Por Will Ferreira e fotos de Fábio Martins

Samba bom, comunidade que canta, ótimo staff… com tais características, absolutamente qualquer escola pode, tranquilamente, pensar em título. E, é bem verdade, todo o desfile da Independente Tricolor, quarta escola a desfilar na sexta-feira de carnaval (09 de fevereiro), teve tais características. Houve, entretanto, um quesito que pode causar certa preocupação para a instituição da Zona Norte paulistana. Defendendo o enredo “Agojie, a Lâmina da Liberdade!”, idealizado pelo carnavalesco Amauri Santos, a agremiação da Vila Guilherme teve destaque na Comissão de Frente, no Samba-Enredo e na Harmonia, mas teve alguns pontos de observação em Alegorias na apresentação encerrada em uma hora e quatro minutos.

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Comissão de Frente 

Coreografada por Arthur Rozas e intitulada “Soberania Sagrada”, haviam três grupos diferentes de bailarinos. O primeiro deles, representado por uma única mulher de cabeça raspada, a “Força Espiritual Feminina”, ora aparecia, ora ia para um pequeno tripé , que era envolto por escudos. Tais artefatos era pegos pelos “Guerreiros de Daomé”, mostrando o lado místico africano para captar a energia vodum nos objetos de defesa. Também existiam as mulheres, a “Soberania Feminina”, que representavam todas as afrodescendentes que lutam pelos próximos e pelo próprio povo. Sem erros de execução e com uma fantasia e pintura inteira dourada, o segmento teve ótima apresentação.

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Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Jeff Antony e Graci Araujo vieram fantasiados como “Mama África e o Criador”, juntamente com os guardiões “Asase Ye Duru” (“A Terra Tem Peso”, em português). Com exibições tranquilas no primeiro e no último módulo, a porta-bandeira sustentou com muita galhardia o pavilhão na segunda e na terceira cabine, que tinham mais incidência de vento. Quanto a Jeff, vale destacar o trabalho das pernas, bastante céleres. No geral, ótima apresentação do casal.

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Enredo

Muito focada no matriarcado africano, o enredo da Independente buscava exaltar toda a força das mulheres afrodescendentes, símbolo de força e resistência – sobretudo na defesa dos próximos. Personificadas no nome do enredo, as agojies eram guerreiras que defendiam o antigo reino de Daomé (atual Benim) entre os séculos XVII e XIX. Altamente respeitado, o exército feminino foi exaltado mais uma vez – agora, no carnaval paulistano. A cabeça da escola buscava focar na ancestralidade – trazendo, por exemplo, o exército de Zazzau, Agotime e as candaces; depois, mais detalhes sobre o reino defendido pelas Agojies foram exemplificados – como o ritual vodum e os marfins sagrados; ainda adiante, um lado mais místico e o legado da cor das guerreiras africanas em questão era apresentado. Por fim, o último carro alegórico valorizava a imortalidade do exército retratado pela Independente. Além de todas as pontuações estarem propostas no enredo, tudo também estava no samba-enredo, facilitando ainda mais a compreensão do público.

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Alegorias

Os quatro carros, bastante altos, impressionavam pela beleza, imponência e brilho. Sem falhas na execução, haviam, entretanto, alguns leves descuidos quando observados mais de perto – e isso nada a tinha a ver com tecidos, adornos, esculturas ou algo do gênero. A questão versava, sobretudo, sobre detalhes nas extremidades de cima e de baixo dos carros. O abre-alas, “Ancestralidade”, tinha rodinhas aparentes no pede-passagem, algo que também se repetia na quarta alegoria – de nome “Imortalidade”. Por fim, o terceiro carro, intitulado “Agojiie e a Misticidade de Daomé”, possuía uma alça aparente acima da escultura de uma das guerreiras.

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Fantasias

A primeira ala da escola, “Culto Às Mães Ancestrais”, tinha uma fantasia bastante luxuosa, com tecidos bem mais caros que o de outras coirmãs e apostando em cores mais escuras – como o preto e o roxo. Nas demais vestimentas do primeiro setor, o altíssimo nível se manteve. É bem verdade que, após a “cabeça” (jargão carnavalesco para se referir ao começo de uma apresentação), os materiais utilizados não aparentavam mais ser os mesmos – o acabamento, entretanto, seguia de ótima qualidade, tal qual os costeiros, adereços de mão, adornos e etc. Vale destacar, também, a ala 15, “Agojie, Luta e Fundamento”, de ótima concepção.

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Harmonia

Desde 2023, quando retornou ao Grupo Especial, a Independente tem se destacado como uma escola que canta bastante e de maneira uniforme, sem deixar a peteca cair em ala alguma. Tal situação, mais uma vez, se repetiu em 2024. É bem verdade que, à priori, o canto não foi tão impactante quanto nas demais apresentações da Tricolor no Anhembi (talvez porque a reportagem acostumou-se a ouvir os componentes a pleníssimos pulmões), mas tal quesito não deve ser uma preocupação da instituição no dia da leitura das notas.

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Samba-enredo

Composto por Maradona, André Diniz, Evandro Bocão e Chitão. a canção da Independente em 2024 é muito elogiada por boa parte da comunidade carnavalesca paulistana. A obra também possui uma característica bastante marcante: mesmo falando de um tema afro, com mulheres que faziam parte de um exército, a música possui um tom bastante animado – algo que não é muito característico em temas com tal encaminhamento. O samba-enredo, por sinal, foi muito bem conduzido por Chitão Martins, compositor e intérprete do samba, tendo o DNA bastante “para cima” que já se tornou marca registrada do artista – ajudado por um carro de som que tinha outro já histórico nome da agremiação: Rafael Pinah, retornando à escola. A Ritmo Forte, pelo segundo ano comandada por Mestre Cassiano Andrade, não deixou de executar algumas bossas (embaladas pelo clima afro do desfile), mas focou em sustentar o samba para que o componente tivesse ainda mais facilidade em cantá-lo.

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Evolução

Sem ter problema algum com quesitos mais técnicos em 2023, a Independente teve um desafio mínimo em relação a tal segmento. Encerrando o desfile com uma hora e quatro minutos, é de se imaginar que, em algum momento, a Independente tenha apertado o passo para não ter problemas. E, de fato isso aconteceu. O segredo para que tal mudança fosse quase que imperceptível foi o momento no qual tal rápida celeridade instantânea aconteceu. Ao invés de ser no final (quando todos já começam a prestar atenção naturalmente em eventuais mudanças na Evolução), a Tricolor teve uma discreta e progressiva mudança ao longo do desfile, tornando tal eventualidade quase irrelevante. Outro bom momento do quesito foi o recuo da bateria: com um movimento simples quando a ala à frente ainda estava na metade do box, demorou cerca de oitenta segundos para que o agrupamento que estava atrás tomasse todo o espaço – em tempo bastante adequado.

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Outros Destaques

Ainda na concentração, a Ritmo Forte, comandada por Mestre Cassiano Mendes, teve uma ótima sacada para introduzir a canção: com exceção do surdo de terceira e da cuíca, todos os ritmistas batiam palmas sincronizadas no ritmo do samba-enredo fazendo um círculo imaginário à frente do corpo. Sobre o segmento, por sinal, vale destacar a rainha dos ritmistas, Mileide Mihaile, única na corte da bateria.