No enredo “No Carnaval dos 7 Mares, vai dar Zebra!”, a Acadêmicos do Dendê levou para a Intendente Magalhães uma homenagem direta à Portuguesa Carioca, tradicional clube da Ilha do Governador e símbolo de resistência e identidade luso-brasileira no subúrbio carioca. A proposta mergulhou na história e na simbologia, brincando com o universo marítimo, remetendo às grandes navegações portuguesas e à irreverência do termo “zebra”, expressão popular que dialoga tanto com o futebol quanto com o espírito surpreendente do carnaval. Extremamente colorida e descontraída, a escola construiu um desfile festivo, conectando mar, comunidade e arquibancada, apostando na leveza estética e no carisma popular para exaltar a homenageada.

dende 2026 1
Foto: S1 Comunicação

COMISSÃO DE FRENTE

Sem um elemento alegórico, a comissão de frente trouxe apenas bailarinos, com uma integrante em destaque, fantasiada de zebra e sobre uma perna de pau. O quesito investiu em uma coreografia mais simples, utilizando leques e panos para criar efeitos visuais e dar dinâmica à apresentação. A proposta foi criativa dentro da simplicidade, mas faltou maior impacto cênico. Os componentes, ao final da apresentação no primeiro módulo, não reverenciaram a primeira cabine de jurados, o que pode impactar na avaliação. Ainda assim, cumpriram a coreografia com organização e boa ocupação de espaço.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal apresentou um bailado bonito, com sintonia e conexão visível entre si. A dança foi leve e visualmente agradável, com gestos de braços que complementaram a comunicação corporal, além de reforçarem a valorização do pavilhão. No entanto, o acabamento da fantasia da porta-bandeira apresentou problemas, especialmente na parte de tule, com rasgos aparentes; já a saia possuía falhas na costura e na limpeza da barra. O mestre-sala teve uma bolinha de sua fantasia desprendida durante a apresentação no último módulo. Apesar desses contratempos, o casal de mestre-sala e porta-bandeira defendeu o conjunto com técnica e entrega dentro de suas competências e responsabilidades.

ENREDO

A proposta de enredo dos carnavalescos Renato Vieitas e Pablo Azevedo, de navegar pelos “7 Mares” para exaltar a Portuguesa Carioca, trouxe irreverência, cor e liberdade criativa à história contada na avenida. A escola brincou com o universo marítimo e com a ideia da “zebra”, construindo uma narrativa solta, festiva e popular. O tom descontraído dialogou com a identidade da agremiação, priorizando o entretenimento e a alegria visual, conectando-se com o público e gerando impacto estético.

EVOLUÇÃO

A evolução foi regular do início até o meio do desfile, com componentes cantando ao longo da avenida, mesmo sem grande explosão de empolgação, especialmente na primeira ala. No último módulo de jurados, houve um grande buraco devido ao atraso na locomoção do carro e à dificuldade de manobra, o que também aconteceu no abre-alas, mas sem gerar espaços na pista. A situação pode ter sido causada pela largura considerável do carro em relação ao tamanho da avenida, exigindo muitas pessoas para empurrá-lo. A desenvoltura das musas nesse momento foi essencial para preencher o espaço, interagindo com o público e mantendo a energia. A ala dos compositores encerrou o desfile com força, cantando bastante e levantando quem ainda permanecia nas arquibancadas.

HARMONIA

O carro de som contou com vozes marcantes. A alternância entre a voz feminina e a masculina funcionou bem em diversos momentos, criando um efeito interessante; em outros, houve desencontro, prejudicado também por questões na caixa de som. O intérprete Doum Guerreiro conduziu o samba com segurança e firmeza. No entanto, fatores externos impactaram a desenvoltura dos cantores: um ruído no som atrapalhou o final do desfile, afetando a reta final da apresentação e prejudicando o espetáculo para o público presente.

SAMBA-ENREDO

Criado por Almir da Ilha, Aloisio Villar, Dé da Ilha, Waguinho, Rosangela Poeta, Marcelo Martins, Bruno Revelação, Micha, Doum Guerreiro, Rafael Santos, Marquinhus do Banjo, Rafinha da Ilha e Gugu das Candongas, a canção é irreverente e de refrão fácil. O samba tinha potencial para levantar ainda mais o público, como no trecho “Quando ouvi o toque do tambor / Voltei feliz pra Ilha do Governador”. Com maior entusiasmo coletivo no carro de som, poderia ter alcançado impacto mais expressivo nas arquibancadas. Ainda assim, cumpriu a função de sustentar a proposta leve e festiva do enredo.

FANTASIAS

Leves e extremamente coloridas, as fantasias dialogaram com a proposta irreverente do desfile. Houve alas com excesso de pano para criar movimento de onda; outra com adereços de cabeça representando a zebra; e, atrás desta, uma ala coreografada — na qual não era possível ter certeza se a fantasia estava completa, já que possuía adereço na parte inferior, mas cada componente usava roupa própria preta. Destaque para as baianas, vestidas de vermelho, que demonstraram empolgação ao girarem bastante e apresentaram figurinos simples, mas bem acabados. Os ritmistas também usaram roupas confortáveis, inspiradas em jogadores de futebol, favorecendo um desempenho mais livre da bateria.

ALEGORIAS

O abre-alas surgiu imponente, grande e bastante colorido, trazendo à frente uma zebra e oito destaques no alto da alegoria, com fantasias variadas — entre elas trajes de bate-bolas — que ajudaram a compor um visual vibrante e irreverente. Todavia, a alegoria apresentou problemas ao longo do percurso: entrou torta e em maior velocidade no último módulo de jurados, o que comprometeu parcialmente o impacto.

O segundo carro também enfrentou dificuldades, com acabamento abaixo do esperado e momentos em que parecia desgovernado, exigindo atenção redobrada para manter o andamento. Já o último elemento alegórico destoou do conjunto apresentado no início do desfile, com falhas visíveis de acabamento que contrastaram com o colorido e a força estética propostos nas primeiras alegorias.

OUTROS DESTAQUES

A bateria executou bem sua bossa, mantendo regularidade e sustentação ao longo da avenida. A irreverência da proposta, somada às cores intensas e à entrega da ala dos compositores no encerramento, garantiu um fim animado, mesmo com os ruídos técnicos que marcaram os minutos finais. No Carnaval dos 7 Mares, o Dendê navegou entre altos e baixos, mas manteve sua identidade popular e festiva até o último compasso.