Atual campeã da Série Bronze, a União do Parque Curicica convidou o público a embarcar na história de Arlindo Oliveira. O quinto enredo a atravessar a Intendente Magalhães no último domingo, “As Viagens de Arlindo – Minha Loucura é Ser Artista”, trouxe o legado do artista plástico, que faleceu em novembro de 2024, como símbolo de perseverança da luta antimanicomial. A escola carregava a felicidade de quem, em menos de um ano, havia conquistado uma vaga na Série Prata; no entanto, os pontos no quesito evolução podem estar comprometidos devido a alguns espaçamentos na Avenida.

COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por Aline Kelly, a comissão de frente do Parque Curicica estava em um tom parecido com o restante da escola, apostando no simples, mas abraçando a energia e a criatividade. A dança inaugurou o desfile para o primeiro módulo, apresentando a ligação do homenageado com o bairro da Zona Sudoeste do Rio. Ainda na infância, Arlindo foi abandonado pela própria mãe na antiga Colônia Juliano Moreira — hoje Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira — que, durante longas décadas, foi um dos maiores complexos manicomiais do Brasil.
No início da apresentação, os componentes seguravam uma mala na mão que, mais tarde, se revelaria em letras que formavam a palavra “Curicica”. Os objetos cenográficos se abriam involuntariamente em alguns momentos, o que atrapalhava a harmonia visual do conjunto. Entre a comissão, havia ainda a representação de Arlindo como um palhaço. Ele levou seu amor pela arte dentro da mala e o espalhou aos demais integrantes. Logo, em sintonia com a mensagem de sua famosa frase, “Minha loucura é ser artista”, todos se transformam em palhaços, e Curicica virou um verdadeiro carnaval.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O mestre-sala Marvyn Souza e a porta-bandeira Marcela Tavares estão de volta em mais um ano representando a tricolor de Jacarepaguá. O casal estava seguro diante de todos os módulos de julgamento, executando a coreografia de forma limpa e transmitindo a empolgação do samba para todo o público. As fantasias, em tons de branco e prata, apresentavam boa mobilidade, marcando fluidez e boa sincronia na condução da bandeira e no tradicional bailado.

ENREDO
O enredo “As Viagens de Arlindo – Minha Loucura é Ser Artista” foi trabalhado por Gleydson Castro, Bráulio Malheiro e pela parceria de Gamba Jr., professor da PUC-Rio que conhecia Arlindo e chegou a fazer uma exposição de suas obras na universidade.
O desfile mergulha na viagem pessoal de Arlindo à arte, onde se encontrou e fez dela sua força e identidade até os últimos dias de vida. A escola abriu o espetáculo abordando o começo do pintor no centro psiquiátrico e a influência de Bispo do Rosário, com quem dividiu o mesmo pavilhão, em sua trajetória. Depois, foi a vez da influência de Arlindo em Curicica e de suas obras criadas no Ateliê Gaia ganharem destaque na Avenida.
EVOLUÇÃO
A Curicica finalizou o desfile dentro do tempo limite, com 39 minutos e 4 segundos. O andamento aparentava seguir conforme o planejado ao longo do percurso, mas, chegando ao fim, a agremiação deixou um espaçamento visível em frente à quarta cabine de jurados, o que pode colocar os pontos deste quesito em risco.
HARMONIA
A condução do intérprete Bruno Nascimento no carro de som fez os componentes cantarem o verso “Bairro dos loucos / Você sabe onde fica: Curicica” com toda a voz. A comunidade estava animada, mas poderia ter mantido o mesmo tom nos demais versos. Destaque para a primeira ala da escola, que encorajava as apresentações da comissão de frente e do casal diante dos jurados com muita força.
Curicica
SAMBA-ENREDO
Este ano, o samba-enredo da tricolor ficou sob a responsabilidade de Dudu Nobre, Victor Rangel, Dinho PQD, Jonathan Tenório e Renne. A canção acompanhou a relação de Arlindo com a arte e a Colônia, seu impacto contra a estigmatização de doenças mentais, ao mesmo tempo em que Curicica leva a fama de “bairro dos loucos”. O samba é agradável e enaltece a lembrança de um artista que, durante muito tempo, foi incompreendido.
FANTASIAS
As fantasias traziam referências à história de Arlindo, como a famosa lenda do Boi de Curicica, além de personagens emblemáticos na luta antimanicomial, como a menção a Dona Ivone Lara na ala das baianas. Muito bem trabalhadas. O acabamento de algumas, como na ala de “palhaços”, no entanto, aparentava estar mais frágil.
ALEGORIAS
A primeira alegoria elaborou uma apresentação em torno da mente e da genialidade artística de Arlindo Oliveira. No centro superior, um de seus trabalhos mais emblemáticos, “BOPE”, aparecia em destaque.
Fechando o desfile, o último carro trazia a imagem do artista e o centenário da Colônia, completado em 2024. É sobre não deixar uma memória se apagar e eternizá-la no carnaval. Hoje, parte do local é ocupada pelo Museu Bispo do Rosário.
OUTROS DESTAQUES
Trabalho espetacular da bateria do mestre Yan Pac Man, com bossas que valorizavam os pontos altos do samba e sintonia total com o intérprete Bruno. A velha guarda da escola estava em harmonia com o enredo e bastante simpática.










