Por Gustavo Mattos e Will Ferreira
A Uirapuru da Mocca realizou seu único ensaio técnico na última sexta-feira e deixou sinais claros de organização, identidade e envolvimento com o enredo “Maria Felipa – No Balanço da Maré, a Heroína da Independência”. A escola, presidida por Sidnei Aguilera de Almeida, o Sidão, levou para a pista um trabalho que já demonstra leitura de avenida, entendimento de proposta e pontos positivos que chamam a atenção de quem acompanha a preparação para o Carnaval 2026. A cronometragem oficial marcou 48 minutos, contando a partir do início do canto do samba-enredo, tempo bem administrado ao longo do percurso.
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão de frente, comandanda por Rosani Garcia, apresentou uma proposta bem definida, mesmo em ensaio, com elementos cênicos que ajudaram a marcar o espaço do tripé e organizar a movimentação no início do desfile. Os integrantes carregavam um tipo de escudo, utilizado como elemento simbólico e também como recurso coreográfico, reforçando a ideia de proteção, luta e resistência, diretamente conectada à figura de Maria Felipa. Rosani Garcia optou por trabalhar duas coreografias distintas ao longo do ensaio: uma executada durante uma passagem inteira do samba e outra apresentada na segunda passagem completa, o que demonstra preocupação com variação, leitura dinâmica e ocupação de pista.

Os movimentos eram amplos, com deslocamentos bem pensados, giros coordenados e momentos de impacto visual quando os escudos eram utilizados em conjunto. A vestimenta seguia uma fantasia carnavalesca de inspiração afro-brasileira, com tecidos estampados em grafismos étnicos, amarrações no corpo e adornos que remetem à ancestralidade e à força coletiva. Mesmo sem o acabamento final de desfile, o conjunto já ajudou a criar atmosfera e facilitou a leitura da proposta artística da comissão. A escola levará para o Anhembi o enredo “Maria Felipa – No Balanço da Maré, a Heroína da Independência” e será a nona a desfilar.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Alexander Oliveira e Pamella Calzone apresentou um ensaio de alto nível técnico, com muita leveza, sincronia e conexão entre os dois. Alexander e Pamella mostraram entrosamento do início ao fim, sempre atentos um ao outro, com troca constante de olhares e movimentos que dialogavam diretamente com a melodia e os versos do samba. As coreografias foram executadas respeitando os tempos musicais, com giros bem marcados da porta-bandeira e conduções precisas do mestre-sala, que manteve a postura correta, proteção contínua do pavilhão e leitura clara de cada movimento. Não houve registros de bandeira enrolando, desencontros de mão, perda de eixo ou momentos em que um dos dois deixasse de se comunicar com o outro. Mesmo em ritmo de ensaio, o casal manteve energia elevada, sorriso constante e fluidez, valorizando o conjunto e contribuindo para elevar o nível artístico da apresentação.

HARMONIA
A harmonia da Uirapuru apresentou um panorama de envolvimento crescente ao longo da escola. A Ala do Adivan, primeira ala, trouxe coreografia e bastante animação, com integrantes demonstrando entrega corporal ao samba, embora o canto tenha soado com menor intensidade em alguns momentos iniciais. Ainda assim, a empolgação ajudou a manter a energia alta na largada do desfile.

Na sequência, a Ala das Baianas veio com uma representação simbólica forte, trazendo a fé como elemento central. As fitas do Senhor do Bonfim eram utilizadas como faixas, criando uma imagem de devoção e resistência, além de contribuírem para a leitura visual do enredo. O canto se mostrou mais uniforme, acompanhando bem o andamento imposto pelo carro de som. A Ala Estrela Dourada manteve boa regularidade vocal, enquanto o Bonde do Jethai trouxe animação e resposta rápida aos comandos do intérprete, reforçando trechos importantes do samba. Ao longo da escola, foi possível perceber alas cantando com mais força em pontos estratégicos do percurso, especialmente no segundo setor, onde o canto ganhou mais corpo e projeção.

O intérprete Thiago Brito teve papel central no rendimento geral, sustentando o samba com boa extensão vocal, chamadas claras e interação constante com a comunidade. O carro de som acompanhou com equilíbrio, garantindo base para que as alas se mantivessem conectadas ao canto. Houve pequenas oscilações naturais de ensaio, mas sem comprometer a leitura geral. Para uma escola que retorna ao Grupo de Acesso 2 após subir do Especial da Uesp, o conjunto demonstra potencial, ainda que existam ajustes necessários para quem almeja o Acesso 1.
EVOLUÇÃO
A evolução apresentou pontos positivos e aspectos que merecem atenção. A Ala do Adivan, mesmo com coreografia, mostrou momentos de compactação maior, exigindo correções rápidas para manter o espaçamento. As Baianas evoluíram de forma segura, com deslocamento constante e boa ocupação de pista, sem abrir buracos significativos.

A Estrela Dourada manteve ritmo regular, enquanto o Bonde do Jethai apresentou animação e movimentação solta, contribuindo para uma leitura mais leve do desfile. Em alguns trechos, foi possível notar alas ajustando o passo para preencher espaços e evitar buracos maiores, o que demonstra atenção da direção e resposta rápida dos componentes. De modo geral, a escola apresentou organização, alas alegres e integrantes sambando com liberdade, algo cada vez mais difícil de se ver. A presença de alas sem excesso de fileiras foi um ponto que valorizou a estética do desfile, reforçando a sensação de fluidez na pista.
SAMBA
O samba-enredo 2026 da Uirapuru da Mocca mostrou rendimento consistente ao longo do ensaio. A obra, que traz versos como “Pulsa minha ancestralidade” e “Sou eu Maria, mulher preta e heroína”, encontrou boa resposta principalmente no refrão principal, onde o canto cresceu e ganhou força coletiva. Em alguns momentos iniciais, o samba foi cantado de forma mais contida por determinadas alas, mas ao longo do percurso houve crescimento perceptível, especialmente com o reforço do intérprete e do carro de som, que souberam explorar os momentos de maior impacto melódico.

A letra permitiu identificação e entrega, principalmente nos trechos que exaltam a luta, a ancestralidade e o protagonismo feminino negro. A composição é assinada por Thiago Meiners, Thiago Brito, André Valencio, Marcel da Cohab, JB Laureano, Diego Laureano, Wil PZ, Daniel Rizzo, Sandra Aranha e Tubino, e mostrou potencial de crescimento conforme a escola avança nos ajustes finos de canto e interpretação coletiva.
OUTROS DESTAQUES
A bateria, comandada por Murilo Borges, apresentou duas bossas bem definidas, dialogando com ritmos da Bahia, como o Olodum, em sintonia com a proposta do enredo. As paradinhas foram bem encaixadas e sustentadas, mantendo o andamento do início ao fim do ensaio.

A rainha de bateria, Acássia Nascimento, teve presença marcante, interagindo com o público, cantando o samba e acompanhando as bossas com leitura corporal e energia. Sua roupa de ensaio valorizou os movimentos e ajudou na comunicação visual com a arquibancada.

A conversa da bateria com o público, aliada às bossas e à postura confiante do conjunto, contribuiu para manter a pista viva e conectada com quem acompanhava o ensaio, fechando a apresentação com sensação de identidade bem construída.









