Os últimos meses da Portela têm sido marcados por resgate, pertencimento e afeto. No último ano, a Majestade do Samba viveu mudanças internas intensas: a volta de crias da casa para a equipe, luto e decisões estruturais. Em entrevista ao CARNAVALESCO, a vice-presidente Nilce Fran reflete sobre os sete meses de gestão ao lado de Junior Escafura. Para a lendária passista, a escola vive um momento de alegria e união que traz renovo para a comunidade.
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“Nesses sete meses, o portelense está vendo uma Portela mais feliz, uma Portela mais unida, porque é questão de vida. As pessoas não precisam se amar, mas precisam se respeitar, olhar na mesma direção, sabendo que o foco é a Portela, que o bem maior é a Portela”, comentou.
Dentre as mudanças, o luto. A partida do intérprete Gilsinho, em setembro, abalou os corações dos sambistas. Nos preparativos para o Carnaval 2026, a dor da perda foi um combustível para a escolha de um samba enérgico para o próximo ano. “Deus sabe o quanto a Portela precisava de um samba potente, que desse fôlego para a gente, e um intérprete como o Zé Paulo, com esse carisma e pertencimento”, disse a vice-presidente.
Além disso, a volta do mestre Vitinho, cria da Portela e ex-mestre do Império Serrano, traz um novo ar para a “Tabajara do Samba”, que embala os ensaios enérgicos que tomam a Estrada do Portela aos domingos. “Vitinho voltando para casa com esse ‘swing’, com esse molho, com essa energia… É uma Portela totalmente imbuída, sonhando, porque nós podemos sonhar. Uma Portela sonhando e voando, uma comunidade que canta como nunca. O saldo que eu tenho é de uma comunidade feliz”, contou ao CARNAVALESCO.
Ao refletir sobre o balanço dos últimos sete meses da nova diretoria, Nilce Fran considera a infraestrutura e a reorganização da escola como as principais mudanças da gestão.
“Nós chegamos há sete meses trabalhando na infraestrutura, na logística adequada, que precisava de mais amor, de limpeza, de arrumar. Falta ainda muita coisa. Mas as pessoas, os visitantes, veem como essa escola está leve. Nós tínhamos toda uma questão de vendedores, de relacionamento com a infraestrutura do carnaval, da realização do Carnaval, e o presidente da nossa diretoria procurou estreitá-los para que a Portela pudesse ter uma caminhada mais leve, ter mais crédito. Entenderem que, apesar da dificuldade, nós estamos aqui para respeitar o profissional, mas que a Portela precisa se reorganizar”, disse.
Além disso, a vice-presidente destaca uma gestão afetiva, voltada ao bem-estar do componente e que tem refletido na felicidade dos portelenses: “Nós trouxemos a comunidade para nós, dando mais ajuda. Todos viram que nós diminuímos a taxa da comunidade, doando uma blusa, doando uma água depois do ensaio, fazendo uma comida para a bateria, aquele profissional que sai do trabalho direto para a quadra e às vezes não almoçou direito, não sabe se vai jantar quando chega em casa, ou então chega alimentado e pode só dormir, descansar. Nós estamos buscando a revolução. O que eu tenho certeza é que a evolução está aí, a olho nu. Desde o cuidado com a quadra, ao cuidado com a nossa comunidade, com todos os nossos segmentos, com o nosso barracão, com os profissionais que nos atendem, e que nós precisamos que eles tenham a certeza de que a diretoria da Portela é uma diretoria idônea, uma diretoria de verdade”, declarou.
Destaque entre os componentes e nas redes, a distribuição de refeições para os ritmistas é um dos pontos altos das novidades da nova administração. Para Nilce Fran, esse cuidado é um resgate que atravessa a sua própria trajetória na escola.
“Eu cresci vendo a minha mãe, meu pai, fazendo a sopa, o macarrão com galinha para a bateria, e entendendo que o profissional precisava desse carinho. A comunidade é 60% de um desfile maravilhoso. Uma comunidade feliz é uma comunidade que canta. Nós trouxemos cada setor, cada segmento, cada ala para cá, abrimos o nosso coração e dissemos para essa comunidade: ‘nós estamos aqui por vocês’. A Portela é nossa casa, nós precisamos que vocês se sintam felizes para dar o retorno que a nossa escola precisa. A comunidade está nos dando essa resposta ao nosso carinho. E, sobre essa questão dos jantares, não eram nem jantares tão absurdos, mas muito bem feitos, comida feita com carinho. E nós víamos a felicidade do ritmista, do componente. É como em qualquer trabalho: se nós temos uma recíproca, se trabalhamos com amor, com um tratamento melhor, o trabalho sai melhor. Porque, às vezes, não é só o dinheiro. É a energia positiva, bons pensamentos, boas palavras”, explicou.
E, ao falar das cobranças vindas dos portelenses, Nilce não recebe como novidade e concorda: “Tem que cobrar mesmo, a Portela é uma escola pioneira na maioria dos quesitos do carnaval. A Portela é uma escola elegante, é a escola de Paulo, a escola de Natalino, de Dodô, de Monarco, de Doca, de Surica, de Dona Vilma Nascimento. De mulheres elegantes, pessoas vaidosas. A Portela é isso. E o portelense cobra diferente, briga, discute, e nós [eu e o Júnior Escafura] temos história nessa escola. Nós podemos ter falhas porque ninguém é perfeito, mas, mesmo com as nossas falhas, nós vamos buscar o acerto”, afirmou.
E, ao falar sobre o presidente, lealdade e irmandade é o que define o trabalho ao lado de Junior Escafura, desde a eleição em maio de 2025. Segundo Nilce, a parceria na diretoria da escola é a continuidade de uma história que já vem de outros carnavais.
“O Júnior tem uma história na Portela. Eu trabalhei com o pai dele, o Bolão [Luís Carlos Escafura], que foi o homem que me fez madrinha de bateria dessa escola em 1996 e 1997. Era um cara que era meu amigo, meu parceiro. E um dos motivos de eu estar aqui ao lado dele é essa lealdade que o pai dele tinha a mim, que eu tinha a ele. Eu estou trazendo essa lealdade para ele. Então, nós brigamos como irmãos, como filho e mãe, discordamos, concordamos, mas a paixão pela Portela é única. O Júnior ficou alguns anos fora da Portela, e onde ele estava eu ia atrás, dizendo para o povo lá onde ele estava que ele era portelense, que ele ia voltar para casa. Eu fazia uma arruaça, mas era uma arruaça de amor. É uma energia de amigos, de parceiros, e é uma energia que a Portela precisava. Eu disse o tempo inteiro na nossa campanha que a Portela Raiz era uma chapa de lealdade, de parceria. E é isso. E tem que ser assim”, disse.
No primeiro domingo do ano, a Portela voltou à rua com um ensaio de lavar a alma. A chuva banhava Madureira, mas não desanimou os componentes, que cantavam e pulavam durante todo o percurso. Para Nilce Fran, o cenário gera um bom presságio e expectativa para o carnaval que se aproxima.
“Na minha religião, chuva é prosperidade, é axé, energia. E você vê a Estrada do Portela lotada, com um componente cantando como nunca, saltando do chão. Você vê uma escola quicando de energia, de amor. Temos um barracão a todo vapor, mesmo com todas as dificuldades que todas têm, o barracão, em pleno início de janeiro, preparado para atender a sua comunidade. Bateria pronta, baianas prontas, passistas prontos, algumas alas, carros… A expectativa é a melhor possível. Eu aprendi com alguns mestres que uma escola de samba tem que sair campeã de casa, de dentro do barracão, e a Portela vai sair campeã de dentro do barracão. O que vai acontecer nessa uma hora e vinte que nós atravessamos, Deus e nossos orixás estão nos reservando, mas a Portela vai preparada para disputar o título”, garantiu.









