Por Letícia Sansão, Ana Carla Dias e Will Ferreira

Arquibancadas mais cheias, concentração lotada e uma comunidade em estado de festa. Foi nesse cenário que o Vai-Vai realizou seu último ensaio técnico no Anhembi antes do desfile oficial. Última escola a ensaiar na sexta-feira, a agremiação transformou a noite em um verdadeiro espetáculo popular, impulsionada pelo forte engajamento da comunidade e por um samba que cresce de forma consistente sempre que é cantado.

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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

Com o enredo “A Saga Vencedora de um Povo Heroico no Apogeu da Vedete da Pauliceia”, a Escola do Povo revisita, sob a ótica cinematográfica, a memória dos Estúdios Cinematográficos Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, além de narrar o desenvolvimento industrial e plural do povo são-bernardense. O Vai-Vai desfilará pelo Grupo Especial, sendo a sexta escola a cruzar o Anhembi no dia 13 de fevereiro.

COMISSÃO DE FRENTE

A comissão de frente manteve a leitura direta já apresentada no primeiro ensaio. A coreografia retrata operários de São Bernardo em uma narrativa que simula a construção de um filme, dialogando diretamente com a proposta do enredo.

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Os componentes executam uma dança leve, com movimentos que remetem à encenação cinematográfica, vestindo figurinos de operários constantemente citados na letra do samba. Ao passar pelo Setor E, a comissão realiza a coreografia de forma estática, o que proporciona maior fluidez e clareza nos movimentos, permitindo melhor leitura do conjunto coreográfico.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Pedro Trindade e Mirelly Nunes confirmaram o alto nível apresentado no primeiro ensaio. Se anteriormente o vento interferiu na apresentação, nesta segunda passagem, sem fatores climáticos adversos, o casal conseguiu executar a série com ainda mais precisão e segurança.

Mirelly destacou a diferença entre os ensaios: “Foi totalmente diferente do nosso primeiro ensaio. Antes tinha aquela tensão da primeira descida, da preocupação com o quesito. Agora foi mais tranquilo, conseguimos nos soltar mais, sempre focados no julgamento. A expectativa está lá em cima”.

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Pedro também fez um balanço do processo: “Fizemos ajustes necessários na coreografia e no andamento. Na reta final o cansaço aparece, mas o foco é total. A nossa meta é chegar no dia com alegria, leveza e sensação de dever cumprido. Hoje vencemos mais uma etapa e saímos muito felizes”.

Os giros do casal chamaram atenção pela sincronia e controle técnico. A condução do pavilhão foi segura e elegante, evidenciando entrosamento e estabilidade no quesito. A apresentação se destacou pela leveza, precisão e ausência de intercorrências.

HARMONIA

A harmonia segue como um dos grandes trunfos da escola e justifica o título de “Escola do Povo”. A comunidade abraça o samba e responde de forma imediata ao intérprete. Mesmo sendo a última escola da noite, o Vai-Vai manteve alto nível de canto durante todo o percurso, transformando o ensaio em um espetáculo à parte.

Uma das bossas mais impactantes aconteceu no refrão de cabeça, com a pausa das marcações e dos instrumentos leves, restando apenas caixas, repiques e surdos de terceira. A retomada completa da bateria no verso “meu pavilhão está em cartaz” gerou forte reação nas arquibancadas e um verdadeiro frenesi na comunidade da Saracura.

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Algumas alas se destacaram pelo canto mais forte, como a “Somos Todos Irmãos”, que representa os imigrantes e desfila com malas nas mãos, em uma leitura viva e sensível do enredo. O samba, que inicialmente gerava dúvidas quanto ao potencial de empolgação, foi totalmente assimilado e hoje é cantado com entrega por toda a escola.

EVOLUÇÃO

A evolução segue como ponto de atenção, embora esteja sob controle. O tempo de desfile foi de 1h05min47s, novamente muito próximo do limite, repetindo o padrão do primeiro ensaio, quando a escola fechou em torno de 1h06.

Em ambos os ensaios houve a parada da comissão de frente no Setor E, agora claramente intencional. A proposta é que, no verso “Vai parar geral”, toda a escola interrompa o andamento com os punhos cerrados ao alto, simbolizando resistência e luta contra a opressão, conforme sugere o samba-enredo.

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Apesar da parada, não houve abertura de buracos significativos. Em alguns momentos foi possível notar espaçamento de até quatro grades, o que não caracteriza buraco, mas acende um alerta para ajustes finos no controle da evolução. Em contrapartida, a escola apresentou uma evolução solta, com ritmo e diálogo direto com a levada da Bateria Pegada de Macaco.

SAMBA-ENREDO

O samba se confirma como um dos mais “grudentos” da temporada. De fácil assimilação, mobiliza arquibancadas e comunidade na avenida. O refrão funciona como motor de empolgação, mantendo a escola conectada do início ao fim do ensaio.

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Luiz Felipe, intérprete do Vai-Vai, se destacou pela performance expansiva e pelo constante diálogo com o público. Seu carisma contribuiu diretamente para elevar o nível de resposta da comunidade, sendo difícil passar por um setor sem interação direta entre carro de som e arquibancada.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Pegada de Macaco”, comandada historicamente por mestre Tadeu e, na última década, por mestre Beto, apresentou arranjos que mesclam a tradição vaivaiense com tendências modernas das baterias contemporâneas. Um dos destaques foi a chamada de repique na arrancada do samba: ousada, complexa e marcada por muitas notas executadas “na lata”.

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Mestre Beto avaliou positivamente o desempenho: “No ensaio passado eu disse que tinha sido bom e que este seria ótimo. Cumprimos o combinado. Tivemos mínimos problemas, mas foi ótimo. A bateria me surpreendeu hoje”.

As musas do Vai-Vai também chamaram atenção pelos figurinos criativos, com referências diretas ao universo cinematográfico, como Gabi Evaristo, com alusões à pipoca, e Thalita Araújo, com capacetes de obra brilhantes e faixas luminosas que remetem aos trabalhadores.

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