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Fotos: Gustavo Lima/CARNAVALESCO

Este último sábado foi marcado por mais um dia de CONASAMBA, realizado pela primeira vez na cidade de São Paulo, na Fábrica do Samba. Mais uma vez, a organização da FENASAMBA promoveu debates e momentos de imersão voltados à troca de conhecimentos entre as diferentes praças carnavalescas. Desta vez, o CARNAVALESCO acompanhou de perto o Encontro Nacional dos Diretores e Diretoras de Harmonia. Mediado por Demis Roberto, o painel reuniu especialistas que compartilharam suas visões sobre a função, sobretudo os desafios de liderar uma equipe de harmonia e de lidar da maneira adequada com os componentes.

História de um diretor de harmonia

Lenda viva do carnaval paulistano e uma das maiores referências do quesito, Raimundo Mercadoria relembrou as dificuldades enfrentadas por quem desejava chegar ao cargo de diretor de harmonia.

“Para ser diretor de harmonia naqueles anos (e muitos aqui acompanharam esse período da história do Carnaval e das escolas de samba), era uma função muito ingrata. Pelo menos aqui em São Paulo, o diretor de harmonia precisava exercer várias funções. Primeiro, tinha que saber tocar todos os instrumentos da bateria. Também precisava saber cantar e, popularmente falando, ‘dar no pé’. Ou seja, todas as funções existentes em uma escola de samba. Na nossa época, ninguém se tornava diretor de harmonia de um dia para o outro, como acontece hoje. No mínimo, para chegar a esse cargo, era preciso começar lá embaixo e passar por todos os setores da escola. Você era ajudante de chefe de ala, depois chefe de ala; auxiliava a bateria, carregava instrumentos e ajudava a prepará-los. Naquele tempo, nem existiam as baquetas industrializadas. Nós mesmos as fabricávamos, utilizando bambu e madeira. Portanto, o diretor de harmonia precisava conhecer e vivenciar todas as funções da escola de samba. Era uma formação construída na prática, ao longo dos anos”, comentou.

Técnica para formar uma equipe de harmonia

Ao entrar em aspectos mais técnicos da função, Carlos Pires, popularmente conhecido como Carlão, explicou a importância de o diretor de harmonia conhecer profundamente os demais setores da escola e destacou como ocorre o processo de formação de novos integrantes da área.

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“É importante tomar conhecimento do que aconteceu no passado para saber o que deve ser preservado e levado adiante. Essa é a primeira questão. A segunda é entender quem está transmitindo esse conhecimento e como ocorre esse processo de formação. É preciso explicar como funciona o trabalho dentro da escola, desde a construção do desfile até os quesitos de julgamento. O diretor de harmonia precisa conhecer tudo isso. Como você vai conversar com o mestre de bateria sobre algum problema técnico se não entende minimamente do assunto? A primeira reação será ele questionar sua autoridade para falar sobre aquilo. Formar um diretor de harmonia é um processo. Muitas vezes, as pessoas não querem passar por todas as etapas necessárias. Existe a questão da disciplina, da liderança e da capacidade de comandar uma equipe. O diretor de harmonia lidera um grupo, orienta pessoas e dá direcionamento ao trabalho.”

Carlão também comentou como avalia sua equipe. Segundo ele, a forma de comunicação e as aptidões individuais são determinantes para definir as funções de cada integrante.

“Particularmente, nos cursos de formação que realizo, promovemos encontros frequentes para discutir todos esses temas. Também ouvimos novas ideias e trazemos profissionais experientes, inclusive de outras escolas, para compartilhar conhecimento. Sempre enxerguei isso como uma troca. O principal é que a pessoa tenha interesse, amor pela escola e vontade de aprender. Com o tempo, ela se desenvolve e demonstra seu potencial. Também procuro identificar as habilidades de cada integrante da equipe. Alguns têm facilidade para se comunicar com a comunidade; outros entendem mais de barracão, fantasia ou organização. Ninguém domina tudo. Por isso, distribuímos responsabilidades de acordo com as competências de cada um. Quando você forma um grupo com diferentes qualidades, consegue atender a todas as áreas da escola. Afinal, ninguém consegue estar em todos os lugares ao mesmo tempo”, afirmou.

Empatia pelo componente

Diretor de harmonia da Dragões da Real, Rogério Félix abordou o lado humano da função e ressaltou que a missão da harmonia é servir à comunidade e proporcionar as melhores condições para que o componente tenha um bom desempenho no desfile.

“Para mim, a harmonia é a arte de servir. Se você não está disposto a servir ao próximo, esse não é o seu departamento. Servimos nossa comunidade durante o ano inteiro para que ela nos represente em um único dia: o desfile. Não há como cobrar das pessoas algo que você mesmo não faz. Harmonia é liderança, não chefia. A liderança se constrói pelo exemplo. Não adianta falar e não fazer. As pessoas se espelham nas suas atitudes. Se você limpa o chão da quadra, independentemente do cargo que ocupa, mostra que é apenas mais um trabalhador daquela comunidade. Eu uso o mesmo uniforme da minha equipe porque não sou maior do que ninguém. Somos todos iguais no dia a dia e no trabalho”, afirmou.

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Ainda dentro desse aspecto, Félix destacou que os diretores de harmonia da nova geração precisam buscar conhecimento sobre liderança, empatia e comportamento humano, especialmente diante do aumento das demandas relacionadas à saúde mental.

“Quando me perguntam como escolho um diretor de harmonia ou um integrante da equipe, a resposta é simples: pela paixão. Se a pessoa é apaixonada pela escola, ela pode aprender o restante. Eu não meço o tamanho de uma escola de samba pelos seus recursos, mas pela quantidade de pessoas apaixonadas que ela possui. São essas pessoas que fazem carros alegóricos, costuram fantasias, reaproveitam materiais e transformam sonhos em realidade. Além disso, o diretor de harmonia da nova geração precisa estudar liderança, perfil comportamental e empatia. Cada vez mais convivemos com pessoas que enfrentam dificuldades emocionais e desafios de saúde mental. É preciso compreender o componente, ouvir suas necessidades e saber acolhê-lo”, declarou.

Importância de conhecer o quesito e da uniformização adequada

Representante do carnaval capixaba, Wesley Dedanai enfatizou a necessidade de diferenciar os quesitos Harmonia e Evolução, que ainda são frequentemente confundidos dentro das escolas de samba. Ele também detalhou o papel desempenhado pelas equipes ao longo da preparação para o desfile.

“Temos tomado bastante cuidado para deixar claro que harmonia e evolução são quesitos diferentes. Muitas pessoas ainda confundem os dois. A harmonia está diretamente ligada ao canto da escola. Harmonia e evolução são responsáveis pela condução dos ensaios de quadra, dos ensaios técnicos e de todo o processo de preparação para o desfile. Também procuramos superar uma visão antiga do diretor de harmonia como alguém de postura fechada ou autoritária. Liderança não tem relação com arrogância. Trabalhamos com pessoas que frequentam a quadra por amor à escola. Muitas vezes, elas vão ao ensaio apenas para receber um aperto de mão ou um abraço e sentir que fazem parte daquele projeto”, disse.

Dedanai também ressaltou a importância da uniformização das equipes, tanto pela organização quanto pela identificação visual da liderança dentro da escola.

“A uniformização também é importante. O diretor de harmonia é uma referência visual dentro da escola. Quando alguém precisa de orientação, sabe exatamente a quem recorrer. Além disso, o diretor representa o pavilhão, que é o maior símbolo da escola de samba. Costumamos dizer que a escola de samba é um importante equipamento sociocultural. Ela transforma vidas, especialmente em territórios de maior vulnerabilidade social. A cultura abre oportunidades e oferece novos caminhos. O Carnaval é uma das maiores manifestações culturais do planeta. Por isso, quem veste as cores de uma escola e representa sua comunidade precisa compreender a responsabilidade que carrega ao defender esse patrimônio cultural”, ressaltou.