Por Júnior Azevedo, Matheus Morais, Luiz Gustavo e Juliana Henrik
A União do Parque Acari foi a segunda escola a se apresentar neste sábado e deixou uma impressão majoritariamente positiva em seu ensaio técnico. A agremiação da Série Ouro leva para o Carnaval 2026 o enredo “Brasiliana”, desenvolvido pelo carnavalesco Guilherme Estevão, apostando na valorização da cultura popular e do teatro brasileiro. Terceira escola a desfilar na sexta-feira de carnaval, a Acari mostrou organização, bons momentos estéticos e teve como grandes trunfos da noite o casal de mestre-sala e porta-bandeira e a comissão de frente. Mesmo com pontos a ajustar, especialmente no canto da comunidade, o ensaio evidenciou que a escola tem bases sólidas e destaques capazes de sustentar um bom desfile na Sapucaí.
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MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal foi, sem exageros, o maior destaque da União do Parque Acari no ensaio. Amanda Poblete está de volta à Sapucaí como primeira porta-bandeira após a ausência no ano passado e fez um retorno em altíssimo nível. Com um bailado exuberante, leve e tecnicamente refinado, Amanda brilhou em cada giro. Renan, por sua vez, passou com extrema segurança, elegância e domínio dos movimentos. O entrosamento da dupla impressiona: para um casal estreante, a sintonia é rara. Quem os viu dançando juntos durante o ensaio facilmente apostaria que já dividem a função há muitos anos. Deram um verdadeiro show e elevaram o nível técnico da apresentação da escola.

“Costumo ver vídeos e estudar bastante, mas o sentimento do ensaio, quando ele é bem feito e bem executado, no sentido de que tudo o que foi proposto foi colocado em prática, é gratificante. Cruzei a linha final muito feliz e com a certeza de que estamos prontos para o desfile. Agora é realmente só contar os dias que faltam. Como a Amanda falou, a gente sempre busca o ápice, o nosso melhor momento para o desfile, tanto físico quanto mental. Sabemos que não vamos alcançar a perfeição, então esperamos chegar à perfeição de sentimento com quem está nos assistindo. Queremos que o público sinta o que tentamos transmitir: esse amor e carinho que temos pela nossa arte. A gente se cobra muito ao longo do ano e do processo, e a nossa maior preocupação é o que as pessoas vão sentir ao ver a nossa arte, porque a arte não é para a gente, é para os outros”, disse o mestre-sala.

“É um sentimento de muita satisfação, alegria e recompensa pelo trabalho. A gente vem trabalhando intensamente durante todos esses meses, vindo à Sapucaí incansavelmente e treinando fora dos ensaios para ter preparo físico e psicológico. Chegar aqui e conseguir executar tudo o que propusemos, de forma redondinha, envaidece no sentido positivo, por mostrar que o trabalho está no caminho certo. Como dançarinos, a gente sempre busca a perfeição, sabendo que nunca vai chegar nela. O caminho certo é continuar tentando acertar ainda mais em cada ensaio e em cada movimento. O ‘100%’ é sempre o melhor que a gente pode fazer, sabendo que estamos respirando juntos, nos olhando e seguindo o compasso certo. Isso é muito prazeroso para a gente”, completou a porta-bandeira.
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão de frente assinada por Fábio Batista mostrou que sua contratação foi um acerto. Especialista em danças de matrizes africanas e com passagens por escolas como Imperatriz Leopoldinense e Paraíso do Tuiuti, o coreógrafo desenvolveu uma performance potente, bem executada e fluida, dialogando diretamente com o enredo “Brasiliana”. Os componentes exibiram belas fantasias e pinturas corporais, reforçando a africanidade da proposta com muita intensidade. A coreografia trazia um rei central portando seu cetro, organizando a narrativa cênica, e teve como grata surpresa a participação da atriz Jennifer Dias, que surgiu durante a apresentação com precisão e contundência nos movimentos, acrescentando força dramática ao conjunto.

“Nunca saí tão feliz da Marquês após um ensaio técnico. É tudo muito tenso, mas esse elenco com o qual estou trabalhando é completamente novo, com muita energia. Sem desmerecer os outros elencos, com os quais sempre fiz trabalhos maravilhosos, neste eu me encontro muito por causa da homenagem ao show brasileiro. Eu me vejo nessa ancestralidade que o brasileiro emana para nós, que somos artistas de devoção. É um lugar que me emociona, que me motiva. É um desafio diferente, porque parece uma zona de conforto, mas não é. Trabalhei com o show brasileiro grande parte da minha vida, viajando por vários países. Quando a gente traz isso para um show inaugural da profissão que um dia escolhi, é lindo de fazer, é muito gostoso. A gente vai melhorar muito a dinâmica e também o impacto do cansaço, porque é uma coreografia de muito vigor. Tem salto, tem pegada, tem padedê, tem chão, tem balanço, e a gente está praticamente sem figurino. Vamos para casa fazer alguns ajustes, tirar excessos, reduzir repetições. Vou acrescentar agora uma coreografia de andamento e descanso, para que a comissão consiga chegar melhor ao jurado. Acredito que, este ano, a Acari vem com a proposta de ampliar sua participação dentro do grupo da Série Ouro. É uma associação nova, fruto da junção de duas comunidades, e acho muito bonito juntar forças para somar. A escola vem caminhando para um amadurecimento maior no conceito dos desfiles, e eu também venho para ajudar, de alguma maneira, a encontrar uma característica própria para a Acari e contribuir com essa perspectiva de futuro dentro do carnaval”, afirmou o coreógrafo Fábio Batista.

HARMONIA E SAMBA
Este foi o ponto mais frágil do ensaio da União do Parque Acari. A harmonia sofreu com a falta de empolgação dos componentes no canto do bom samba assinado por Moacyr Luz, Fred Camacho e Gustavo Clarão. Enquanto as primeiras alas até apresentaram um canto razoável, as últimas alas mostraram desânimo evidente. Já na parte final do desfile, era possível ver componentes completamente calados e até mexendo no celular durante a apresentação, o que comprometeu bastante o quesito. O samba tem beleza melódica, mas não consegue contagiar a escola como um todo. Nem mesmo o bom trabalho dos intérpretes Leozinho Nunes e Tainara Martins foi suficiente para levantar a comunidade. Houve momentos pontuais de maior fervor, sobretudo nas alas iniciais, mas essa energia não se espalhou. Em contrapartida, a escola manteve um bom ritmo de desfile, sem correria, e apresentou organização satisfatória entre as alas.

“A comunidade cantou, todo mundo muito entrosado. O carro de som é unido, a gente está com uma equipe maravilhosa entoando esse samba, que é lindo. Ele fala de cultura, e é só isso que a Acari sabe fazer: cultura, falar sobre redes culturais. Eu me entreguei, me entrego de corpo e alma para essa comunidade, que merece sempre mais e mais da gente. A gente não consegue ver a escola inteira da posição em que fica, mas, no canto, deu para sentir. A galera se entregou de corpo e alma. Foi o melhor ensaio técnico que eu já fiz aqui na Marquês de Sapucaí. Foi bacana. Faltam poucos dias e, não é modéstia, mas acho que, se melhorar a pista, como o Léo falou, a gente consegue enxergar melhor a desenvoltura do ensaio e do desfile. Mesmo assim, estamos tranquilos, certos de que temos uma equipe maravilhosa, com pessoas profissionais e competentes, para melhorar ainda mais e entregar algo muito mais bonito do que foi apresentado hoje. O Acari está ocupando um lugar que já era dele há muito tempo. Agora estamos aqui podendo honrar e representar a nossa comunidade”, comentou a intérprete Tainara.

“Pode-se esperar uma escola muito aguerrida, muito forte, buscando sempre os lugares mais altos da colocação. Estar aqui já é especial. Claro que, se for para o Especial, amém, glória a Deus, é para isso que a gente trabalha. Mas estar na Marquês de Sapucaí já é especial”, completou Leozinho Nunes.
EVOLUÇÃO
No quesito evolução, a União do Parque Acari não apresentou problemas graves. A escola desfilou de forma relativamente coesa, com espaçamento adequado e boa leitura visual. As alas avançaram de maneira organizada, sem buracos significativos ou atropelos, permitindo que o conjunto fluísse com naturalidade. Ainda há margem para ajustes finos, especialmente na padronização de andamento entre os setores, mas o desempenho geral foi seguro e consistente para um ensaio técnico.

“Foi o segundo passo para o nosso carnaval; o primeiro foi no minidesfile, em que fizemos uma bela apresentação. Agora, no ensaio técnico, eu gostei. A escola estava empolgada. Faltaram algumas pessoas por causa do tempo, já que ontem choveu muito e hoje também ameaçou, então o pessoal ficou um pouco receoso. Mesmo assim, foi positivo. Temos que melhorar e vamos fazer mais ensaios para isso, mas o saldo foi positivo. Repito o que o Yago falou: a gente precisa melhorar no canto, e a gente sabe disso. Hoje foi o segundo passo para o nosso Carnaval, mas sabemos que há pontos a acertar, e um deles é o canto. Vamos ajustar isso ainda mais, mas estou muito satisfeita. A comunidade está cantando, precisa melhorar, mas foi muito positivo. Para o dia do desfile, podem esperar um espetáculo. Nossos carros estão maravilhosos, nossas fantasias estão belíssimas. O Guilherme é um carnavalesco muito competente, jovem e talentoso. Sabemos que os carnavais dele são sempre um grande espetáculo, e vem surpresa aí no Acari”, prometeu Cida, uma das diretores de carnaval.
OUTROS DESTAQUES
A bateria, comandada pelos mestres Daniel Silva e Erik Castro, foi um dos pontos altos da apresentação. Com bom ritmo, bossas bem encaixadas e execução precisa, contribuiu de forma decisiva para o desenvolvimento do samba. O carro de som também merece destaque, funcionando de maneira eficiente ao longo de todo o ensaio. Leozinho Nunes e Tainara Martins tiveram bom desempenho, valorizando a obra e evidenciando a beleza do samba, mesmo diante das dificuldades de resposta da comunidade.
“O que vai para o desfile é o que foi apresentado hoje. Estou satisfeito. A bateria entregou o que era esperado. A gente trabalha muito, ensaia muito, sempre em busca do objetivo, que é garantir os 40 pontos para a escola”, comentou mestre Daniel.

“Estamos nos adaptando a esse novo sistema de som; é um formato novo. O pessoal da equalização está com um pouco de dificuldade de comunicação, acho que pode ser isso que está gerando um pouco de delay, mas o formato é bom, vem para melhorar. Tudo o que vem para atualizar o carnaval é sempre bem-vindo”, citou mestre Erik.
No balanço final, a União do Parque Acari mostrou que tem destaques importantes e um conjunto promissor. Ajustando o canto e buscando maior envolvimento dos componentes com o samba, a escola tem tudo para transformar potencial em um desfile competitivo.
“Foi um ensaio muito positivo. Como minha diretora falou, temos pontos a melhorar e a acertar, mas só tenho a agradecer a essa comunidade, principalmente à minha harmonia, à nossa comissão e ao nosso casal, que foram sensacionais. Colocar o Acari na avenida vai ser maravilhoso. Acredito que precisamos, principalmente, de muito mais ensaios, colocar a comunidade para cantar e trazê-la para mais perto da escola, de certa forma. Esse é o ponto principal e é pelo que estamos batalhando bastante, junto com a presidência e com toda a comunidade, para alcançar. Para o desfile, acredito que a gente vem para surpreender. O Acari é uma escola que chegou à Sapucaí fazendo bons desfiles, como com o Ilê e o Cordas de Prata. Agora a gente vem para fortificar o nosso lugar aqui dentro”, garantiu yago, diretor de carnaval.





