No último domingo, o “Grande Sertão Negro” chegou à Intendente Magalhães no desfile da Independente da Praça da Bandeira. A escola de São João de Meriti foi a sexta a se apresentar no dia de inauguração dos desfiles da Série Prata em 2026 e exaltou a ancestralidade e a herança deixada pelo povo preto africano no Nordeste brasileiro. A comunidade, contudo, poderia ter reconhecido com mais intensidade a força do enredo e cantado o samba com maior presença.
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão de frente, do coreógrafo Alisson Coutinho, apostou em levar a essência do maculelê para a Avenida. Todos, incluindo ele, usavam vestimentas tradicionais da dança e tinham pinturas brancas espalhadas pelo corpo. O grupo demonstrava sua força no verso “É preto o Nordeste do meu país”, seguido por um grito de guerra. A expressão corporal, a sincronia entre os dançarinos e o bater de bastões em momentos estratégicos do enredo foram destaques da apresentação.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Douglas Valle e Priscila Costa, executou a performance com segurança em todos os módulos de julgamento. Excelente condução do pavilhão, que em nenhum momento se deixou enrolar. Douglas acompanhou os passos de Priscila com agilidade, sem ficar para trás.

ENREDO
Desenvolvido pelos carnavalescos Ricardo Paulino e Robson Goulart, o enredo da Praça da Bandeira para o Carnaval 2026 colocou no holofote o protagonismo negro na formação da identidade nordestina. Da comissão de frente ao último carro alegórico, o “Grande Sertão Negro” mostrou que, além da ancestralidade cultuada no candomblé, a culinária, a música e a dança também possuem raízes nas manifestações culturais africanas, que, durante séculos, resistiram ao apagamento promovido pela colonização no Brasil.
EVOLUÇÃO
A agremiação chegou à dispersão e finalizou o desfile com tempo de sobra, faltando três minutos para o limite estabelecido. Em um breve momento, a distância entre a comissão de frente, o primeiro casal e o abre-alas se acentuou na Avenida. Menção honrosa ao trabalho da ala de passistas, que deu um show de samba e carisma ao longo da Passarela Popular do Samba.
HARMONIA
Apesar do trabalho consistente do intérprete Diego Nascimento à frente do carro de som, a resposta da comunidade deixou a desejar. Eram poucos os componentes que cantavam a plenos pulmões pela escola. Alguns passavam pelos módulos de julgamento até cabisbaixos, contrariando a proposta e a energia do samba-enredo. Vale atenção a esse quesito nos próximos desfiles.

SAMBA-ENREDO
O samba-enredo da Praça da Bandeira contou com a assinatura do grupo formado por Marquinhos Beija-Flor, Claudia Rossa, Rafael Gravino, Gabriel Simões e Breno Santos Amaral. O refrão reforçava a proposta central da temática, reverenciar o legado deixado pelo povo preto: “E a minha Praça da Bandeira sai do gueto / Pra saudar o povo preto, Inaê Mojubá”.
FANTASIAS E ALEGORIAS
O abre-alas da Praça da Bandeira chegou poderoso ao ponto de largada, com o nome da escola em evidência. No entanto, a iluminação do carro falhou próximo à terceira cabine de jurados, permanecendo assim até a dispersão. Já a segunda alegoria, “Mesa farta das mães pretas”, apresentou a força ancestral do tempero da baiana em pratos típicos da culinária nordestina. Por fim, o terceiro carro, “Festanças e frevança com muita dança, aí”, concluiu a passagem da Praça da Bandeira pela Intendente com a totalidade da obra.
De modo geral, a história contada pela agremiação era de fácil compreensão por meio das alegorias, mas o acabamento poderia ter sido mais aprimorado.
A diversidade de cores reinou no conjunto de fantasias. As roupas do primeiro casal e das baianas, sobretudo, estavam luxuosas e muito bem acabadas.
OUTROS DESTAQUES
A bateria “Terremoto”, dos mestres Josué Lourenço e Jefferson, representou os “Filhos de Gandhy”, maior grupo de afoxé de Salvador, e implementou elementos rítmicos do jongo nas bossas. Destaque também para o muso Tarso Alessandro, que apresentou a terceira alegoria com muito samba no pé e sorriso no rosto.










