
Oya dé
Olúafééfé
Oya Ijegbe, igan obirin a ji sa idá
Ó lamu lamu bi ína bi alaro
Da ína si ajerę gbẹ ẹrù
Oya ni o to iwo efọn gbe
Ó ni lábá-lábá
Ó ni Olúafééfé
Relampejou! Natureza revolta como presságio. Os raios dela rasgam a imensidão do céu como a origem do seu próprio nome: O ya!. Ela rasgou, ela rasga. Ela corta, ela rompe, ela lacera, ela dilacera. Princípio que não se vê mas que se sente empurrar. Èfúûfù líle. O estrondo de sua presença preenche qualquer canto; tudo agora se confunde com a sua energia. Energia de imensidão, de exuberância. De ventania, de redemoinho, de furacão. De começo, meio e recomeço. Sentido espiralar da existência. Fundamento da vida, rito de orixά.
Deixa chover, deixa ventar. Deixa insurgir a tempestade das nuvens de chumbo dessa senhora cor de cobre, enegrecida, rosada, rubra, terracota, marrom.
Epahey, Oyá!.
Ao fim do arrebol, faz-se noite de carnaval. Daqui, de antes e por todo o sempre, sua valentia prevalece. Afasta os desatinos, arrastando tudo aquilo que está à sua frente. Oyá é uma constante reinvenção. Impulso indomável da liberdade, que só sabe ser livre se for muitas. Transcorre, transforma, expande. Do sagrado Rio Níger ao coral do mar; da capacidade de mutações diversas ao veredito do elefante branco. Pisando firme no chão, planando pelo ar. Linhagem de mandinga, várias formas de ser. De ser avassaladora. Exu, nas rédeas dos caminhos, possibilita diferentes magias de renovações. Dá novos sentidos à existência, rege a transformação dos deuses. Com sua mediação, Oyá segue. Abaixo da pele de búfalo, sob a imponente carcaça com o par de chifres, ela surge potente e fascinante. Sabe chegar, fincar, se impor. E também sabe voar para longe, compreendendo o tempo de se recolher para adornar os céus de lábá-lábá. Flutua no espaço, bate as asas pelos caminhos, travessias de borboleta-mulher.
Oyá é guerreira que não se curva aos inimigos. Com ela, amor e afeto se fazem juntos. O mesmo arrepio da luta vem da paixão. Yabá combatente e corajosa, mãe de nove filhos forjados entre o ferro e a vida. Ao lado do Senhor de Irê, promove um amor que se encontra na guerra e no fio da espada. Valente, ela é comandante implacável de tantos enfrentamentos sem barreiras que possam Ihe segurar. Mulher de dendê, mancha presente que não se esvai, ardente como o óleo-sangue do mundo. Ao comer akará, aprendeu a ser brasa e cuspir a chama daquele com quem teve outro grande encontro: o Alafin de Oyó. É ele uma força tão obstinada quanto Oyá. Orikis contam essa paixão de revoluções, capaz de quebrar grilhões, mudar o passado, se juntar na quarta-feira e fazer tocar daró e alujá.
Sobe o run! Nos ilê axé, Oyá reina sobre os oris por ela apontados. Destino! Pelas mãos dos axoguns e pelos cuidados das ekedjes, obrigações e rituais são cumpridos em seu nome. Missão! Oguês e okutás compõem os seus assentamentos. Das iyabassés, acarajé com folha de louro para atrair prosperidade, além de olelê e ekuru. O povo de santo planta axé e firma os Candomblés durante noites de beleza sem-fim. Dentro dos barracões, Oyá encanta oborós com sua dança de entre-mundos acompanhada pelos alabês. Ao longo do ajerê, carrega tacho na cabeça, exibindo o poder dos seus dedos quentes ao redor da fogueira. Eruexim erguido, orienta os caminhos. Governante dos ciclos, a lyá Mesan Orun! No axexê, a senhora dos nove céus encaminha os ancestrais. Com peregun, abre os seus destinos. Ewé, para-raio, erva-prata. Adaga de igbá. Rituais e macumbas, farturas e cantigas, defumação e alguidar. Awò.
O terreiro ganha a rua para que ela se apresente em cortejos sublimes. Atravessa a religião e se apodera das festas e das manifestações da cultura afro-brasileira, que a evocam e reverenciam. Fio de conta continua tocando ao peito, o som se mantém negro e Oyá vive em outras formas de cultuá-la. Ocupa e transforma diferentes espaços: está nos palcos, nas ruas, nas artes, nos maracatus, nos afoxés, nas danças, nas escolas de samba, na Estação Primeira. Vínculo transcendental de ventres constituídos pelas mãos femininas, que sustentam, articulam e conduzem esses coletivos matriarcais. Herdeiras de Oyá, honram seu legado e seus saberes. Ela protege, sustenta e inspira suas filhas. Mulheres que seguem soprando; se reinventando, resistindo e existindo; amando e guerreando; fazendo batuque e festa… tudo por ela. Tudo com ela! Liderando e tecendo redes, fundando famílias, zelando pelos filhos uma das outras e formando vidas. Sendo Oyá. Para bradar a todos os céus a quem se é grata, pois nutri-la também é se alimentar.
Quando lansā passa, nada fica no lugar. Depois que a Mangueira desfila, nada permanece igual. Todo mundo nos conhece ao longe. Chegou, ela chegou. É tempo de Oyá!
Nessa celebração, já é madrugada de quarta-feira – dia dela, para confirmar. Olhares inundados, peito apertado, o nosso povo em devoção. Vendaval de gente, macumba Verde e Rosa na avenida, cruzando essa pista em busca da manhã. Olhando para frente, miramos a Apoteose. Queremos ver o nascer do sol, uma nova estrela. Entoar de novo aquele brado em sua companhia.
Epahey, minha mãe! Aceite essa Nação que é sua. Aceite esse carnval que é seu. É você, Oyá! É você pela gente!
É Oyá por nós!
Enredo e Pesquisa: Sidnei França, Sthefanye Paz e Felipe Tinoco
Glossário
Acarajé – Bolinho de feijão-fradinho frito no dendê.
Comida ofertada a Oyá.
Akará – Bola de fogo.
Ajerê – Ritual presente em festejos de Xangô, no qual Oyá dança com um tacho com fogo na cabeça. Também é o nome dado ao próprio tacho do ritual.
Alabês – Ogans responsáveis pelos atabaques e toques em rituais do Candomblé.
Alafin – Título do rei de Oyó.
Alujá – Toque da religiosidade afro-brasileira vinculado a Xangô.
Awo – Dentre diferentes definições, é associado aos segredos dos cultos afrorreligiosos.
Axexê – Ritual fúnebre do Candomblé.
Axoguns – Ogans designados para fazer a transposição de energia contida nos elementos sagrados que serão oferecidos nos rituais dos orixás.
Barracões – Espaço no qual são realizados alguns rituais e eventos públicos dos terreiros de Candomblé.
Daró – Também conhecido como adaró ou “quebra-pratos”. Toque dedicado a Oyá, marcado por sua agilidade relacionada aos movimentos intensos dessa yabá.
Èfúùfù líle – Expressão associada aos grandes ventos, vendavais e tempestades vinculados a Oyá. Também conhecido como Efurufu lelé ou Ofurufu lele.
Epahey – Saudação a Oyá.
Ekedjes – Cargo feminino no Candomblé vinculado aos cuidados com os orixás e responsabilidades do terreiro.
Ekuru e Olelê – Comidas feitas de feijão-fradinho, sem fritar, também oferecidas a Oyá em alguns contextos religiosos.
Eruexim – Instrumento ritual feito com rabo de animal, utilizado por Oyá para governar os Eguns, os espíritos dos ancestrais.
Erva-prata – Planta utilizada em rituais com a presença de Oyá.
Ewé – Nome associado a folhas sagradas.
Igbá – Assentamento em que se guardam os elementos ritualísticos de cada orixá.
Ilê axé – Casas do culto de Candomblé.
Irê – Cidade em que Ogum foi rei.
Iyá Mesan Orun – “Mãe dos nove oruns”, titulação recebida por Oyá, e uma das origens associadas ao nome de Iansã, que seria uma corruptela desta expressão.
Lábá-lábá – Em iorubá, uma forma de se referir à borboleta.
Oyá – De acordo com algumas narrativas, a junção dos termos “O” e “ya” teria originado o nome de Oyá, que significaria “ela cortou”.
Oborós – Orixás masculinos.
Oguês – Chifres de búfalo.
Okutás – Pedras consagradas utilizadas nos cultos dos orixás.
Orikis – Canções em iorubá dedicadas aos orixás.
Orun – Mundo espiritual.
Ori – Expressão associada à cabeça de cada pessoa, na qual se guarda o seu conteúdo espiritual, regida pelos orixás.
Oyó – Império governado por Xangô.
Para-raio – Planta vinculada a Oyá e a alguns de seus rituais.
Peregun – Planta usada em rituais com a presença de Oyá, inclusive para dar caminho durante a passagem dos ancestrais.
Rio Níger – Também conhecido como Odo Oyá, é um dos rios mais extensos do continente africano, que corta diferentes países. Associado aos cultos de Oyá. Em algumas narrativas, ela teria virado o próprio rio.
Run – Maior e mais grave atabaque do Candomblé.
Yabás – Orixás femininos.
Tradução do oriki que abre a sinopse
Oyá chegou
Senhora dos ventos
Oyá Ijebé, mulher corajosa que, ao despertar, levantou a espada
Ela brilha como o fogo sob a luz
Ela acende o fogo em um ajerê e o leva na cabeça
Oyá é a única que pode carregar os chifres do búfalo
Ela é uma borboleta
Ela é a dona dos ventos
REFERÊNCIAS
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