
O enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel marca o retorno de Jack Vasconcelos à escola após seis anos, quando se despediu com impacto: ‘Elza Deusa Soares’ rendeu a melhor colocação da Mocidade no carnaval desde então, conquistando o terceiro lugar. Em 2027, a Estrela Guia de Padre Miguel apostará na identidade latina e no pensamento descolonizador com o enredo-manifesto “Latinamente Independente – ‘Nosso Norte é o Sul’ em Remanifesto”. Longe de Padre Miguel, o artista aprofundou uma marca que já carregava na carreira: transformar temas políticos e sociais em potentes narrativas carnavalescas. Passou pela Unidos da Tijuca (2022-2023) e pelo Tuiuti, onde permaneceu por três carnavais. Lá, resgatou a história escondida de João Cândido com ‘Glória ao Almirante Negro’, amplificou a luta LGBT+ com ‘Quem Tem Medo de Xica Manicongo?’ e desvendou o culto Ifá cubano com ‘Lonã Ifá Lucumi’.
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Agora, propõe a retomada do poder da América Latina por meio de uma visão carnavalizada. A ideia parte da obra América Invertida (1943), do artista uruguaio Joaquín Torres García, que também inspira a identidade visual do enredo. Ao inverter o mapa do continente, García desafia a ideia de que o Norte deve ser a referência do mundo e propõe um novo olhar sobre a América Latina, baseado na autonomia cultural e na valorização de sua própria identidade. Há quem considere o tema complexo ou até mesmo impopular. Jack discorda. Para ele, basta ligar a televisão para perceber que o debate proposto pela escola já faz parte da rotina dos brasileiros.
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“O enredo da Mocidade traz uma questão que as pessoas assistem diariamente no jornal. Nem preciso explicar muito, porque as notícias do dia a dia já explicam o enredo: a necessidade de falar da latinidade, da nossa importância, do processo que nos achatou econômica, cultural e socialmente. Há vários artistas na América Latina e no mundo falando sobre isso. Estamos vivendo um processo de transição de poder. A princípio, pode parecer um enredo não tão popular, mas acho que as pessoas o entendem logo de cara porque o sentem na pele diariamente”, refletiu.
O desfile chega à Sapucaí em um momento em que as relações entre os Estados Unidos e a América Latina voltam a ganhar força no debate público, colocando em questão políticas imperialistas e a hostilidade em relação à cultura latina. Para o carnavalesco, essa conjuntura reforça a atualidade do enredo, que promete “pôr o dedo na ferida”.
“O enredo toca na vida das pessoas. Toca na história de vida delas, no que nossos pais, avós e antepassados viveram. Nossa construção social e econômica passa por essas experiências de imperialismo e de achatamento. Então, dizer às pessoas que elas têm valor, que não precisam acreditar em tudo o que uma grande mídia quer que elas acreditem, que não precisam abrir mão dos saberes dos avós, das mães e pais de santo, dos babalorixás, dos mais antigos. Não precisamos abrir mão de quem somos. Não somos cafonas, como querem dizer. Somos coloridos, felizes, temos clima, natureza e referências que nos dão essa cor e essa alegria. Não precisamos ter vergonha disso”, afirmou.
É natural da grande festa do Carnaval o constante diálogo com questões políticas e sociais de sua época. Durante a Ditadura Militar (1964-1985), algumas escolas de samba embarcaram em enredos ufanistas ou que exaltavam o considerado “progresso” do país na época, conforme incentivava o regime. As que fugiam à “regra” chegaram até mesmo a sofrer censura em sambas e alegorias. Para Jack, as escolas de samba não apenas refletem o seu tempo, como também o questionam.
“As escolas de samba sempre refletem o seu tempo. É natural que tenhamos passado por um período de valorização do olhar de outras culturas sobre nós. Em alguns momentos históricos, a própria escola de samba foi usada como ferramenta dessa propaganda, pela potência que ela tem. Hoje podemos usar essa mesma potência para dizer às pessoas que a história não é bem assim, que elas podem pensar de outra forma e olhar as coisas por outro ângulo. É muito bom aproveitar esse momento em que o mundo está questionando a cultura, a economia, as finanças e o mercado para fazer um enredo que incentive as pessoas a valorizarem a própria cultura e a própria história. Essa é uma oportunidade de ouro que a Mocidade está tendo”, explicou.
Samba-enredo campeão
Não é segredo que uma grande sinopse de um bom enredo rende um bom samba. E pode-se dizer que os enredos assinados por Jack Vasconcelos foram muito bem embalados por canções potentes, como os hits ‘Lonã Ifá Lucumi’ (2026), de Claudio Russo, Gusttavo Clarão e Luiz Antônio Simas; e ‘Meu Deus, Meu Deus… Está Extinta a Escravidão?’ (2018), de Cláudio Russo, Moacyr Luz, Dona Zezé, Jurandir e Aníbal, que se tornaram clássicos para além da Sapucaí. Na própria Mocidade, ‘Elza Deusa Soares’ faz a comunidade de Padre Miguel ferver, seja na quadra ou no esquenta na Avenida. O talento dos compositores consegue desenvolver temas mais complexos como em um passe de mágica, e, para 2027, não será diferente.
“O compositor é um ser de outro planeta. Ele tem uma capacidade enorme de síntese e conhece os caminhos do nosso coração e da nossa mente. Sabe nos atingir de uma forma muito clara. Estou muito feliz porque a ala de compositores da Mocidade entendeu muito bem o que estamos propondo. Já estamos no processo de tirar dúvidas e tive acesso a alguns sambas. Fiquei muito feliz com a forma como as pessoas receberam a proposta. Foi quase uma sensação de libertação, porque ela toca em coisas que elas realmente viveram. Acho que a Mocidade virá com um grande samba. Vamos até ter dificuldade para escolher o melhor”, destacou.
A ideia para o próximo carnaval é dar continuidade ao caminho que Jack Vasconcelos vem consolidando: colocar na Avenida um tema político e pertinente por meio de um enredo bem desenvolvido, com um bom samba cantado com garra pelos torcedores e apaixonados pela folia. E, para ele, o que torna um samba “campeão” para contar um grande enredo é a sua autenticidade. O carnavalesco garante que é assim que o cenário está se desenhando para a Mocidade em 2027.
“Ele [o samba] precisa ser verdadeiro. Não pode recorrer a subterfúgios para agradar. É claro que determinados discursos agradam determinados grupos, mas o compositor precisa acreditar no que está escrevendo, porque a resposta vem. Quem fizer um samba de dentro para fora vai criar uma grande obra. E eles estão fazendo isso. A Mocidade virá com um samba maravilhoso, tenho certeza”, concluiu.









