A União da Ilha do Governador cruzou a Marquês de Sapucaí como a sexta agremiação da primeira noite de desfiles. Com o enredo “Viva o hoje! O amanhã? Fica pra depois!”, desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Ferreira, a escola não apenas apresentou um tema; ela propôs um manifesto contra a ansiedade dos novos tempos, buscando no brilho dos astros e na força do subúrbio a justificativa para a celebração imediata. A agremiação entregou um conjunto plástico criativo, coroado por uma comissão de frente teatral e um casal de mestre-sala e porta-bandeira que flutuou em tons de prata.
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Entretanto, se o enredo pregava o “viva o hoje”, o rigor do cronômetro e a organização da pista foram os grandes vilões da jornada. Entre o brilho de uma Rainha de Bateria resiliente e o simbolismo emocionante do encontro entre gerações, a escola deixou pelo caminho pontos preciosos em evolução e harmonia, evidenciados por buracos no cortejo e um canto que, embora correto, não atingiu a explosão necessária para contagiar a avenida em sua totalidade.
COMISSÃO DE FRENTE
Do coreógrafo Junior Scapin, os “Mensageiros do Tempo” protagonizaram uma abertura de forte apelo visual e rigor técnico. Os 14 bailarinos iniciaram a apresentação rentes ao solo, em uma metáfora ao nascimento do tempo, utilizando figurinos em tons de ouro velho que remetiam a uma elegância clássica. A coreografia foi marcada por uma dinâmica de movimentos expansivos e sincronia.

O uso estratégico de um tripé dourado serviu como elemento cenográfico, onde a narrativa se aprofundou com o surgimento de um livro representando o “Presente”, que colocou em xeque a moralidade e a pressa humana, ilustrada por três bailarinos em trajes íntimos que encenavam o pudor e a surpresa. O clímax da apresentação, que uniu tecnologia e pirotecnia, disparou faíscas brilhantes enquanto um foguete de fogos de artifício cortava o céu. Apesar de uma boa estética, o enredo não ficou muito claro por meio da comissão.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal, João Oliveira e Duda Martins, surgiu blindado por um figurino inteiramente prateado, evocando a luz fria, porém intensa, dos cometas. O bailado foi uma lição de etiqueta carnavalesca. João Oliveira executou um cortejo tradicional, em que cada giro servia como escudo protetor para o pavilhão.

Duda Martins, com uma postura altiva e segura, demonstrou controle técnico. Seus giros, potentes e precisos, não permitiram que o pavilhão enrolasse em nenhum momento, mantendo a bandeira desfraldada. A conexão visual entre os dois foi o ponto alto, revelando uma sintonia lapidada.
HARMONIA E SAMBA
O samba-enredo foi conduzido com garra pelo intérprete Tem-Tem Jr., que encontrou na bateria do mestre Marcelo Santos o suporte ideal. A bateria, aliás, foi o relógio mais preciso da escola, com um trabalho consistente e bossas que respeitavam a melodia, dando o tom da resistência.

No entanto, a harmonia vocal da escola apresentou um comportamento binário. Enquanto algumas alas da comunidade sustentavam o canto com vigor, percebeu-se que, em outras, houve um silêncio que contrastava com a potência da obra. Faltou aquela explosão de canto uníssona, necessária para elevar a harmonia ao patamar de nota máxima absoluta, embora a qualidade musical da ala de intérpretes tenha sido inquestionável.
EVOLUÇÃO
O quesito evolução foi o calcanhar de Aquiles da agremiação. O início fluido e empolgante deu lugar a certa desorganização conforme a escola avançava.
Próximo ao terceiro módulo de julgamento, as alas perderam o espaçamento ideal, criando um efeito visual de aglomeração em alguns pontos e rarefação em outros.

O erro mais grave ocorreu diante do segundo módulo, onde um buraco se abriu à frente da segunda alegoria, comprometendo a continuidade visual do desfile. O excesso de pessoas de apoio em determinados setores também prejudicou a estética da evolução, tornando o passo da escola ora rígido, ora apressado para cumprir o cronômetro.
FANTASIAS E ALEGORIAS
O abre-alas, em azul profundo com detalhes dourados, trouxe uma volumetria impressionante, embora um problema estrutural na parte superior, que apresentava um aspecto de “afundamento”, tenha gerado preocupação técnica.

O segundo carro foi uma celebração à opulência, com cores claras e acabamento impecável, servindo de palco para destaques luxuosos. Já a terceira alegoria rompeu com a tradição ao mergulhar em uma paleta de cores neon e prata, desenhando um futuro lúdico e criativo. Nas alas, a utilização de cores primárias e o uso de esplendores com grande volumetria garantiram um efeito de mar de fantasias.
OUTROS DESTAQUES
A rainha Gracyanne Barbosa deu uma aula de profissionalismo. Mesmo calçando tênis devido a uma ruptura de tendão, sua presença foi magnética. O carisma e a técnica de samba no pé compensaram a ausência do salto alto, provando que a realeza está na postura, e não no calçado.

Por fim, a última ala da escola entregou o golpe de mestre emocional: a união entre as crianças da escola e a Velha Guarda. Ver os guardiões da memória caminhando lado a lado com a promessa do futuro foi a materialização perfeita do enredo. A Ilha mostrou que, embora o relógio da avenida possa ser cruel, a alma da comunidade é atemporal.










