A Unidos da Vila Santa Tereza foi a décima escola a cruzar a Intendente Magalhães. Entrou com empolgação ao som do intérprete Edson Neto, trazendo à memória uma homenagem que atravessa gerações: os 65 anos do Cacique de Ramos, uma das maiores referências da cultura popular carioca.

O enredo já dizia a que vinha: “A Vila Santa Tereza não marca bobeira e festeja os 65 anos do Cacique de Ramos”. E não marcou mesmo. Antes mesmo de o desfile ganhar forma, o esquenta tomou conta do público com sambas históricos eternizados pelo bloco de Ramos. Quem conhecia cantava com orgulho, e a escola desfilou com entusiasmo contagiante.

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Foto: S1 Comunicação

O carnavalesco Caaio Araújo mostrou criatividade e soube trabalhar com o que tinha em mãos, transformando recursos enxutos em narrativa. O resultado foi um desfile que contagiou a arquibancada, pois o público se identificava com o que assistia.

COMISSÃO DE FRENTE

A comissão de frente da Unidos da Vila Santa Tereza, assinada por Michel Dioliver, abriu o desfile com doze integrantes em cena e uma proposta simbólica bem definida. Oito deles vestiam vermelho, preto e branco, cores do Cacique de Ramos, reafirmando logo nos primeiros passos a homenagem.

Os demais componentes incorporaram figuras de forte representação espiritual e cultural: os orixás Ogum e Oxóssi, além da imagem de uma mãe de santo e de uma indígena, compondo um quadro que remetia às raízes e à ancestralidade presentes na história do samba. Ao centro, um tripé vermelho, no mesmo tom vibrante dos figurinos, com folhagens no topo, completava o cenário.

A coreografia seguia firme até a parada diante da primeira cabine de jurados, quando um imprevisto atravessou a cena. Um dos bailarinos perdeu a saia da fantasia e precisou se apresentar apenas de sunga. Em meio à tensão silenciosa do momento, outro integrante, ao deixar a marcação, abaixou-se discretamente para recolher a peça caída no chão. Ainda assim, outras saias acabaram se embolando durante a evolução.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Matheus Soli e Laís Machado, entrou na avenida com elegância e sintonia. A coreografia foi executada de forma tranquila, respeitando o ritual que o pavilhão exige e mantendo harmonia nos movimentos.

Ainda assim, ficaram pequenos detalhes que, nesse quesito tão técnico, fazem diferença: faltou à porta-bandeira um giro mais preciso, daqueles que desenham círculos perfeitos no ar, e ao mestre-sala um cortejo mais enfático, com maior presença cênica nos momentos de exaltação ao pavilhão.

Matheus desfilava com animação contagiante, sempre sorridente e expansivo. Laís, simpática e delicada nos gestos, demonstrava leveza, embora já na primeira cabine aparentasse certo cansaço — algo sutil, mas perceptível aos olhos mais atentos.

O grande destaque ficou por conta das vestimentas. Ricamente trabalhadas, com cores e acabamentos que dialogavam com a identidade da escola, criaram efeito visual marcante sob as luzes da avenida, valorizando o casal e emoldurando com beleza a dança.

EVOLUÇÃO E HARMONIA

Impulsionada pelo próprio samba-enredo, a Unidos da Vila Santa Tereza encontrou na música e na resposta do público o combustível para sua evolução. O refrão ecoava forte na avenida, cantado em alto e bom som pelos desfilantes, sempre estimulados pelos dirigentes de harmonia, atentos a manter a energia acesa.

Era visível o esforço coletivo para preservar a cadência e a unidade das alas. Nos minutos finais, porém, a harmonia enfrentou um desafio: houve uma breve parada que exigiu jogo de cintura para reorganizar a fluidez e evitar maiores prejuízos.

Ainda assim, a agremiação buscou, até o último instante, manter o conjunto coeso. No balanço geral, passou dentro da média, cumprindo o que se propôs e sustentando a dignidade de quem sabe que, na avenida, cada detalhe conta — mas a entrega da comunidade também pesa.

OUTROS DESTAQUES

Se houve um momento em que a avenida pulsou mais forte, ele veio do recuo da bateria. Sob o comando do mestre Marlon Celestino, a bateria foi ponto alto da noite. O naipe de agogôs desenhava o samba com precisão, preenchendo a melodia com personalidade e balanço. A fantasia dos ritmistas também chamou atenção: uma releitura das roupas tradicionais usadas nos desfiles do Cacique de Ramos, conectando passado e presente em tecido e brilho.

Não ficou nítido para quem assistia se a escola representou os fundadores do Cacique na figura de integrantes do grupo Fundo de Quintal.

A ala das baianas também se destacou, girando com imponência e leveza, arrancando aplausos pela evolução segura e pelo impacto visual. No chão da avenida, o destaque que conduzia os estandartes do Cacique trouxe força simbólica ao desfile, carregando não apenas bandeiras, mas memória e tradição.

O segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira cumpriu bem seu papel, dançando com elegância e garantindo a defesa do pavilhão com serenidade. Em meio aos altos e baixos naturais de um desfile, foram esses momentos que sustentaram o brilho da apresentação e mantiveram viva a vibração da noite.