Por Luiz Gustavo e Gabriel Radicetti

No último domingo, a Unidos do Viradouro pisou na Avenida Amaral Peixoto para mais um ensaio de rua, em Niterói, visando ao desfile oficial. Faltando pouco menos de um mês para a apresentação na Marquês de Sapucaí, a escola realiza os ajustes finais, lapida os quesitos e fortalece o que já tem de alto nível. O último ensaio mostrou uma agremiação com apetite de avenida, pisando como um furacão na pista para um treino que teve clima de jogo oficial, tamanha a energia exibida pelos componentes numa largada de rasgar o chão. A vontade foi tamanha que, em determinado momento, a vermelho e branco acelerou o passo, assentando o ritmo com o passar do ensaio, mas sem perder a forte pegada. Além do ensaio quente, o grande destaque foi a apresentação do casal Julinho e Rute, sempre unindo entrosamento impecável, técnica e energia. A Viradouro buscará seu quarto título do Grupo Especial com uma homenagem dentro do seu quintal, falando de mestre Ciça, com o enredo “Pra cima, Ciça!”, desenvolvido pelo carnavalesco Tarcísio Zanon. A agremiação será a terceira escola a desfilar na segunda-feira de carnaval.

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Fotos: Luiz Gustavo e Gabriel Radicetti/CARNAVALESCO

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Julinho e Rute são a exemplificação máxima da definição de casal que se comunica com o olhar. Dançando juntos desde 2008, eles já conhecem todas as características, forma de dançar e gestual, e encaixam tudo isso numa apresentação com uma sintonia fina impressionante. A dança leva uma pitada de elementos coreográficos inspirados na letra do samba, mas o grosso da série é mais tradicional. O início da apresentação já contou com rodopios com alto nível de execução por parte de Julinho, entre eles um giro com apenas o pé esquerdo no chão, enquanto Rute realizava seus giros em progressão com a precisão característica.

Aliás, impressionou a quantidade de giros executados por Rute na primeira parte da série, todos com muita elegância, controle do corpo e bandeira firme. Na segunda passada do samba, o casal executou uma dança com elementos de balé, seguida de uma sequência de giros terminada em sentidos diferentes e elementos de dança de terreiros, como o xirê, no trecho “reza perfeita pra me completar, feiticeiro das evocações, atabaque mandou me chamar, pra macumba jogar poeira”.

Depois, uma sequência de giros soltos em torno do próprio eixo levantou o público com a energia com que os gestos foram executados. A condução de Julinho na parte final do samba foi extremamente elegante, antecedendo a finalização da série com mais giros em progressão no refrão de cabeça, todos executados com imensa precisão. Uma apresentação limpa, com coreografias pertinentes e postura corporal perfeita.

HARMONIA E SAMBA

A arrancada da Viradouro em seu ensaio mostrou do que essa comunidade é capaz, um canto que simplesmente já entrou explodindo a Amaral Peixoto com tamanha intensidade. Foi uma largada de desfile oficial, com os componentes louvando um homenageado que faz parte da mesma família, o que acrescenta forte componente emocional ao canto da escola. A primeira ala é a ala das crianças, o que poderia representar um risco ao canto logo na abertura do desfile, mas a garotada deu um banho, entoando o samba inteiro e servindo de exemplo para as alas que vinham em sequência.

O canto seguiu muito forte na totalidade da escola, com praticamente nenhum componente destoando ou mostrando dificuldade para acompanhar o samba no gogó. Os momentos em que a bateria parava no trecho “sou eu, mais um batuqueiro a pulsar por você” proporcionaram um clímax no canto e na comunicação com o público que assistiu ao ensaio e veio junto com a agremiação, alcançando o êxtase no refrão de cabeça.

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Wander Pires e seus apoios do carro de som mostram total domínio do samba, explorando as boas variações melódicas que a obra possui. O trecho “reza perfeita pra me completar, feiticeiro das evocações…”, que possui um canto mais corrido, está muito mais fluido, sem atropelos. O refrão de cabeça é de uma comunicação que ultrapassa a pista de ensaio e alcança o público, potencializando uma obra que está na prateleira de cima do Grupo Especial em 2026.

EVOLUÇÃO

Como um furacão presente na letra do samba, a Viradouro evoluiu na pista nos primeiros minutos mastigando e saboreando o asfalto da Amaral Peixoto, com os componentes dando uma aula de preenchimento de pista e movimentação solta, escola brincando na avenida. Só que esse ritmo acelerado fez a vermelho e branco apressar o passo em demasia e imprimir uma correria por alguns minutos, com alas passando muito rapidamente. Com a aproximação da bateria no segundo recuo, o ritmo da escola assentou e a evolução foi mais constante, seguindo com muita energia e leveza por parte dos componentes. A lateralidade e o uso de todo o corpo foram um grande mérito dos desfilantes, dando volume e fazendo a passagem da escola ser pulsante o tempo todo. Como de costume, os minutos finais do ensaio da Viradouro foram de comemoração e reverência ao mestre Ciça.

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O diretor executivo da agremiação, Marcelinho Calil, falou sobre a temporada de ensaios. “O balanço é o melhor possível, a escola já tem na Amaral Peixoto a sua casa, o processo tem cada etapa a ser cumprida, seu período de amadurecimento. A gente chega em janeiro praticamente pronto, na minha concepção, com o nível de exigência que a gente está acostumado. Tecnicamente, a escola está em um altíssimo nível, aproveitando um enredo e um samba que nos proporcionam um fator de emoção muito forte; a escola está vibrando e feliz por ser Viradouro e cantar uma homenagem em vida a um dos maiores mestres de bateria da história do carnaval. O ensaio hoje foi espetacular, estamos vindo muito redondos nos últimos ensaios, o que se tem a ajustar é em um campo mínimo. Conseguimos trazer na Amaral Peixoto um número de componentes muito parecido com o da Sapucaí, e essa avenida tem uma configuração muito parecida com a Marquês de Sapucaí, de forma que a escola consegue desenvolver quase na sua plenitude o que acontece no desfile. Fazendo um grande ensaio aqui, como tem feito e como foi hoje, a Viradouro consegue ficar pronta para fazer o carnaval do nível que a gente está acostumado e buscar mais um título”, declarou.

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OUTROS DESTAQUES

Ciça é o centro das atenções. O homenageado se mantém compenetrado durante todo o ensaio, mas, no final, o Caveira é só sorrisos. A bateria da Viradouro se mostra encaminhada para o desfile oficial sob a batuta do mestre e do enredo.

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A escola veio com um grande time de passistas, uma ala com alguns passos ensaiados e outra ala com samba solto, ambas cantando muito o samba da agremiação de Niterói.
A comissão de frente, comandada por Rodrigo Negri e Priscilla Mota, não esteve presente no ensaio, deixando a cabeça da escola para o casal de mestre-sala e porta-bandeira.