
A enredista da Estação Primeira de Mangueira, Sthefanye Paz, conquistou o 1º lugar na modalidade Tese de Doutorado da 4ª edição do Prêmio Lélia Gonzalez, promovido pelo Comitê de Antropologia Negra Brasileira da Associação Brasileira de Antropologia (ABA). A premiação foi realizada no último dia 16 de julho, em Goiânia, durante a 35ª Reunião Brasileira de Antropologia. Criado para homenagear uma das maiores intelectuais negras do Brasil, o Prêmio Lélia Gonzalez reconhece pesquisas produzidas por estudantes negras e negros que contribuem para o fortalecimento da Antropologia brasileira, ampliando o debate sobre racismo, diversidade cultural, povos tradicionais e desigualdades sociais.
* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp
A tese vencedora, intitulada “Enredos, funções e trabalhos: produção carnavalesca e práticas religiosas no barracão da Mangueira”, foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGAS/MN/UFRJ), sob orientação da professora Adriana Facina Gurgel do Amaral e coorientação da professora Carly Barboza Machado.
Resultado de uma pesquisa etnográfica realizada entre os carnavais de 2019 e 2024, o estudo mergulha no cotidiano do barracão da Verde e Rosa para compreender as relações entre a produção carnavalesca, o trabalho coletivo e as religiões afro-brasileiras, especialmente o candomblé. A pesquisa evidencia como práticas de cuidado, formas de organização, hierarquias, rituais e saberes tradicionais atravessam o fazer carnavalesco e ajudam a construir a grandiosidade apresentada na Marquês de Sapucaí.
🔍 Adicione o CARNAVALESCO nas suas fontes favoritas do Google
Um dos principais diferenciais da pesquisa é compreender as religiões afro-brasileiras para além de sua representação estética nos desfiles. A tese demonstra como o candomblé também integra a organização das escolas de samba, influenciando relações de trabalho, processos criativos, formas de cuidado e decisões que fazem parte da construção de um desfile campeão.
Integrante da equipe de desenvolvimento de enredos da Mangueira, Sthefanye construiu sua pesquisa a partir da própria vivência na escola. Inicialmente como trabalhadora voluntária e, posteriormente, como pesquisadora de enredo, acompanhou de perto os processos criativos e a rotina dos profissionais responsáveis pela produção das alegorias, fantasias, adereços e do enredo da agremiação.
Emocionada com o reconhecimento, Sthefanye Paz ressalta que a conquista também pertence às pessoas que compartilharam seus saberes ao longo da pesquisa.
“Receber o Prêmio Lélia Gonzalez é uma alegria imensa e um reconhecimento que ultrapassa a minha trajetória acadêmica. Essa pesquisa só foi possível porque nasceu da confiança, da convivência e dos aprendizados compartilhados dentro da Mangueira. O barracão é um espaço de trabalho, criação, memória, fé e produção de conhecimento. Espero que esse reconhecimento contribua para ampliar o olhar sobre as escolas de samba como instituições negras que produzem cultura, ciência e resistência todos os dias.”, afirma a enredista.
Mais do que reconhecer uma pesquisa acadêmica, o prêmio evidencia a importância das escolas de samba como instituições que produzem conhecimento a partir de seus territórios, de suas práticas e de seus saberes. Ao colocar o barracão da Mangueira no centro da investigação antropológica, a tese amplia a compreensão sobre o carnaval brasileiro e fortalece o reconhecimento das agremiações como patrimônios vivos da cultura, da memória e da resistência negra. A conquista de Sthefanye Paz reafirma esse legado e projeta a Mangueira, mais uma vez, como referência dentro e fora da avenida.




