A Zona da Leopoldina é uma fonte inesgotável de samba, território onde o ritmo ecoa entre ruas e praças, moldando identidades e fortalecendo comunidades. Vinda desse chão, a Independentes de Olaria levou para a passarela popular da Intendente Magalhães um enredo dedicado a um dos filhos dessa terra, Jackson do Pandeiro, que viveu durante muitos anos no bairro de onde a escola é oriunda e ali construiu parte de sua trajetória artística e afetiva. Ao transformar a memória em desfile, a azul e branca reafirmou sua ligação com o território e com as histórias que nasceram em seu entorno.
O homenageado, cantor, compositor e percussionista conhecido como “Rei do Ritmo”, imprimia sua identidade ao misturar estilos e gêneros musicais. Em sua obra, a ironia e as críticas sociais caminhavam juntas, consolidando um legado que atravessou gerações. Com isso, a escola apostou na força de um artista que fez da mistura seu principal instrumento e transformou o ritmo em assinatura.
COMISSÃO DE FRENTE
Abrindo o desfile, a comissão, sob o comando da coreógrafa Ranna Jalilahs, apostou na teatralidade para apresentar o universo de Jackson. Os dançarinos, vestidos com batas, compunham o cenário com elementos como uma bacia e um livro com os escritos “cabra da peste” e “não se avexe, não”, além de punhados de ervas. Com a bacia, encenavam uma lavagem de roupa; com o livro, a leitura; e, com as ervas, uma bênção.
A coreografia iniciava com movimentos sutis e lentos, e a mudança ocorria quando os bailarinos trocavam as batas por figurinos que representavam diferentes danças e estilos musicais, como samba, forró e frevo. A transição contava com o apoio de um elemento cenográfico — um baú onde eram guardadas as trocas de roupa — e a apresentação tinha como grande finalização um dos bailarinos representando o homenageado, que sambava com seu pandeiro no centro do grupo.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal trouxe em seu figurino o azul da escola mesclado a estampas que remetiam à cultura nordestina. Com muitos giros, Adryano Silva e Lays Menezes apresentaram uma coreografia predominantemente clássica, mantendo a tradição para garantir os pontos do quesito.
Com passos de forró inseridos nos momentos em que o samba entoava o verso “Olaria é forró, forró de paraibano / Traz o rei do pandeiro, remelexo insano!”, a dupla garantiu um toque de inovação e ajudou a levantar o público. No entanto, em determinado momento da apresentação para a segunda cabine de jurados, em meio aos giros, a porta-bandeira Lays Menezes se desequilibrou, e uma pequena parte da fantasia se soltou, atrapalhando o desempenho do casal, que, mesmo mantendo o sorriso e o ritmo, aparentou ter se abalado com o ocorrido.
ENREDO
Contar a trajetória de Jackson do Pandeiro de forma não literal, mas destacando fases que construíram sua história, foi a proposta dos carnavalescos Ariel Portes e Ester Domingos em “O balanço do cabra que embolou o som e, no compasso da mistura, fez um Brasil pandeiro”.

Foram evidenciadas, em diversos momentos, sua origem paraibana e as referências nordestinas. O desfile mergulhou na infância do artista, passou por suas marcas e influências e chegou ao legado de brasilidade e criatividade deixado à música e à cultura brasileira. Merece destaque a conexão entre o samba-enredo e a narrativa apresentada, que seguiram a mesma linha e se fizeram compreender.
EVOLUÇÃO
Com espontaneidade dos componentes e bom ritmo no início, a escola apresentou oscilações do meio para o fim do percurso. A harmonia demonstrava preocupação com o tempo regulamentar e atenção redobrada para evitar buracos na pista.
A partir dos 35 minutos de desfile, houve aceleração perceptível, especialmente quando a bateria passava pela quarta cabine. O último carro, “Brasil Pandeiro”, intensificou ainda mais o ritmo nos dois minutos finais, exigindo esforço redobrado dos componentes para que a escola não ultrapassasse o tempo máximo, conseguindo finalizar nos últimos segundos.
HARMONIA
De volta à Independentes de Olaria, o intérprete Tuninho Júnior mostrou-se à vontade à frente do carro de som, comandando o canto da comunidade. Apesar de problemas no retorno de som na Intendente, a entrega ao vivo surpreendeu.
Mesmo com ajustes no andamento, os componentes demonstraram disposição e comprometimento. Duas alas posicionadas à frente do segundo casal contavam com diversos integrantes cantando o samba com entusiasmo, reforçando a presença sonora da escola. Em alguns setores, porém, a correria comprometeu a constância do canto e da evolução.
SAMBA-ENREDO
Com refrão marcante e melodia que remetia à cadência do pandeiro de Jackson, o samba de Claudio Russo, Marquinhos Beija-Flor, Gabriel Simões, Mateus Pranto, Raphael Gravino e Leandro Vicente conduziu e levantou a escola.
A obra valorizou a irreverência e a musicalidade do homenageado, trazendo misturas rítmicas. Ainda assim, alguns fatores podem ter prejudicado o canto, como componentes que não acompanharam integralmente o samba e o andamento acelerado na parte final, dificultando a sustentação em determinados trechos.
FANTASIAS E ALEGORIAS
A escola apresentou fantasias menos elaboradas em algumas alas, mas que proporcionaram conforto aos componentes para desfilar e brincar o carnaval. Destacaram-se as referências à cultura nordestina, além da mistura de estampas e cores que dialogavam com a originalidade da obra de Jackson.
Predominantemente bem acabadas, reforçaram a identidade do enredo e contribuíram para a narrativa visual.
Os carros alegóricos ilustraram passagens da vida e da obra do artista, com destaque para o último módulo, que representava o auge da carreira do “Rei do Ritmo”. No entanto, sentiu-se falta de elementos visuais mais impactantes na composição estrutural das alegorias.
OUTROS DESTAQUES
A bateria destacou-se pelo andamento firme e buscou traduzir as características do homenageado, como a mistura e a irreverência, incluindo toques de forró. A comunidade sustentou o desfile e brincou o carnaval durante os quarenta minutos de apresentação. Entre ajustes e acertos, a Independentes de Olaria fez da avenida um palco para reafirmar sua ligação com a música e com a história de um de seus filhos mais ilustres.










