A Flamanguaça, uma das mais aguardadas da noite, apresentou o samba-enredo “Ecos de Sortilégios”, um tema que atravessa séculos, culturas e civilizações, explorando a força dos encantamentos e das tradições místicas que seguem fascinando gerações.

Os grandes destaques do desfile ficaram por conta da impactante comissão de frente e do luxo das fantasias e alegorias, que impressionaram em praticamente todos os setores. Em contrapartida, a evolução voltou a ser um ponto de instabilidade para a escola.

COMISSÃO DE FRENTE

Sob a coreografia de Adalberto Shock e Juliana Costa, a comissão de frente entregou uma apresentação segura, potente e tecnicamente bem executada. A performance foi marcada pela força dos movimentos, excelente conexão entre os componentes, ritmo preciso e forte carga interpretativa.

A coreografia trouxe a misticidade brasileira para o centro da narrativa, dialogando com elementos da dança afro, contemporânea e popular. A representação de Exu e seus guardiões abrindo caminhos foi conduzida com intensidade e simbolismo, reforçando o enredo proposto.

Mesmo utilizando fantasias complexas e volumosas, com grande quantidade de tecido, os bailarinos mantiveram a fluidez e o domínio de cena, evidenciando preparo técnico e potencial para alcançar nota máxima.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal Anderson de Mota e Lohane Lemos foi sinônimo de profissionalismo na avenida. Com fantasias deslumbrantes, chamaram atenção pelo requinte visual. No entanto, ao se aproximarem da segunda cabine de jurados, a saia da porta-bandeira começou a se desfazer, gerando tensão e certo desencontro momentâneo.

Apesar do contratempo, o casal demonstrou maturidade e controle emocional. Lohane e Anderson mantiveram a confiança e entregaram uma apresentação firme, sem falhas técnicas. A coreografia combinou leveza, força, molejo e carisma, com movimentos amplos e bem executados que garantiram impacto visual.

HARMONIA E EVOLUÇÃO

A harmonia foi um dos pontos altos da escola. A comunidade cantou com intensidade e emoção durante todo o desfile, demonstrando forte identificação com o samba. A energia do público também contribuiu para manter o clima vibrante na avenida.

Já a evolução apresentou extremos. O início foi marcado por andamento lento, possivelmente estratégico para evitar problemas com o tempo. No entanto, do meio para o fim, o ritmo acelerou excessivamente, resultando em correria e certa desorganização nos setores finais. A escola encerrou sua apresentação com 40 minutos e 41 segundos.

SAMBA

Mesmo enfrentando problemas técnicos de som, situação recorrente na noite, o samba-enredo foi bem recebido tanto pelo público quanto pela comunidade.

Comandada pelo mestre Renan Gohan, a bateria mostrou potência e segurança, sustentando o samba com bossas e variações rítmicas que mantiveram a energia elevada do início ao fim.

FANTASIAS E ALEGORIAS

As fantasias foram um dos maiores trunfos da escola. O desfile trouxe riqueza de detalhes, bom acabamento e volumetria marcante, e elementos que remetiam ao universo do encantamento e da espiritualidade. A paleta de cores transitou entre tons vibrantes e sombrios, reforçando o contraste entre magia, mistério e poder. Muitas alas apresentaram leitura imediata e forte impacto visual, contribuindo para a imersão do público no enredo e evidenciando cuidado na concepção artística.

Outro ponto positivo foi a coerência temática: as fantasias dialogavam entre si e mantinham unidade estética, reforçando a identidade mística da escola. Além disso, a utilização de adereços de cabeça e elementos cenográficos nas alas ajudou a ampliar a sensação de grandiosidade mesmo em setores sem grande volumetria.

Nas alegorias, a escola também demonstrou força criativa. Os carros gigantes impactaram a todos presentes na avenida e trouxeram simbologias ligadas à espiritualidade, aos rituais e ao imaginário mágico, com esculturas expressivas e bom uso de iluminação e texturas.

Apesar do destaque plástico, em alguns momentos a grandiosidade das fantasias e alegorias acabou contrastando com a evolução irregular da escola, o que diminuiu o tempo de contemplação de certos elementos e prejudicou seu desfile. Ainda assim, o conjunto visual da Flamanguaça se consolidou como um dos mais luxuosos e coerentes da noite, contribuindo diretamente para a forte conexão com o público.

OUTROS DESTAQUES

O ator e dançarino que interpretou Exu realizou um trabalho magnífico, utilizando o corpo e a expressão para entregar carisma e força apenas com o olhar.