Por Marcos Marinho, Luiz Gustavo, Matheus Morais e Guibsom Romão
A Unidos da Tijuca realizou, na Marquês de Sapucaí, o primeiro ensaio técnico rumo ao Carnaval 2026. A clareza dramatúrgica da comissão de frente, a afirmação elegante do casal de mestre-sala e porta-bandeira e o canto forte, já plenamente incorporado pela comunidade, desenharam um treino em que cada quesito parecia apontar para a mesma direção: a Tijuca reescreve a própria história na avenida. A escola será a última a desfilar na segunda-feira de carnaval, levando para a Sapucaí o enredo “Carolina Maria de Jesus”, assinado pelo carnavalesco Edson Pereira.
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COMISSÃO DE FRENTE
A comissão de frente da Unidos da Tijuca se destacou, desde o primeiro módulo de jurados, pela clareza dramatúrgica e pela coerência entre samba, coreografia e narrativa. Coreografada por Ariadne Lax e Bruna Lopes, a apresentação estabeleceu rapidamente para o público quem conduz a cena: Carolina Maria de Jesus.
Composta por 14 componentes, sendo uma pivô que encarna Carolina e outros 13 bailarinos com figurinos que dialogam com o da personagem principal, mesclados às cores da escola, a comissão construiu sua dramaturgia diretamente ancorada na letra do samba. No trecho do pré-refrão principal, “sou a liberdade, mãe do Canindé”, a pivô entrou em cena e se apresentou como Carolina. Em seguida, quando o samba convoca “muda essa história, Tijuca”, é ela quem chama os demais bailarinos para a cena, apresentando uma proposta cênica fundamental: é Carolina quem convoca a escola do Borel a reescrever sua própria história.

A dupla de coreógrafas propôs uma transição bem delineada entre dor, lamento e superação. No trecho “dele herdei também a cruz”, a pivô foi erguida pelos bailarinos homens em uma imagem de censura e opressão, acompanhada por um grito de dor, gesto que sintetiza a violência estrutural e institucional vivida pela escritora. Mais à frente, em “sonhei sobre as páginas da vida”, o grito retornou, agora como gesto cênico transformado: não mais lamento, mas grito de libertação, de superação e afirmação política.
O ponto alto da apresentação se dá quando as mulheres assumem o protagonismo da cena. À frente, elas conduziram a ação enquanto, ao fundo, os homens abriram uma bandeira com a imagem de Carolina e a frase “A luta continua”. Nesse mesmo momento, surge um gesto de forte materialidade simbólica: as bailarinas tiram de seus figurinos exemplares de Casa de Alvenaria, livro escrito por Carolina após deixar a Favela do Canindé e se mudar para Osasco. A escolha articulou trajetória, ascensão, memória e permanência da luta.
A movimentação corporal reforçou essa dramaturgia ao explorar, inicialmente, planos baixos e médios, em momentos associados à opressão e ao sofrimento, para depois avançar a posições mais eretas, com punhos cerrados e gestos afirmativos, sublinhando a letra do samba. Há ainda um cuidado técnico perceptível na adaptação da coreografia aos módulos: na cabine espelhada, a centralidade do movimento se projeta para frente; na cabine única, a orientação se ajusta diretamente à visão dos jurados. No clímax da cena, a pivô abre um pano com a frase “Quem inventou a fome são os que comê”, atribuída à escritora, reforçando o caráter político e direto da mensagem.
A comissão não aposta em efeitos espetaculares nem em surpresas mirabolantes. Sua força está justamente na simplicidade propositiva, na leitura acessível e na capacidade de contextualizar Carolina dentro da própria história da Unidos da Tijuca. Não se trata apenas de apresentar a escritora, mas de sugerir o que a escola aprende com ela e como essa aprendizagem se inscreve no momento em que a Tijuca também busca reescrever seus caminhos.
Como ponto de atenção, fica registrado que o canto da comissão, com o avançar do desfile, perde volume. No mais, a expectativa é boa para o desfile oficial: a entrada dos figurinos definitivos e a possível inclusão de elemento cenográfico poderão potencializar ainda mais a proposta, ampliando impacto visual e densidade dramatúrgica. Ainda assim, o que se viu no primeiro ensaio técnico indica uma comissão segura, bem resolvida e com propostas claramente estabelecidas e de fácil leitura.
“Esse ensaio foi sensacional e arrepiante. A comissão arrasou, está brilhando com um enredaço e um samba incrível. A galera deu mais do que 100% de si. Já estamos dando alguns mini-spoilers e alinhando com a direção da escola ajustes para o próximo ensaio, mas é tudo surpresa. A princípio, vamos permanecer como estamos, apenas ajustando alguns detalhes”, citou Ariadne.
“A comissão quer emocionar o coração de cada Carolina que nós, mulheres, carregamos. Acredito que hoje a gente deu uma palhinha do que vamos levar para o desfile. É algo sentimental, que vai tocar direto no coração”, afirmou Bruna.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Se a comissão de frente operou pela transição entre dor e superação, o casal de mestre-sala e porta-bandeira da Unidos da Tijuca entrou em cena já pelo campo da superação e da cabeça erguida. Matheus Miranda e Lucinha Nobre apresentaram um bailado que apostou na exuberância, na elegância e na imponência como elementos de leitura.
Essa afirmação começa pelo figurino dourado, de forte impacto visual, que dialoga diretamente com o bailado clássico do casal. O desenho do traje potencializou a postura altiva dos dois e reforçou uma ideia de superação: um casal que dança com entrosamento, brilho, segurança e consciência do momento vivido pela escola. É um figurino que não apenas veste, mas sustenta dramaturgicamente a performance.

Lucinha, em especial, protagonizou momentos de grande beleza e sensibilidade na apresentação. No verso “Dos salões da burguesia aos barracos do Borel”, o gesto de encostar o rosto no pavilhão constrói uma imagem de carinho e amorosidade rara e muito potente. A porta-bandeira reverencia o símbolo máximo da escola como quem acolhe uma história que está sendo reescrita com cuidado e afeto. É uma cena que humaniza o pavilhão e conecta diretamente território, memória e pertencimento.
Outro momento de forte impacto ocorreu no trecho “Fui a caneta que não reproduziu a sina da mulher preta no Brasil”. Ali, Matheus se abaixa em reverência à sua porta-bandeira enquanto Lucinha bate no peito, num gesto direto de afirmação identitária. A cena opera em múltiplas camadas: Lucinha representa as mulheres pretas do Borel, evoca Carolina Maria de Jesus e reafirma, no corpo, a centralidade da mulher negra na narrativa do desfile. Trata-se de uma inteligência coreográfica que sublinha o samba com precisão performativa.
No módulo espelhado, o entrosamento do casal se mostrou ainda mais evidente. A apresentação do pavilhão é limpa, bem conduzida, e o cortejo de Matheus à Lucinha, especialmente no beijo na mão no trecho “Onde nascem Carolina”, evidencia delicadeza, respeito e parceria. Esse entrosamento não é casual: dançando juntos pelo terceiro ano consecutivo, Matheus e Lucinha vêm investindo em múltiplas frentes de aprimoramento, do treinamento físico ao refinamento do bailado, passando inclusive por um processo de terapia de casal, estratégia que se reflete claramente na pista.
Como ponto de atenção, à medida que o ensaio avança, sobretudo no último módulo, há uma leve perda de entrosamento. O olhar se torna menos presente, a graciosidade diminui e o casal parece mais concentrado na execução técnica dos movimentos do que na relação entre si. Não chega a comprometer a apresentação, mas sinaliza a necessidade de garantir que o vigor, a leveza e a vitalidade observados nos primeiros módulos se mantenham até o fim do desfile.
Ainda assim, o conjunto apresentado no primeiro ensaio técnico indica um casal em trajetória consistente de amadurecimento. Mantendo o nível de entrosamento e a qualidade do bailado vistos no início da apresentação, Matheus Miranda e Lucinha Nobre pavimentam um caminho sólido para alcançar boas avaliações no desfile oficial.
“É ensaio. Sempre tem testes, sempre há o que mudar e melhorar. A gente busca a perfeição, mesmo sabendo que ela não existe, mas é essa busca diária que importa. Se tiver algo para ajustar, mudar um pouco a mobilidade, a gente faz. Nossa fantasia está leve, aconchegante, mas sempre tem algum detalhe. É trabalhar, deixar tudo bem encaixadinho para chegar na hora e fazer o melhor”, disse o mestre-sala.
“Eu amei fazer essa coreografia junto com a Camille e o Matheus. Foi um quebra-cabeça, mas acho que conseguimos cumprir o pré-requisito, que era saudar toda a Sapucaí. Com essa energia, conseguimos fazer um trabalho bacana. A escola está muito animada. É muito bonito contar a nossa história e poder reverenciar tantas Carolinas que temos dentro da escola, no Brasil e no mundo”, completou a porta-bandeira.
SAMBA E HARMONIA
Antes que o canto coletivo tome a pista, o samba da Unidos da Tijuca se anuncia pela voz. Na introdução, a cantora de apoio Lissandra Oliveira entoa “Sou Carolina Maria de Jesus, aquela que venceu a fome, reescrevendo o Brasil”, em um gesto que ultrapassa a função musical e se afirma como convocação. A Sapucaí é chamada a entrar no universo do desfile e, mais do que isso, é convidada a cantar essa história com garra, potência e afirmação.
Essa abertura organizou a escuta e preparou o terreno para o crescimento orgânico do canto da escola. Quando o samba avança para o pré-refrão e encontra o refrão principal — “Sou a liberdade, mãe do Canindé / muda essa história, Tijuca” —, a resposta da comunidade é imediata. O canto explode com força, sustentado pela cadência da bateria e pela condução firme do carro de som, transformando esse trecho no motor emocional do desfile.

A comunidade tijucana cantou com propriedade. O samba está na ponta da língua, claramente apropriado pelos componentes, resultado de um trabalho consistente nos ensaios de rua e nos ensaios setoriais ao longo da temporada. Há uma adesão coletiva à mensagem da obra, perceptível não apenas no volume do canto, mas na intenção com que ele é projetado ao longo da pista.
Alguns trechos se destacam de forma mais notória. Versos como “Fui a caneta que não reproduziu a sina da mulher preta no Brasil”, “Me chamo Carolina Maria de Jesus, dele herdei também a cruz” e o bloco mais denso — “Os olhos da fome eram os meios de justiça dos homens / meu quarto foi despejo de agonia, a palavra é arma contra a tirania” — surgem com canto firme, sustentado e atravessado por entendimento do que está sendo narrado.
Na harmonia, a condução de Marquinhos ArtSamba apostou na sobriedade como virtude. Sem firulas vocais ou excessos de arranjo, o carro de som manteve vigor constante, empurrando o samba para frente e convidando o componente a não abandonar a melodia. É um trabalho que privilegia continuidade e sustentação, mais do que impacto pontual.
Já nos metros finais do desfile, especialmente no trecho iniciado em “Sonhei sobre as páginas da vida”, percebe-se uma oscilação de intensidade em algumas alas. Não se trata de um quadro generalizado, mas localizado, possivelmente relacionado ao desgaste físico da apresentação. O contraste aparece em alas que mantêm o canto do início ao fim, como a ala da diversidade, dos passistas e das crianças, que seguem sustentando energia mesmo no encerramento.
Ainda assim, o conjunto revelou uma escola que comprou o samba e o carrega como discurso. De andamento dolente, mas espírito perseverante, a obra convoca o componente a seguir adiante, a evoluir, a insistir. Lapidar a sustentação do canto no trecho final pode elevar um trabalho que, em sua base, já se mostra sólido e plenamente incorporado pela comunidade tijucana.
“O balanço é positivo. Testamos algumas coisas para ver se vão dar certo ou não no dia do desfile, mas o saldo foi bom. Creio que foi um ensaio bacana. Na semana que vem, vamos ensaiar de novo para, no dia 16, estarmos prontos, se Deus quiser, para buscar o campeonato. O novo som é maravilhoso, não tenho nada a reclamar. É lógico que, dentro do possível, sempre há um reajuste aqui e outro ali, mas, no demais, foi maravilhoso”, garantiu o intérprete.
EVOLUÇÃO
A Unidos da Tijuca apresentou uma evolução marcada pela rapidez e pela fluidez. O andamento da escola se mostrou acelerado: em cerca de 36 minutos, a cabeça da escola já deixava a Marquês de Sapucaí, sinal claro de um fluxo veloz ao longo da pista.
No plano dos componentes, a evolução se constrói com naturalidade. As alas desfilaram à vontade, com espaço para brincar, interagir e ocupar a pista sem rigidez. Essa sensação de liberdade, indispensável à boa avaliação do quesito, aparece como um dos pontos fortes do ensaio técnico. A Tijuca encontra um equilíbrio entre deslocamento eficiente e leveza corporal, permitindo que a escola caminhe sem travas e sem perda de leitura.
Essa fluidez, já bastante positiva, ainda pode crescer. Há margem para ampliar a organicidade do conjunto, especialmente no ajuste de tempos entre alas, mas o que se apresenta é sólido e convincente, com uma escola confortável no próprio ritmo.

O momento mais delicado surge na transição para o segundo recuo da bateria. Enquanto a bateria entra, o segundo casal avança para segurar o espaço, e a ala que deveria ocupar imediatamente a área demora alguns momentos para chegar. Não chegou a se configurar um buraco, em grande parte porque o segundo casal administrou bem o tempo e o espaço, mas houve uma leve aceleração da ala que carregava livros nas mãos para preencher o vazio iminente. É um ajuste pontual, que pede atenção no encaixe fino entre recuo e avanço do corpo da escola.
No conjunto, a Unidos da Tijuca entrega uma evolução segura, fluida e bem resolvida, mesmo em um desfile que atravessou a Sapucaí com rapidez. Com pequenos ajustes de sincronia nos momentos de transição, a escola tem potencial para elevar ainda mais um quesito que, já neste ensaio técnico, se apresentou em bom patamar.
“O saldo do ensaio é positivo. Ainda vamos conversar com a harmonia e entender o desfile como um todo, mas, pela minha percepção passeando pela escola, o componente conseguiu reproduzir o que a gente vem fazendo na rua nesses últimos meses. A escola cantou bastante, veio compacta, as pessoas se divertiram e transmitiram a emoção que acreditamos ser o trunfo do nosso projeto: emocionar e contar essa história de Carolina. Para um primeiro ensaio na Sapucaí, a primeira vez que pisamos aqui nesta temporada, o resultado é realmente positivo. Claro que ainda precisamos conversar, reunir cada responsável por setor e entender o que pode ser acrescentado para preparar um ensaio ainda melhor na semana que vem. A empolgação da arquibancada, das frisas e a emoção do componente mostram que o trabalho foi bem realizado, mas ainda não estamos no auge. O nosso auge será na segunda-feira de Carnaval. Vamos subindo de grau a cada semana para chegar lá e fechar de forma apoteótica”, explicou Elisa Fernandes, diretora de carnaval.
OUTROS DESTAQUES
Sob a cadência segura de mestre Casagrande, a bateria “Pura Cadência” conduziu o samba com firmeza e regularidade, garantindo base rítmica consistente ao longo da apresentação. Mesmo enfrentando problemas técnicos no início do ensaio, especialmente ajustes de volume e questões de delay, mencionadas pelo próprio mestre ao microfone no aquecimento do desfile, a bateria manteve o controle e atravessou a Sapucaí com categoria, sem comprometer o rendimento musical da escola.

“Foi bom. Não foi exatamente aquilo que eu estava esperando, mas ainda estamos em fase de testes: teste de som, ajustes. Tem muita coisa para ajustar ainda, e vamos conversar no meio da semana com a equipe técnica e com a direção da escola. Temos muito a melhorar, e ainda teremos outros ensaios. Para a bateria, hoje foi bom, mas precisamos melhorar bastante, principalmente na questão do som e da logística. É tudo novo para a gente. Sofremos no primeiro box, a audição estava muito alta, mas tivemos uma atenção muito grande do pessoal da logística de som. Isso tudo são ajustes; hoje foi o primeiro dia, então é natural. O som é novo, mais moderno, exige adaptação, mas a qualidade é excelente — tão boa que estava até alta demais. Agora é ajustar. O carro de som está bem encaixado; o Marquinho é um cantor clássico, perfeito para esse samba, parece que foi feito sob encomenda para ele. Pedi para o pessoal agrupar mais perto do carro de som e, no final, deu tudo certo: conseguimos finalizar bem o ensaio. Para o segundo ensaio, a expectativa é que o som já esteja mais definido, com as caixas instaladas. Gradativamente, até o dia do desfile, esses ajustes serão feitos. A ideia é chegar perto do ideal no próximo ensaio, na sexta-feira, dia 6, 100% só no dia, mas chegar a 90% ou 99% já será ótimo”, comentou mestre Casagrande.
Outro ponto alto foi a presença da rainha de bateria Mileide Mihaile, que surgiu com um figurino marcado por folhas. À frente da bateria, Mileide esbanjou simpatia e samba no pé, estabelecendo uma comunicação direta com os ritmistas e com o público, reforçando o clima de leveza e celebração que marcou o ensaio.
A ala de passistas também mereceu atenção especial, tanto pelo figurino quanto pela performance. Os malandros desfilaram com ternos e chapéus amarelos e sapatos azuis, enquanto as cabrochas surgiram em figurinos azuis, combinados com saltos prateados. A elegância visual se refletiu diretamente no samba no pé, com uma apresentação segura, vistosa e bem alinhada à proposta estética da escola.







