A Acadêmicos do Cubango foi a responsável por encerrar o primeiro dia de desfiles da Série Prata do Carnaval carioca, na Intendente Magalhães. Vinda de Niterói, a escola atravessou a avenida já sob o raiar do sol da segunda-feira de Carnaval. Mesmo estourando o tempo regulamentar, a agremiação conseguiu abrilhantar a passarela e manter o público atento até os últimos acordes.

Com o enredo O Menino Sonhador do Sertão, a Cubango apostou em suas raízes e na força da própria comunidade. Em vez de um tema afro, trouxe à cena um recorte nordestino, profundamente brasileiro, exaltando identidade, resistência e sonho. Na avenida, a escola mostrou seu “chão”. O canto veio forte, impulsionado por uma comunidade que tem como marca a presença vibrante e a entrega na evolução. A Cubango se destacou justamente nesse quesito: quando sua comunidade canta, a escola cresce.

Ainda assim, ao longo do percurso, formaram-se alguns buracos na pista, o que acabou comprometendo a harmonia. Esses espaçamentos quebraram, em determinados momentos, a fluidez do conjunto. No balanço final, ficou a imagem de uma escola aguerrida, que apostou na própria identidade e fez do amanhecer o cenário para reafirmar sua paixão pelo Carnaval.

COMISSÃO DE FRENTE

A comissão de frente da Acadêmicos do Cubango trouxe para a pista um pedaço vivo do teatro ambulante popular, inspirado nos cangaceiros e cangaceiras do sertão. Assinada pelo coreógrafo Allan Carvalho, a coreografia mesclou ritmo e narrativa, resultando em uma dança contagiante e perfeitamente sincronizada.

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Fotos: S1 Comunicação/Divulgação

Os bailarinos trajavam roupas de couro, evocando a aridez e a tradição do sertão nordestino. Entre eles surgiam outros personagens e, claro, o próprio menino sonhador que dá nome ao enredo, formando pequenas cenas que dialogavam com o público e com a história contada pela escola.

A performance foi inteiramente de chão, aproveitando ao máximo cada centímetro da pista. O ponto alto, porém, ficou por conta da interação com o casal de mestre-sala e porta-bandeira, que recebeu os movimentos da comissão como complemento à própria dança, criando um efeito visual coeso e memorável.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal Wanderson Silva e Aline Flores riscou o chão da Intendente com brilho e segurança. Com habilidade e sincronia, demonstraram entrosamento e carisma. Diante dos jurados, as apresentações foram entregues com elegância e coerência, dialogando com a proposta do enredo ao incorporar referências à literatura de cordel, incluindo passos de quadrilha.

A fantasia, em tons de prata, verde e preto, reforçava essa estética, equilibrando imponência e delicadeza. O mestre-sala cortejou sua porta-bandeira com eficiência e equilíbrio, conduzindo o bailado com firmeza. Sua indumentária favorecia a evolução e valorizava especialmente seus giros, que ganharam destaque na amplitude da pista.

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Na saia da porta-bandeira, porém, era possível notar a ausência de algumas penas, formando uma pequena falha. Um detalhe discreto, mas perceptível durante os giros, quando o movimento ampliava o campo de visão do figurino. Ainda assim, o conjunto prevaleceu. Técnica, elegância e sintonia marcaram a passagem do casal, que soube honrar o pavilhão com garra e refinamento.

SAMBA-ENREDO

O samba-enredo da Acadêmicos do Cubango trouxe para a avenida o clima típico das festas de São João, tão presentes em cada canto do Nordeste. A proposta de transformar a passarela em uma grande quadrilha mostrou-se eficaz: cores, passos e ritmo criaram a sensação de celebração coletiva, remetendo à tradição popular nordestina.

No entanto, a levada acabou se distanciando um pouco do samba-enredo tradicional. O envolvimento completo só acontecia quando os componentes se aproximavam da bateria, evidenciando que a força do canto dependia do acompanhamento direto dos ritmistas. Fora desse eixo, o samba perdia um pouco de impacto, embora não comprometesse a festa visual e coreográfica da escola.

O resultado final foi, portanto, uma mistura interessante: estética e temática bem definidas, com um samba que funcionava como trilha para a narrativa, mas que pedia mais integração para atingir sua máxima potência quando cantavam: “Vou aonde for por seu verde e branco, Cubango, eu te amo tanto!”.

ALEGORIAS E ADEREÇOS

A Acadêmicos do Cubango cruzou a Intendente com uma estética bem nordestina. Logo nas primeiras alas, o contraste elegante do preto e branco chamou atenção, criando uma identidade visual forte até a chegada da primeira alegoria, um tripé que ostentava o nome da escola como cartão de visitas na avenida.

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Fotos: S1 Comunicação/Divulgação

As fantasias dialogavam com fidelidade ao enredo, reforçando a narrativa proposta e mantendo unidade ao longo do desfile. No conjunto alegórico, a escola contou com três carros, que ajudaram a sustentar a grandiosidade da apresentação.

O último carro, porém, enfrentou um problema de condução. A dificuldade na evolução acabou provocando a abertura de um buraco justamente em frente à cabine dos jurados, um contratempo que quebrou momentaneamente a fluidez da escola, atrasou a finalização e pode pesar na avaliação.

HARMONIA E EVOLUÇÃO

A Acadêmicos do Cubango conduziu sua evolução e manteve o canto com bom aproveitamento durante a primeira metade do desfile. A escola avançava com segurança, sustentada pela força da comunidade e por um conjunto que parecia bem alinhado ao propósito do enredo.

No entanto, da metade para o fim, o andamento começou a apresentar contratempos. A organização enfrentou dificuldades na fluidez da evolução, o que comprometeu o ritmo até então estável. Com o tempo já estourado, a escola precisou acelerar nos momentos finais, transformando o encerramento em uma corrida contra o relógio.

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O esforço foi visível, mas a mudança brusca de cadência acabou impactando a harmonia e a leitura mais uniforme do desfile. Ainda assim, ficou evidente a garra da comunidade, que não deixou o canto cair mesmo diante da pressão do cronômetro.

OUTROS DESTAQUES

Entre os destaques do desfile da Acadêmicos do Cubango esteve Mariane Marinho, representando a beleza encantada do cordel. Posicionada à frente do tripé que levava o nome da escola, ela surgia como figura emblemática do enredo, traduzindo em fantasia e postura a poesia popular nordestina que a agremiação levou para a avenida.

Outro ponto alto foi a bateria comandada por Felipe Bruno, que manteve a pulsação firme do desfile, ao lado de sua rainha, Juliana Rangel, esbanjando energia e presença. A sintonia entre ritmo e dança ajudou a sustentar os momentos de maior vibração da escola.

Também chamaram atenção as passistas, vestidas como Lampião e Maria Bonita, em referência direta ao universo do cangaço. A ala trouxe irreverência, identidade e forte conexão com o sertão retratado no enredo, reforçando o clima de festa popular que marcou a apresentação.