Aranha, Serjão Português, Thiago Piccirillo, Don Souza, Daniel Tubino e Rafael Tubino.
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“É uma emoção muito grande. A gente ficou afastado da escola por um tempo. O último samba que vencemos aqui foi em 2017, depois acabamos nos afastando. Mas temos uma história muito bonita com a escola, uma relação de cumplicidade maravilhosa desde 2002. Estamos aqui participando há muitos anos. Com essa nova gestão, do Rodrigo Delduque, surgiu a oportunidade de voltar. Em 2017 já tínhamos vencido e agora retornar e conquistar mais um título é uma satisfação imensurável. É muito gostoso estar aqui, ser bem recebido por uma escola familiar, com uma comunidade maravilhosa. Também quero parabenizar todos os compositores. Eu sei que uma derrota é difícil de assimilar. A gente trata o samba como um filho, então perder nunca é fácil. Mas, graças a Deus, hoje saímos vencedores dessa competição”, disse Turko, um dos compositores da obra.
Com termos iorubás, o poeta contou que a feitura do samba exige, mas não foi difícil, pois a escola vem pedindo essa abordagem nos últimos anos. “A escola adotou esse estilo de samba com uma linguagem mais elaborada, que encanta e exige um pouco mais do público. São muitas palavras de origem iorubá, muito ligadas ao enredo. O processo acaba sendo natural. A gente busca utilizar essas expressões, essas palavras de origem africana, sempre dentro do contexto do enredo. E, felizmente, fomos campeões”, completou Turko.
Composição de várias localidades e facilidade na escrita
Outro autor da trilha-sonora, André Valencio revelou que a parceria é formada de compositores de várias regiões do Brasil e, de acordo com ele, facilita o processo de composição. “É um sentimento um pouco diferente, porque, apesar de a gente já ter disputado algumas vezes aqui, foi relativamente no passado. A gente ainda está novo, cru na escola. A gente gostou muito do enredo, então isso chamou a nossa atenção. O samba saiu muito rápido, porque realmente foi uma coisa muito marcante para nós. E como a nossa parceria é multifacetada, tem gente de vários lugares do país: tem gente da Bahia, tem gente do Sul, tem gente do Rio. Isso facilita, de certa forma, apesar da distância, porque as ideias vêm de vários lugares diferentes. Então isso acaba contribuindo para que grandes obras saiam, graças a Deus. Esse é o nosso quarto samba no Grupo Especial este ano e, se Deus quiser, com mais alguns por vir”.

Com as palavras em iorubá, André Valencio falou sobre a tranquilidade de abordar tal fato, devido a experiência que vem tendo na Barroca Zona Sul nos últimos anos. “Graças a Deus, um pouco da nossa experiência com a própria Barroca, onde já são alguns anos fazendo samba com esse tipo de linguajar, ajudou bastante. Para a gente, graças a Deus, não foi nenhuma dificuldade trabalhar com isso. Estamos no território que a gente gosta”.
Elencando a parte favorita da obra, André citou o refrão. “A minha parte favorita, na verdade, é a força do começo: ‘Nessa terra, nesse ayê, o meu samba tem poder’. Isso é muito forte. Parece que você está chamando a galera para entrar junto, com lança, com tudo. ‘Vamos para a guerra!’. É muito legal. A que eu mais gosto, na realidade, é essa do começo”.
Samba adequado ao enredo e trabalho com a comunidade
Exaltando a obra, o presidente Rodrigo Delduque diz que combina completamente com o tema e agora a missão é passar todo o contexto para os componentes. “É um samba muito pertinente ao enredo, que nos dá muita segurança. Agora vamos reescrevê-lo e entrar em estúdio. Tenho certeza de que os profissionais vão conseguir entregar para nós um samba memorável, assim como os últimos que passaram pela escola; Desde que decidimos abordar a profundidade da religião de matriz africana, sabemos que precisamos passar isso para a comunidade de forma pedagógica, mostrando como é feito e de que forma é desenvolvido. Hoje temos o nosso babalaô nos auxiliando sempre”.

Explicando o formato de trabalho, o dirigente revelou que primeiro é feito um trabalho de canto, e que a comunidade tem pedido cada vez mais este formato de enredo. “Realizamos um trabalho de harmonia inicialmente com o time de canto. Só depois levamos todo esse conteúdo teórico para a prática com a equipe de harmonia. Tem dado certo, tem dado resultado. A escola já fica sedenta por enredos afro, por palavras em iorubá. Eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Assim que termina um carnaval, eles já querem saber qual será o próximo enredo. Talvez, se não houvesse nenhuma palavra em iorubá no samba, nem fosse ficar com a cara da comunidade”.
Sobre a reunião de decisão, Delduque contou que a escolha foi feita democraticamente. “A maioria decidiu, a maioria aclamou. Ouvimos todos os segmentos, ouvimos todos os quesitos e, graças a Ifá e Exu, conseguimos escolher um samba que tenho certeza de que ainda vai crescer muito mais”.
Clima da final e samba dentro da sinopse
A estreante porta-bandeira no Tucuruvi, Sofia Nascimento, elogiou a obra escolhida, dizendo que estava condizente com a sinopse. “É um samba que estava muito alinhado com a sinopse, com tudo aquilo que o carnavalesco propôs junto ao nosso pai Maurício. Então, estamos muito animados. É um samba que todos nós gostamos. Somos suspeitos para falar de cada um, porque acompanhamos todas as obras, ouvimos cada samba e analisamos com muito cuidado. Como eu sempre digo, a gente gosta de estudar. Pegávamos cada samba, comparávamos com a sinopse e avaliávamos como ele se encaixava no enredo. Agora é trabalhar, fazer alguns ajustes para a nossa coreografia e seguir com o projeto”.

O mestre-sala Luan Caliel exaltou o clima da final, e também demonstrou muito conhecimento ao tema. Eu adorei. Achei o clima muito legal. Este ano tivemos várias parcerias muito boas, muitos sambas que conseguiram traduzir o enredo. Todas as parcerias apresentaram um belo trabalho, trouxeram suas torcidas e deram aquele calor que uma final precisa ter. Como a Sofia comentou, o samba vencedor está muito conectado ao enredo. Ele conta muito bem os quatro setores da escola: começa com uma saudação ao Ilê, passa pelo segundo setor, com Ilê e Fé, abordando um pouco sobre o Ògbóni; depois apresenta os cultos e faz o fechamento da narrativa”.
Forte trabalho e os próximos passos
Aprimorando o discurso do presidente, o diretor de carnaval, Raphael Hungeria, disse que é uma obra cabível ao enredo, mas que foi uma escolha difícil devido a qualidade da disputa na final. “É um samba que realmente entrega tudo o que a gente imagina em termos de plástica e também aquilo que a sinopse que os meninos criaram propõe. Para a gente, foi uma escolha muito complicada e difícil, mas tenho certeza de que, agora, trabalhando esse samba com o restante da escola, vamos fazer um trabalho de ensinar o pessoal passo a passo, palavra por palavra, para que ele cresça ainda mais e esteja com a gente no Anhembi, levando mais um ensinamento, mais uma aula da Tucuruvi para todo mundo”.
Dentro do processo de ensinamento para a comunidade, Raphael revelou que são muitos detalhes explicados e todos os segmentos participam. Não é algo apenas cantado, e sim o contexto deve ser entendido. “A gente vem trabalhando isso desde o ‘Ifá’. Mesmo a ‘Assojaba’ já tinha algumas palavras em iorubá. A gente traz a comunidade para dentro da escola. Primeiro, reunimos os setores e os quesitos e fazemos uma verdadeira aula, bem didática. Sentamos com o pessoal, lemos o samba, explicamos cada palavra, mostramos o significado e fazemos com que eles entendam exatamente o que estão cantando. Assim, quando estiverem ensaiando na quadra, na avenida e, principalmente, no dia do desfile, isso já será algo natural, sem nenhuma novidade. Trabalhamos de forma muito didática com todos, do primeiro ao último componente. O Hudson participa, o Serginho participa, a direção de carnaval também faz parte desse processo. Toda terça-feira ensaiamos com eles aqui: primeiro sentados, lendo a letra; depois em pé, andando e fazendo movimentação, junto com a bateria. É assim que buscamos alcançar o resultado que queremos e conquistar a nota que tanto almejamos no dia do desfile”.

O profissional revelou os próximos passos do Tucuruvi. Segundo ele, a escola está preparando principalmente uma festa dos protótipos que acontecerá em breve. “Agora, os próximos passos da escola são dar sequência ao planejamento. Vamos realizar a Festa dos Pilotos, que será um grande evento, e vocês já estão convidados. Assim como estiveram conosco na Fábrica do Samba e puderam ver parte do trabalho, em setembro teremos essa grande apresentação. Vou até dar um spoiler: os pilotos já estão todos prontos. Estamos muito contentes com o resultado, muito felizes. O presidente aprovou todos os pilotos desenvolvidos pelos carnavalescos. Vamos fazer essa festa justamente para mostrar tudo ao público e para que vocês tenham a certeza de que aquilo que estamos cantando vai aparecer na avenida exatamente como foi imaginado, em fantasias e alegorias”.
Conduzir o crescimento
O carnavalesco Nicolas Gonçalves destacou a emoção de acompanhar o crescimento da Acadêmicos do Tucuruvi e a responsabilidade de conduzir a escola nesta ascensão. “É uma realização para a escola. Estou há três anos na Tucuruvi e, nesse período, vivemos três anos com grandes sambas. É uma alegria chegar ao terceiro ano e ver obras que já haviam participado de outras disputas continuarem conosco, além de uma nova parceria conquistar o campeonato. Isso mostra a força da safra de sambas da Tucuruvi. Quando uma parceria nova vence, também demonstra o quanto a escola está engajada em buscar sempre o melhor para a agremiação. Independentemente de qual samba fosse escolhido, o objetivo era fazer um grande Carnaval. E tenho certeza de que fizemos a escolha da melhor obra para o momento da escola”.

O artista falou sobre a energia da Tucuruvi, além de revelar que a escolha da obra foi pensada na proposta do carnaval que o ‘Zaca’ irá fazer. “A escolha do samba já foi pensada dentro da construção do desfile. Quando desenvolvemos a parte visual, ainda não tínhamos a ordem definida, mas, pelo fato de termos conquistado o acesso, já existia a expectativa de que poderíamos encerrar o Carnaval. Todo o projeto foi desenvolvido considerando essa possibilidade. E não apenas pela posição de desfile. Em 2024, com o enredo sobre ‘Ifá’, encerramos o desfile no Anhembi com a arquibancada cheia e uma energia muito forte. Acredito que com Ògbóni vamos manter essa vibração. O resultado de Ifá não foi o que esperávamos, mas tenho confiança de que Ògbóni pode nos levar a um resultado diferente”.
Surpresas na bateria para o desfile
O mestre Serginho revelou que a ideia da “Bateria do Zaca” é começar a trabalhar já a partir de segunda-feira. “A gente sempre espera o samba vencedor para começar a pensar. Na segunda-feira já começamos a definir como será o trabalho e, na quarta, nos reunimos para iniciar os arranjos. Agora não tem mais volta. Esse é o nosso método de trabalho. Preferimos esperar o fim da eliminatória para tratar todos os sambas da mesma forma, com o mesmo cuidado. Agora o samba da Tucuruvi está definido. A partir de segunda-feira começa o trabalho de verdade”.

Em 2024, a bateria de Serginho teve o seu melhor ano desde quando ele assumiu em 2020. Com um enredo afro, uma bossa longa feita com apagão e atabaques se notabilizou e foi reconhecida por todo o carnaval. O mestre revelou que em 2027 também terá surpresas. “Assim que terminou a disputa, antes mesmo de descer a escadaria, o pessoal já veio perguntando: ‘Vamos colocar aquelas paradas?’. E vamos, sim. A ideia é fazer algo bem diferente. Você se lembra que eu falei isso naquele ano, e o resultado foi diferente. Agora estou dizendo de novo: vamos preparar algo fora da caixinha. Ainda estamos definindo como será, mas uma coisa já está decidida: teremos três bossas. Uma será voltada ao enredo, outra à escola e a terceira vai explorar a afinação da bateria. Isso já estava definido, independentemente de qual samba fosse escolhido. Queremos fazer algo inédito, começando com uma introdução diferente de tudo o que já apresentamos. Agora é trabalhar com calma. Amanhã a rapaziada descansa e, na segunda-feira de manhã, o Hudson já vai querer saber por onde começamos. A ansiedade é grande, mas tenho certeza de que o resultado será muito bom”.
Projetando um grande desfile
Enaltecendo a força do samba-enredo, o intérprete Hudson Luiz projeta um desfile grandioso da Tucuruvi com a obra escolhida. “Graças a Deus, pudemos receber grandes obras durante todo o processo de escolha do samba-enredo. Foram quatro grandes sambas finalistas e, agora, começamos a trabalhar mais um grande samba. Posso dizer que sou um cara abençoado. Nessa sequência, de ‘Ifá’ até ‘Ogbodirin Ogboni’, tive a oportunidade de cantar quatro grandes sambas e, graças a Deus, todos me renderam premiações. Tenho certeza de que este também é um grande samba, que vai embalar a nossa escola com muita força rumo a mais um grande desfile”.

No carnaval paulistano, é sempre um desafio fechar um dia de carnaval, pois a noite é longa, e o intérprete recebe um desafio a mais. Porém, para o cantor, não é um problema. “Eu gosto de fechar o carnaval. Na verdade, no Rio de Janeiro existe essa cultura de encerrar os desfiles. Em São Paulo era um pouco diferente, mas acredito que isso vem mudando. Não sei se antes de ‘Ifá’, mas, a partir dali, percebi que muitas escolas passaram a querer fechar o Carnaval. Isso não me incomoda, pelo contrário. A Tucuruvi vive um momento de crescimento e, quando falo em crescimento, é mesmo considerando o rebaixamento. Nós entendemos os nossos erros, mas também sabemos que houve situações que não dependiam apenas de nós. De qualquer forma, seguimos evoluindo. Encerrar o carnaval é algo tranquilo para a gente, porque temos um grande samba, sabemos que vamos apresentar um grande desfile e temos certeza de que o Anhembi estará esperando a Tucuruvi para mais uma grande apresentação. Acho que fechar o carnaval será como encerrar a festa com chave de ouro, vendo a Tucuruvi naquele lindo amanhecer do Anhembi”.
Seguindo a linha de explicação do presidente e do diretor de carnaval, Hudson falou sobre a dinâmica de trabalhar a obra com a comunidade. “Esse samba vencedor tem uma característica interessante: ele possui menos palavras em iorubá do que os demais finalistas. Agora vamos fazer os ajustes necessários e, em seguida, iniciar um trabalho com a comunidade. Vamos realizar encontros para a leitura e a oralidade do samba, explicando o significado e a pronúncia correta das palavras em iorubá. A partir daí, vamos transmitir esse conhecimento aos componentes, aos segmentos e a todos os desfilantes. Fizemos esse trabalho em Ifá e deu muito certo. Repetimos em Asojaba e também tivemos um excelente resultado. Esse será o nosso próximo passo: finalizar o samba e levá-lo para a comunidade, para que todos tenham segurança ao cantá-lo”.









