Fotos: Mariana Santos/CARNAVALESCO

De peruca vitoriana, vestidos exuberantes e pele negra reluzente, Xica pinta na tela. ‘Xica’, com X. Ali, pelo corpo de Zezé Motta e direção de Cacá Diegues, nasce a personagem emblemática, protagonista do filme homônimo que volta às telas dos cinemas brasileiros a partir de quinta-feira. O retorno foi marcado pela pré-estreia, com apresentação da bateria do Salgueiro e debate com Debora Butruce, Renata Almeida Magalhães e Luciano Vidigal, no Rio de Janeiro. O evento ocorreu em celebração aos 50 anos da obra e à releitura do emblemático desfile pelo Salgueiro em 2027, com o enredo “Laroyê, Xica da Silva: a história por trás da história”, firmando a relação histórica entre ambos.

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“Filme-escola de samba”. Era assim que Carlos Diegues se referia a Xica da Silva, de 1976. A obra foi inspirada pelo desfile emblemático do Salgueiro de 1963, concebido por Arlindo Rodrigues, que traz uma leitura inovadora da figura histórica Francisca da Silva de Oliveira. A primeira ‘Chica’, incorporada por Isabel Valença, foi responsável por popularizar e fundamentar o imaginário sobre a figura complexa de ‘Chica’ – negra, ex-escravizada, que enriqueceu por meio de sua união com o contratador José Fernandes de Oliveira, no Arraial do Tijuco, em Minas Gerais, no século XVIII.

Além da personagem-chave, o desfile foi o primeiro campeonato solo da história da escola e caracteriza o auge da Revolução Salgueirense, movimento de inovação estética e narrativa liderado por Pamplona, que destacou personagens negros e marginalizados sob um viés vitorioso, olhar discrepante do contexto racial do Brasil naquele momento. O impacto foi tamanho que Cacá nunca esqueceu o que foi apresentado na Avenida Presidente Vargas naquele domingo de carnaval.

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Assim, o diretor transformou o deslumbre pela festa em filme, 13 anos depois. O resultado é o clássico, considerado um dos filmes mais importantes do cinema brasileiro: uma obra que traz desbunde e liberdade visual, figurinos com riqueza de tecidos, texturas e estampas que fazem jus ao período colonial da trama e à exuberância dos corpos, assim como um desfile de escola de samba.

No entanto, as escolhas estéticas contrariavam o momento vivido pelo cinema brasileiro. Em plena Ditadura Militar, cineastas ligados ao Cinema Novo, como Cacá Diegues, renegavam os moldes “hollywoodianos” e prezavam uma linguagem cinematográfica mais “crua”, voltada ao realismo, à crítica social e à contenção visual. Cacá Diegues “rompe” com o esperado pelo movimento do qual era fundador e leva para as telas o oposto do dominante. Xica da Silva aposta no excesso e no humor para contar uma história que se desenrola no período da escravidão, fato que foi questionado pelos movimentos sociais. Para Debora Butruce, preservadora audiovisual responsável pela remasterização da obra para o digital, “o riso é uma ferramenta anárquica e revolucionária” na narrativa.

Esse formato molda também a personagem. Xica, uma mulher escravizada que usa o corpo como arma para conseguir o que quer, gargalha, debocha e convida o público a rir junto de suas travessuras. O olhar utilizado na narrativa gerou questionamentos da esquerda e do movimento negro pela forma como a personagem foi retratada, o que Cacá chamou de ‘patrulhas ideológicas’.

A produtora e parceira de Cacá Diegues, Renata Magalhães, oferece outra perspectiva: para ela, Xica da Silva foi de suma importância para o cinema brasileiro, em um momento em que a participação negra era ínfima. O filme abre espaço para um protagonismo negro raramente visto na época, desde as escolhas artísticas e visuais, como cores e maquiagem que valorizam a pele negra. O cuidado também está presente na direção de fotografia, assinada por José Medeiros, que tinha uma relação próxima com a comunidade negra. É um dos trunfos visuais do filme, preservados na restauração conduzida por Debora Butruce.

Em resposta aos questionamentos sobre o viés de Diegues, a resposta é simples: o diretor lutou para que o filme fosse às telas após ouvir de Luiz Severiano Ribeiro, fundador do grupo homônimo de exibidoras cinematográficas, que “filme com ‘preto’ não dá dinheiro”. E, assim, o filme se consagrou na cultura popular, levando mais de três milhões de espectadores às salas de cinema Brasil afora, na época.

Não é à toa que todos se encantaram pela ‘Xica’ de Zezé. Na tela, a atriz constrói uma corporeidade altiva e ousada, que o cineasta e afilhado artístico de Cacá Diegues, Luciano Vidigal, aproxima da força dos orixás e vê sua relação com o atual enredo do Salgueiro, ‘Laroyê, Xica da Silva’.

“Na própria Xica da Silva, a Zezé, em seu corpo e em seu olhar, remete aos orixás de maneira muito natural. Acho lindo esse encontro. Acho lindo o Salgueiro revisitar esse lugar, porque é necessário repetir essas narrativas, não apenas no Carnaval, mas também no cinema, para que continuem chegando ao imaginário das pessoas. Precisamos normalizar cada vez mais a figura dos orixás, e a arte tem que ser aliada a isso”, defendeu Luciano.

Renata reconhece que até mesmo a corporeidade que Zezé dá vida à personagem, sob direção de Cacá, tem como referência o Carnaval.

“Totalmente. Foi algo buscado desde o início. Quando o Cacá chama o Zé Medeiros para traduzir esse Carnaval na tela, ele tem consciência da potência daquele corpo negro. A Zezé já era atriz, e há referências à música do Jorge Ben e à coreografia que ela faz com o personagem de José Wilker, que continuam modernas até hoje. Colocar isso em um filme de época foi uma escolha consciente. O talento da Zezé é extraordinário, e o trabalho de maquiagem do Carlinhos Preto é uma obra-prima”, afirmou Renata.

A permanência de Xica da Silva no imaginário brasileiro também passa pela capacidade de renovar suas leituras. Se, em 1976, a personagem rompeu padrões de representação da mulher negra no cinema, em 2027 ela retorna à Sapucaí sob novas perspectivas. O enredo coloca a personagem como uma ‘pomba-gira’, mas também propõe desvendar a mulher por trás do mito a partir de novos achados históricos, como o testamento divulgado em 2025.

“Acho que precisamos urgentemente normalizar os orixás, assim como normalizamos muitos santos, principalmente os católicos. O Carnaval faz isso de forma muito necessária, e o cinema precisa ser aliado desse movimento. Quando você une cinema e Carnaval para trazer essa figura brasileira e coloca os orixás de forma natural dentro da dramaturgia, isso é urgente e necessário”, declarou Luciano.