
Há legados que só o tempo é capaz de assentar. Foi o que aconteceu com Elmo José dos Santos ao olhar para a atual diretoria da Liesa e ver, na nova geração de dirigentes, os mesmos meninos que ele viu nascer. Eterno “Rato do Tamborim” e ex-presidente campeão pela Mangueira, ele vive hoje um momento de colheita. Já consagrado com o título de baluarte de sua escola do coração, o diretor projeta o cobiçado centenário Verde e Rosa e celebra 25 anos como diretor de carnaval da Liga exercendo um papel que vai muito além da logística e da técnica: o de griô, “tio” carinhoso e grande pacificador dos bastidores. Depois de desbravar a lama para ajudar a erguer o asfalto da Cidade do Samba, ele acompanha, com orgulho e lágrimas nos olhos, a modernização do espetáculo comandada pela juventude. Nesta edição do “Entrevistão”, Elmo fala sobre tudo isso: a emoção do reconhecimento, o fim das antigas rivalidades de barracão e o que significa, ainda hoje, cuidar da floresta inteira para manter o quilombo do samba de pé.
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Como foi ser presidente da Estação Primeira de Mangueira?
Elmo José dos Santos: Foi uma das maiores honras da minha vida. Nasci e fui criado no morro de Mangueira, no tempo de parteira. Meu pai, mestre Tinguinha, foi fundador da bateria, e meu tio, Chico Porrão, o primeiro ensaiador da escola. Fui ritmista, diretor de harmonia, diretor de relações públicas, diretor social, passista… Mas você nunca imagina que um dia vai ser presidente. Em 1994, a Mangueira estava em 11º lugar, a um ponto do rebaixamento, sem mesa, sem cadeira e com 500 mil dólares de dívida. Quando a comunidade me escolheu, recusei de início, meu pai tinha medo porque já tinham assassinado dois presidentes. Mas, quando vi, já estava sendo carregado nos ombros. Arregaçamos as mangas, fomos atrás das autoridades mangueirenses junto com Alcione, Jamelão, Dona Neuma e Dona Zica e deu certo: em 1995 fomos para o quarto lugar. No ano seguinte, terceiro. E em 1998 fomos campeões com ‘Chico Buarque de Mangueira’.
Também ampliamos nossos trabalhos sociais, que chegaram a ser reconhecidos internacionalmente, recebendo até a visita do [ex-presidente dos EUA] Bill Clinton, que disse que a Mangueira tinha um dos melhores trabalhos sociais dos países em desenvolvimento. Fiz da Mangueira um grande exército que andou ombro a ombro até ser campeã novamente. A Mangueira é, acima de tudo, uma entidade viva espiritualmente. Quando assumi, mestres como Jamelão, Carlos Cachaça, Nelson Sargento, Xangô, Dona Neuma, Dona Zica me colocaram no meio de uma roda. E o Nelson Sargento me disse:
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‘A Mangueira é uma árvore frondosa. Ela tem raiz, tem tronco, tem galho e dá frutos saborosos. Nunca se esqueça: você, como presidente, é apenas um galho. E por mais que os galhos cresçam, o tronco sempre será maior. E quem sustenta o tronco são as raízes’. Comecei a chorar tanto que minha tia rezadeira teve que me tirar da roda. Hoje fazemos o maior espetáculo da Terra, mas muita gente morreu, apanhou da polícia e defendeu o nosso quilombo para chegarmos até aqui. Salve a Mangueira!
O enredo do Chico Buarque foi fruto das andanças que vocês fizeram atrás dos mangueirenses ilustres?
Elmo José dos Santos: Exatamente. Descobrimos que o Chico era mangueirense; a Portela até tentou fazer um enredo sobre ele antes, mas ele não aceitou. O Chico é boníssimo, um gênio, mas muito tímido. Quando ele disse que queria ir ao morro, avisei a imprensa toda. Foi uma loucura! À noite, meu telefone tocou. Era o Chico: ‘Presidente, queria pedir uma coisa. Quando eu for de novo, não chame a imprensa. Quero ir lá no alto, no Pindura Saia, tomar uma cachaça e curtir com a minha Velha Guarda’. Levei ele sem ninguém saber.

Até hoje o Chico faz o show de verão da Mangueira. Ele nunca abandonou a escola, mas tem uma coisa: depois que fomos campeões com ele, a escola foi homenagear a Maria Bethânia e o convidamos para desfilar. Sabe o que ele respondeu? ‘Vou colocar meu título em jogo?’ (Risos). Nunca mais desfilou! Mas sempre ia à quadra de surpresa, cantava, e o povo ficava feliz. Não foi amor de ocasião, ele levou a Mangueira para o coração.
Qual seu desfile inesquecível e por quê?
Elmo José dos Santos: A inauguração do Sambódromo, em 1984. Eu tocava caixa na bateria, e a Mangueira foi supercampeã com o povo indo e voltando atrás, consagrada. Mas é difícil escolher um só. O desfile inesquecível é aquele em que a escola canta com amor, em que a comunidade sua a camisa sambando e sonha junto. Em 1998, colocamos um piano no carro de som. O Chico, muito tímido, subiu antes de soar a sirene, e só disse: ‘Vai passar nessa avenida um samba popular’. A arquibancada veio abaixo! Ganhei e perdi, mas nunca deixei de defender a bandeira Verde e Rosa conforme os mestres me ensinaram. Aprendi que família é aquela que está junto no tempo de som, mas principalmente no tempo de trovão.
Você imaginava que estaria há 25 anos na Liesa?
Elmo José dos Santos: Nunca contei o tempo. Aprendi com mestres como Capitão Guimarães, Anísio Abraão David, Carlinhos Maracanã e Luiz Pacheco Drummond que, na Liga, você tem que ser ‘tratador de floresta’, não de uma árvore só. O samba teve que provar o tempo todo que veio do povo. Somos guerreiros de um quilombo. Quando nos atacam, defendemos. Quando recuam, choramos nossos mortos ao redor da fogueira, mas festejamos o nascimento dos nossos curumins, as crianças das escolas mirins. Não fui escolhido para cuidar de uma árvore, mas da floresta inteira. Procurei fazer isso com muito amor, carinho e respeito por todas as escolas de samba. Por isso cheguei a esses 25 anos.
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Como você se sente quando é chamado de Griô do carnaval?
Elmo José dos Santos: Minha responsabilidade cresce muito. Faço a lavagem das Sapucaí há 16 anos com minhas tias rezadeiras. Usamos água de um poço em Itaboraí, do tempo da escravidão, com mais de 100 anos. E assumo esta responsabilidade: assentamos aqui o nosso santo, Oxóssi, o rei dos caboclos e da fartura. Sou eu quem coloca as flores e a bebida dele, que é o padroeiro da Cidade do Samba, do Rio de Janeiro e de várias escolas, e tomo conta do povo de rua porque o carnaval também é deles.
Fico até com receio quando as pessoas me chamam de griô, mas quando vejo as pessoas passando por momentos difíceis, sem emprego, eu sento e rezo por ela. Só estou dando continuidade ao trabalho dos mestres do passado e das tias rezadeiras. Faço a minha parte com muito amor no coração. Não importa a escola, sempre terá o meu afago, sempre terá a minha reza. Porque um griô de verdade reza sem pedir licença.
Você é o criador dos ensaios técnicos. Considera que é o grande momento do carnaval, fora dos desfiles oficiais? Como foi esse início até hoje?
Elmo José dos Santos: Os ensaios técnicos nasceram de uma necessidade de quando eu era presidente da Mangueira. A quadra estava tão largada, as pessoas eram assaltadas no banheiro, a bateria descia com 40 componentes por medo. Sugeri aos patronos da Liesa: ‘Quero fazer um batuque no Setor 1 da Sapucaí para motivar o pessoal’. Disseram que a luz era cara, e disse que podiam deixar a luz de vigia. Conseguimos ônibus para levar a comunidade e torcida, depois convidei a Tradição e a Beija-Flor, e lotamos a arquibancada. Aquilo virou notícia!
Até que o Capitão Guimarães me chamou no escritório dele para estruturar os ensaios técnicos, com a ajuda do seu Anísio e do pessoal da TV Globo. Passamos a levar artistas como Arlindo Cruz e Alcione para cantar no fim. Aquilo passou a ser, como o Capitão dizia, um ‘amortecedor social’. Existem duas coisas de graça no Rio de Janeiro: praia e ensaio técnico. É algo feito pelo povo e para o povo. É a chance de quem não pode pagar uma arquibancada cantar o seu samba-enredo. Tem gente que gosta mais do ensaio técnico do que do próprio desfile. Costumo dizer que o ensaio técnico é o grande ‘grito’ do nosso carnaval.
Você conviveu com a antiga e a nova geração. Como você analisa esse momento de hoje?
Elmo José dos Santos: Os antigos abriram a estrada, e o carnaval até hoje segue na linha que eles construíram. A juventude chega com a tecnologia, com a comunicação, e leva o espetáculo ainda mais longe. Acho que o segredo é marchar junto, os antigos e os jovens, porque não existe futuro se você não respeitar o passado. A fórmula é essa: andar junto, um ajudando o outro, defendendo o nosso quilombo. Os mais velhos têm a sabedoria, os mais jovens têm a força. É juntar a fome com a vontade de comer. Eu trabalho para isso: não dá para pensar no carnaval sem falar dos ancestrais, sem pensar nos fundadores da Liga. Se hoje o asfalto está liso, alguém pisou na lama primeiro para construí-lo. Eu sou esse cara que está no meio-termo, sempre pedindo bênção aos mestres e dando a bênção aos mais novos.
Mexeu contigo ver a homenagem do Gabriel David no dia do seu aniversário?
Elmo José dos Santos: Muito. Foi um carnaval muito difícil, com muitas mudanças e 15 dias seguidos de chuva. Quando cheguei na sala de apuração para fechar os envelopes, encontrei toda a diretoria, Gabriel, Pedro Gomes, Julinho Guimarães, João Drummond, Thiago Faria, em pé, me aplaudindo. Comecei a chorar. Eu os vi nascer; eram meninos quando construímos a Cidade do Samba. Pensei: ‘Deus! A juventude está reconhecendo a minha importância nesse contexto’. No meu aniversário, o Gabriel publicou o vídeo desse abraço. Quando minha esposa me mostrou o vídeo, eu chorei outra vez. A vida é feita de amor e troca de energia.
O que sentirá no centenário da Mangueira em 2028?
Elmo José dos Santos: Serei baluarte da Mangueira no centenário! Quando eu era presidente, criei o ‘Quadro dos Baluartes’ para homenagear quem tinha 50 anos de serviços prestados à escola. Fui eu quem deu o título de presidente de honra à Carlos Cachaça. E fico pensando: estarei com a minha faixa de baluarte, passando na avenida, festejando os 100 anos dessa escola tão querida, onde nasci, me criei, caí na vala, bebi água do bicão e fui rezado por muitas tias. Não sei o que mais poderia pedir à vida. Há mais de oito anos eu não desfilo por causa do cargo, mas, nesse dia, vou pedir licença poética na Liga para desfilar. É a homenagem que quero fazer aos 100 anos da minha paixão verdadeira.
Estamos aqui na Cidade do Samba. Você acompanhou o antes e o depois do carnaval com esse espaço. Qual o seu balanço desses quase 20 anos?
Elmo José dos Santos: É um divisor de águas. Antes, as escolas montavam os carros debaixo do viaduto, em barracões que eram invadidos… Quando chovia, o esgoto subia; quando fazia sol e vento, a poeira sujava toda a decoração. Às vezes, faltando 15 dias para o carnaval, tudo era feito ‘no gato’. Pegava fogo, tinha acidente, não tinha pé-direito para as alegorias… era uma desorganização total.

Quando o Capitão Guimarães e o (então prefeito) César Maia idealizaram a Cidade do Samba, eu e o Jorge Castanheira ficamos responsáveis por avaliar o terreno e levar as informações à prefeitura. Tudo foi muito pensado e estudado. O Carnaval deu um salto que ninguém esperava. A Sapucaí tem 13 metros de largura e tem escola que chega com carros de 12 metros de largura, saindo daqui com 25, 28 carretas. A logística aumentou de uma maneira inimaginável, e o resultado são esses desfiles históricos que, às vezes, se decidem por um décimo. Definitivamente, existe o carnaval antes da Cidade do Samba, e o grande carnaval depois dela.
Sempre ouvimos que a saída das alegorias é um momento tenso. Como você controla o emocional nessa hora?
Elmo José dos Santos: No começo, sentia aquele frio na barriga, mas acredito que, a quem trabalha, Deus ajuda. Hoje fazemos tudo com planejamento com mapa: definimos a hora exata em que cada escola vai tirar o carro do barracão e as carretas vão entrar na Cidade do Samba. Os presidentes das agremiações contam com profissionais de alto nível, e meu trabalho não seria nada sem essa parceria. Costumo dizer para os meus diretores de carnaval, diretores de barracão e diretores de harmonia que eu tenho o maior esquadrão do carnaval. Temos um grupo chamado ‘Juntos somos mais fortes’. Quando cheguei aqui, era cada um por si; tinha ciúme, tinha briga. Acabei com isso. Hoje, se uma escola precisa de um equipamento emprestado para tirar um carro, avisa no grupo e todo mundo ajuda. Voltamos a ser o que os mestres sempre quiseram: uma grande família.
Qual a sua expectativa para a nova Cidade do Samba anunciada pela Prefeitura?
Elmo José dos Santos: Gostaria de ver o projeto. Hoje já sabemos onde estão as nossas ‘dores’ e nós sabemos que a nossa farmácia é o poder público. A infraestrutura da atual Cidade do Samba precisa aumentar para acompanhar a grandeza que as escolas colocam na avenida, e isso exige um novo projeto discutido com presidentes, carnavalescos e profissionais do setor. O carnaval cresceu demais e estamos sentindo a dor da falta de espaço.
Sempre digo que o carnaval é muito diferente do futebol. Se você vai a um estádio com a camisa do rival, leva um ‘saravá’. Na escola de samba, é co-irmã. Quando um mestre de bateria visita outra agremiação, recebe tapete vermelho e é convidado até para reger os ritmistas por um momento. É um ambiente de profundo respeito, não tem gente rasgando a bandeira do outro.
Gostaria que a Prefeitura, o Estado e o Governo Federal reconhecessem isso e valorizassem o trabalho social que as escolas desenvolvem; muitas vezes chegando onde a mão do poder público não alcança. Não se trata de pedir um favor, pelo contrário. Nossas agremiações mirins formam novos ‘guerreiros’ para o nosso quilombo, e exigem que a criança estude para desfilar. Em posições de responsabilidade, como Mestre-sala e Porta-bandeira tem que estudar e passar de ano. Apoiar essa nova estrutura é estar ombro a ombro com a gente, garantindo cada vez mais dignidade ao povo do samba.
Para encerrar, qual sonho você já realizou no carnaval? E o que ainda sonha?
Elmo José dos Santos: O sonho que já realizei foi ajudar a fazer o Quilombo do Samba estar fechado em copas. Também sonhava em ver o povo do samba na Marquês de Sapucaí, tomando sua ‘água de São Jorge’ no ensaio técnico sem pagar nada; e isso se realizou. Outro grande sonho foi ver cada agremiação com seu pequeno exército, que são as escolas mirins, preparando novos guerreiros para defender o nosso Quilombo do Samba.
Para o futuro, meu grande desejo é que a juventude multiplique cada vez mais esse amor pelo samba. Sonho com a criação de uma faculdade dentro da Cidade do Samba para formar novos profissionais para o carnaval. Hoje, os ferreiros e os arameiros, por exemplo, estão desaparecendo; há pouquíssimas pessoas fazendo esse trabalho, e eu queria muito ver isso mudar.
Também sonho com um Museu do Carnaval bem tecnológico, onde as pessoas possam mergulhar de verdade na obra de grandes gênios como Joãosinho Trinta. E, acima de tudo, o meu maior sonho é ver sempre, com a bênção de Deus e muita fé, os mestres do passado e os jovens de hoje caminhando de mãos dadas.









