“Na Tamarineira, é pagode, é carioca, é São Clemente”. Foi com esse manifesto em forma de samba que a São Clemente atravessou a avenida. O enredo, um dos mais interessantes do carnaval, celebrou as raízes do samba, a herança africana e o quintal como território sagrado da cultura carioca. A escola construiu uma linha temporal sobre a relação da negritude com o samba e suas vertentes, como samba-enredo, pagode, samba de roda e outros estilos oriundos da musicalidade negra.
Em versos que evocaram o jongo, o lundu, a Casa de Ciata e a resistência negra, a agremiação transformou a pista em uma grande roda de samba, em desfile marcado por entrega, identidade e vibração.
A São Clemente levou para a Zona Oeste a representação daqueles que trouxeram às terras cariocas o que hoje é festejado, aceito, comemorado e comercializado por muitos, mas que por muito tempo foi rejeitado e discriminado. O samba atravessou o oceano nos navios negreiros e ganhou novas formas na cidade maravilhosa, transformando encontros de amigos em gênero musical e elevando a negritude ao protagonismo com nomes exaltados nacional e internacionalmente, como Fundo de Quintal, Beth Carvalho e Arlindo Cruz, reafirmando que “São Clemente é quintal de todo partideiro”.
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão de frente apresentou componentes com trajes que remetiam aos escravizados, em referência aos primeiros negros que chegaram à região conhecida como Pequena África. Com figurinos leves e propositalmente rasgados, os dançarinos utilizavam correntes nas mãos e no pescoço, reforçando a simbologia da opressão.
O ponto alto ocorreu no momento da libertação: ajoelhados, retiravam as correntes e ecoavam um grito coletivo, dialogando diretamente com o trecho do samba que fala de liberdade e resistência. Após a libertação, os componentes celebravam sambando e exibiam retratos de nomes marcantes do samba, como Arlindo Cruz e Jovelina Pérola Negra; no verso, formava-se o nome da escola.
O elemento alegórico que acompanhava o setor — mistura de navio, árvores secas e atabaques — chamou atenção pelo tamanho e pouca funcionalidade. Exigiu mais esforço de condução do que efetiva contribuição cênica. Ainda assim, a comissão apresentou talento, entrega e segurança técnica, defendendo a proposta com profissionalismo e energia.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal, Alex Marcelino e Thaís Romi, protagonizou um cortejo elegante e clássico. Mantiveram postura, conexão e emoção durante toda a apresentação. A porta-bandeira destacou-se pela expressividade e firmeza na defesa do pavilhão, assumindo protagonismo em determinado momento da coreografia ao cantar e exaltar o símbolo da escola diante dos jurados.
O mestre-sala cumpriu seu papel com cortejo e proteção, sempre alinhado à parceira. Houve pequenos problemas com as fantasias, como a capa do mestre-sala que se soltou de um lado e certo desconforto aparente na fantasia da porta-bandeira na região do busto.
ENREDO
Com “Na Tamarineira, é pagode, é carioca, é São Clemente”, a escola construiu narrativa que partiu da ancestralidade africana até o pagode contemporâneo, passando por quintais, terreiros e rodas de samba que moldaram a identidade musical do Rio.
O desfile fez referências históricas e culturais, do Valongo ao Cacique de Ramos, reafirmando o pagode como resistência e celebração coletiva. A proposta foi bem traduzida na avenida, mesclando contexto histórico do período escravocrata ao apogeu do gênero musical, exaltando artistas que alcançaram projeção nacional.
EVOLUÇÃO
A evolução começou de forma fluida, com liberdade e tranquilidade entre os componentes. No entanto, por volta dos 38 minutos, quando a bateria cruzava o quarto módulo e ainda havia um carro alegórico por passar, a escola acelerou o ritmo. O desfile foi encerrado com 40 minutos e 50 segundos. Apesar do ajuste, manteve coesão espacial e não apresentou buracos.
HARMONIA
A harmonia mostrou-se atenta ao canto dos componentes. Alas importantes, como a primeira após o casal e o setor das baianas, cantaram com entusiasmo, reforçando o clima de roda de samba. A ala das passistas destacou-se pelo samba no pé durante todo o percurso.
No carro de som, Tinguinha demonstrou fôlego e qualidade, conduzindo a escola com segurança e potência vocal. O entrosamento com a equipe garantiu momentos de forte interação com o público, especialmente nos trechos mais festivos do samba.
SAMBA-ENREDO
O samba funcionou bem na avenida, com refrões de fácil assimilação e trechos que evocaram resistência e celebração. Cresceu nos momentos de maior interação com o público. O entrosamento entre carro de som e bateria assegurou constância e intensidade ao longo do desfile.
FANTASIAS E ALEGORIAS
Predominaram as cores azul, branco e amarelo, reforçando a identidade visual da escola. Houve presença marcante de adereços de cabeça e figurinos festivos. Musas e rainha apresentaram fantasias de bom acabamento e brilho. Destaque para as baianas, com figurino amarelo, asas de borboleta e saias amplas, compondo visual marcante.
As alegorias dialogaram com o enredo, com maior ênfase na negritude do que nas referências diretas ao samba. De tamanho mediano, apresentaram bom acabamento e cumpriram seu papel dentro da proposta, sustentando a estética popular e festiva.
OUTROS DESTAQUES
A bateria apostou em bossas que faziam referência ao pagode, criando identificação com o enredo. Chocalhos, pandeiros e repiques ganharam destaque no conjunto. Ao final, os gritos de “é campeão” ecoaram pela avenida, sintetizando o espírito da apresentação: mais do que um desfile, uma grande roda de pagode transformada em espetáculo.




