
Por Pedro Ribeiro
O encerramento das mesas e debates no segundo dia do CONASAMBA (Congresso Nacional das Escolas de Samba), que está sendo realizado na Fábrica do Samba, em São Paulo (SP), entre os dias 4 e 7 de junho, teve como tema um painel sobre o Carnaval nos estados localizados nas regiões Sul e Sudeste do país. O bate-papo reuniu gestores, diretores e articuladores desses carnavais, a fim de entender os desafios, as similaridades, as adversidades e as propostas para o Carnaval brasileiro. O encontro foi dividido em duas partes por conta da quantidade de representantes, e o CARNAVALESCO esteve lá para ouvir e trazer quais foram os passos e obstáculos desta conversa. O primeiro ponto de destaque trata de quanto o CONASAMBA é fundamental, porque a maior parte dos posicionamentos durante o painel girou em torno das dificuldades para se fazer o carnaval e, de modo geral, a sociedade que vive em lugares onde a folia está estruturada financeira e culturalmente, como em São Paulo e no Rio de Janeiro, sequer percebe as circunstâncias de adversidade que um carnaval descentralizado enfrenta. O Congresso Nacional das Escolas de Samba pôs luz e lupa neste tema e, com a democracia e a liberdade como pilares do Carnaval, dá para dizer que “sobrou para todo mundo” durante as colocações.
A mediação deste debate inter-regional ficou por conta de Éverton Pugliesi, vice-presidente da Região Sul da Federação Nacional das Escolas de Samba (FENASAMBA), e o primeiro a falar foi o presidente da UESPA (União das Escolas de Samba de Porto Alegre e Região Metropolitana), Juarez Guiterrez. Ele refletiu sobre a trajetória do carnaval porto-alegrense ao longo dos anos e fez um recorte mais específico a partir de 2022, quando houve a retomada mais plena das atividades pós-pandemia, que culminou em uma crescente na situação atual do carnaval gaúcho.
“Hoje, o Carnaval de Porto Alegre, através das duas ligas que fazem o seu gerenciamento, produção e execução, busca mostrar a importância para o poder público (…), de pautar exatamente a busca pela qualidade”, relatou.
Em um segundo momento-chave e sincero, Juarez reflete sobre as dificuldades financeiras nas gestões das agremiações: “Buscando uma conscientização a partir de cada gestor, de que o restabelecimento das próprias contas internas das entidades, daquilo que ‘ficou para trás’, também tem que ser revisto. O reconhecimento individual de um sucessor que assume após a eleição de uma entidade e acaba sempre tendo o mesmo discurso: ‘mas eu já peguei do jeito que estava’; então, é uma transferência de responsabilidade. (…) Se nós, dirigentes de liga, conseguirmos levar essa interlocução e conseguirmos convencer as nossas afiliadas de que esta é a pauta que deve ser discutida e restabelecida, trazendo mais saúde para as finanças da escola”, completou.
A continuidade do painel contou com a fala do presidente da Liga RJ, Deo Pessoa. O carioca explicou o redesenho da Liga RJ e a luta pela valorização do carnaval. O dirigente avalia que são necessários avanços mais robustos, principalmente para as séries Ouro, Prata e Bronze. Contudo, na relação com o poder público, o dirigente avalia que houve resultados positivos e usou a Fábrica do Samba para o Grupo de Acesso como uma dessas conquistas significativas.

“É um projeto que surgiu há 12, 14 anos, como promessa do Carnaval do Rio de Janeiro, e que, graças a Deus, vai se concretizar no próximo ano. Isso vai trazer dignidade para as agremiações da Série Ouro. (…) Muitos de vocês não conhecem os espaços físicos onde é construído o nosso espetáculo (atualmente). São locais insalubres que não trazem a mínima dignidade para o profissional de carnaval, os dirigentes e os componentes. A conquista desse espaço é uma luta antiga nossa!”, celebrou.
Anfitrião geográfico do CONASAMBA deste ano, o presidente da União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP), Nenê Teixeira, afirmou que “não dá para fazer carnaval sem política” e contou como estão as relações da UESP com o poder público e quais são os projetos mais próximos de ganharem vida: “Estamos construindo um projeto junto com a Câmara Municipal, alinhado com o presidente da Câmara dos Vereadores, Ricardo Teixeira (UNIÃO), para construirmos um polo de desfile na Vila Esperança. Passaríamos a ser a primeira cidade do Brasil e do mundo a ter dois sambódromos. (…) Começamos a bater na Câmara Municipal porque também teríamos o Legislativo do nosso lado. Já estamos até chamando de bancada do samba”, comentou.

O presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Grupo Especial de Vitória (LIESGE-ES), Edson Neto, deu continuidade às exposições junto com o presidente do Grupo de Acesso e trouxe uma curiosidade que envolve a construção do sambódromo onde acontece o carnaval capixaba. Segundo Edson, o nome da passarela ser “Sambão do Povo” deve-se ao fato de que faltavam 30 dias para o carnaval e a empresa responsável não conseguiria terminar a obra dentro do prazo previsto. Foi aí, então, que o povo do samba desceu o morro e finalizou o sambódromo em 1987. Ele também comentou a importância de existir unidade entre as ligas e grupos para o bem do carnaval de cada região: “A gente também se uniu como liga. (…) A gente bate junto em todas as secretarias para buscar recurso”, afirmou

O mediador Éverton Pugliesi anunciou a próxima integrante do debate, a quem concederia a palavra, como uma presidente forte. O discurso da presidente da UECEGAPA (RS), a gaúcha Kelly Ramos, fez jus à apresentação prévia. Ela trouxe uma série de situações complexas para quem constrói um carnaval descentralizado. Em um desabafo político e cultural sobre o carnaval porto-alegrense e a relação com o poder público, a jovem denunciou o problema de repasse de recursos para as escolas de samba e apontou o Estado como o responsável. De forma dura, ela chama de “piada” o carnaval receber um edital de R$ 3 milhões, sendo que o estado gaúcho é composto por 497 municípios. Ainda segundo ela, o sambódromo de Porto Alegre até hoje não possui arquibancada e banheiro. Além disso, a jovem cobrou a FENASAMBA em busca de respostas mais concretas: “A gente continua aqui sem as respostas. Mais do que uma carta, precisamos de uma devolução da carta. (…) Até quando nós, presidentes de liga, até quando nós, presidentes de escola de samba, vamos ficar batendo na porta de gabinete, dependendo de A ou de B para ajudar nossas escolas e para ajudar as nossas ligas? Até quando isso?”, questionou.
A segunda parte do debate começou com a fala de Ricardo Nodari, presidente da LIEJHO, que revelou os desafios para o carnaval no interior de Santa Catarina. De acordo com ele, a maior dificuldade é a linha de financiamento, e a solução para fortalecer o Carnaval brasileiro institucionalmente está na superação do modelo político que o poder público usa para se relacionar com a festa: “Se a gente transformar o carnaval em uma política de Estado, e não uma política de governo, nós vamos poder figurar no orçamento da União. (…) A partir de uma lei, e essa lei aprovada no Congresso Nacional. A FENASAMBA deveria partir agora para uma política de Estado do carnaval”, citou.

Na sequência, o presidente da ASSESGRU (RS), Pedro dos Anjos, comentou sobre sua perspectiva dentro da associação de escolas de samba de Uruguaiana, cujo carnaval tem crescido e se aprimorado. A visão de construir melhorias para o carnaval através da relação democrática e política foi o principal ponto trazido por Pedro: “Antes era bem mais difícil fazer carnaval. Eu quero agradecer ao prefeito municipal Carlos Delgado (PROGRESSISTAS). Eu quero agradecer ao prefeito anterior, Ronnie Melo (NOVO), porque a gente vem há bastante tempo movimentando e resgatando o carnaval de Uruguaiana”, contou.
Em seguida, Maria Elisa Abreu, presidente da Liga MG, defendeu que, antes da organização do desfile, está o fortalecimento do carnaval como um todo. O trabalho de fazer do Carnaval uma política pública constante, e não um evento sazonal, atravessa este entendimento de diálogo com todos os setores que compõem e querem compor o carnaval de Belo Horizonte: “A nossa missão na Liga hoje é construir pontes. Pontes entre as escolas de samba e o poder público. Pontes entre os fazedores de cultura e a sociedade. (…) Porque o desfile acontece uma vez por ano, mas as escolas de samba trabalham o ano inteiro”, complementa.
O carnaval de Florianópolis também esteve presente. A presença de Joel Costa Junior, presidente da Associação das Ligas do Estado de Santa Catarina (ALIESSSC-SC), foi mais uma fala combativa em defesa do Carnaval brasileiro, com disposição crítica sobre a maneira como parte dos setores da política catarinense se comporta com os articuladores da folia. Em contrapartida, o dirigente deu um “puxão de orelha” nos setores do carnaval que, na visão dele, deveriam abandonar essa conduta subserviente para com o poder público: “Nós temos que estar preparados para oferecer e solicitar alguma coisa. Chegar na frente do poder público e chegar na frente de um grande patrocinador, de mãos vazias, sem discurso, sem histórico, sem algo apresentável, é um trabalho anticarnaval”, defendeu.
Com a frase “O carnaval de Curitiba precisa de ajuda”, Jeferson Pires, da LIESC – Curitiba (PR), foi o último convidado do painel a colocar seu ponto de vista. O relato é impactante, à medida que o dirigente sustenta que posições político-ideológicas quase acabaram com o carnaval de Curitiba. A perseguição política esbarrou no carnaval e impossibilita a chance de reconhecimento, crescimento e estrutura para os trabalhadores do setor: “A questão sempre foi política lá. A extrema-direita é muito forte em Curitiba. A bancada evangélica em si. (…) Teve um vereador que fez um PL (projeto de lei) para tirar o direito que as escolas de samba têm de receber o dinheiro. Para vocês terem uma ideia de como está Curitiba”, denunciou.









