A décima terceira escola a cruzar a avenida no primeiro dia da Série Prata do Carnaval carioca fez mais do que desfilar: contou uma história. A União de Jacarepaguá levou para a Intendente Magalhães o enredo Quingombô: Entre Dois Mundos, assinado pelo carnavalesco Ney Jr., e transformou o quiabo em protagonista de uma travessia ancestral na passarela popular do samba.

O fruto, presença marcante na culinária brasileira, surgiu na avenida como elo entre continentes. Originário da África, o quiabo atravessou o oceano não apenas nos porões dos navios, mas entranhado na memória e na resistência de mulheres escravizadas. Diz a tradição que suas sementes vinham escondidas nas tranças, guardadas como quem guarda um futuro possível. Entre dois mundos, o alimento virou herança.

A escola apresentou a íntima relação do quiabo com o sagrado. Nas religiões de matriz africana, ele não é apenas ingrediente: é elemento ritual. Na leitura carnavalesca, ganhou forma de devoção ao orixá Xangô, no amalá que lhe é ofertado, e também no caruru dedicado aos ibejis, símbolo de pureza e alegria. Cada ala parecia temperada de fé, cada fantasia bordada de memória. A escola de Campinho, mesmo com algumas falhas no percurso, conseguiu finalizar seu desfile dois minutos antes do tempo máximo.

COMISSÃO DE FRENTE

A comissão de frente, assinada pelo coreógrafo Daniel Napoleão, abriu o desfile como um portal simbólico para o enredo. Em cena, o amalá de Xangô surgia como elemento central da narrativa, evocando o alimento sagrado partilhado também pelos ibejis.

As bailarinas representavam mulheres negras escravizadas que, em gesto de resistência silenciosa, teriam trazido sementes de quiabo escondidas nas tranças, numa travessia forçada da África ao Brasil.

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Fotos: S1 Comunicação/Divulgação

A coreografia reunia onze bailarinos e nove mulheres, que dançavam à frente de um tripé cenográfico representando o amalá oferecido ao orixá. Dentro da estrutura, dois bailarinos davam vida aos ibejis e interagiam com o público, distribuindo doces e gestos que reforçavam a cena. Visualmente, a comissão apostou em cores simbólicas: saias amarelas, túnicas verdes com acabamento em palha e folhagens adornando a cabeça das bailarinas. Nos pés, sandálias que, em alguns casos, destoavam na coloração — pequeno detalhe que chamava atenção em meio à harmonia do figurino.

Nas duas primeiras cabines de julgamento, a apresentação transcorreu sem intercorrências. Contudo, na terceira cabine, o tripé cenográfico enfrentou dificuldades: emperrou durante a evolução e acabou deslizando por conta do desnível da pista, chegando a tocar a grade lateral. O incidente provocou um breve desencontro na coreografia, exigindo jogo de cintura dos componentes para manter a fluidez da cena.

Ainda assim, a comissão demonstrou entrega e capacidade de reação, atributos essenciais quando o espetáculo precisa seguir apesar dos imprevistos da avenida.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Paulo Erick e Joyce Santos, surgiu na avenida como um dos pontos de maior brilho do desfile. Lindíssimos, desfilaram com elegância e segurança, exibindo um bailado sincronizado que evidenciava entrosamento, técnica e, sobretudo, sintonia. Havia carisma no olhar, firmeza nos giros e delicadeza nos movimentos, ingredientes que sustentam a nobreza do pavilhão.

O figurino apostava em cores vibrantes, com predominância de amarelo e coral, criando uma harmonia visual que dialogava com a ala que vinha logo atrás, como se o casal costurasse, com passos coreografados, a continuidade estética do cortejo.

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Um ponto que destoou foi a saia da porta-bandeira. Para o padrão tradicional, encontrava-se mais suspensa do que o habitual, deixando as pernas bastante aparentes, ainda que devidamente cobertas por meia-calça. O detalhe, embora não comprometesse a performance, chamou atenção em meio à elegância do conjunto.

No balanço final, prevaleceu a beleza da apresentação e a segurança de um casal que compreende a responsabilidade de conduzir o símbolo maior da escola com graça e imponência.

HARMONIA E SAMBA-ENREDO

A União de Jacarepaguá apresentou um desfile marcado pela alegria e pela leveza visual, mas o canto da comunidade ficou em um patamar apenas mediano. Curiosamente, o samba tinha potência para incendiar a avenida, tanto pela força da letra quanto pela condução do intérprete Rogerinho e seu carro de som, que cumpriram bem o papel de puxar a escola “para cima”.

O samba-enredo destacava-se pela construção interessante, explicando de forma criativa como o quingombô, o nosso quiabo, pode ser ofertado ao sagrado e também apreciado à mesa, na culinária brasileira. A obra conseguia equilibrar religiosidade e cotidiano, tradição e sabor, mantendo coerência com o enredo apresentado.

Em termos organizacionais, a escola mostrou-se bem estruturada. Alas alinhadas e fantasias bem distribuídas indicavam planejamento. No entanto, quando o assunto foi evolução e intensidade do canto, faltou aquele algo a mais, a vibração coletiva que contagia e transforma um bom desfile em um momento arrebatador.

No conjunto, ficou a imagem de uma apresentação correta e alegre, sustentada por um samba consistente, mas que poderia ter alcançado voos maiores caso a comunidade tivesse cantado com a mesma força que o enredo pedia.

ALEGORIAS E ADEREÇOS

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Com apenas duas alegorias na pista, a União de Jacarepaguá apostou na força das alas para preencher a avenida e conseguiu. Foram 11 alas bem coloridas, que garantiram volume visual.

O ponto alto ficou por conta da ala das crianças, vestidas de ibejis. Com fantasias cheias de simbolismo, elas arrancaram sorrisos do público e reforçaram o elo entre o sagrado e a alegria, marca presente em todo o desfile. A leveza da infância contrastava com a profundidade histórica do tema, criando um dos momentos mais sensíveis da apresentação.

Outro destaque foram as baianas, que desfilaram com fantasias especialmente caprichadas. Como guardiãs da tradição, reafirmaram a importância da ala, considerada o coração de qualquer escola de samba.

Mesmo com estrutura enxuta em alegorias, a escola mostrou que criatividade, cor e organização podem preencher a avenida com a mesma grandiosidade de um desfile mais robusto.

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OUTROS DESTAQUES

Entre os destaques do desfile da União de Jacarepaguá, a bateria Ritmo União, comandada por Mestre Demetrius, mostrou consistência e pulsação firme. Com fantasias em preto e vermelho, os ritmistas imprimiram cadência segura, em sintonia com o carro de som, sustentando o andamento do samba ao longo da avenida.

À frente da bateria, o rei Igor Almeida e a rainha Pamela Carvalho esbanjaram presença e energia, reforçando o brilho do segmento. A interação com os ritmistas e o público ajudou a manter o clima festivo que a escola propôs desde o início.

O ponto alto emocional do desfile, no entanto, ficou por conta da distribuição de doces promovida pelos componentes da comissão de frente e pela ala das crianças. O gesto simples transformou a avenida em extensão da festa, aproximando escola e público e dando materialidade ao simbolismo dos ibejis, numa celebração que misturou fé, doçura e pertencimento.