A União do Parque Acari desfilou na noite da última sexta-feira, na Marquês de Sapucaí, pela Série Ouro, sendo a terceira escola a passar pela Avenida. Levando o enredo “Brasiliana”, desenvolvido pelo carnavalesco Guilherme Estevão, a agremiação abriu o desfile com uma declaração estética e política sobre pertencimento. As escolas disputam uma vaga no Grupo Especial de 2027, e o primeiro carro já sinalizou o tom da narrativa. Em entrevista ao CARNAVALESCO, componentes das primeiras alas falaram sobre o impacto da alegoria e a expectativa para a reação do público.

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Abre-Alas da Acari. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

A primeira alegoria representou a formação e o batismo do Grupo dos Novos, embrião do que viria a ser o Brasiliana. A proposta destacou o terreiro como espaço de formação artística e afirmação cultural, ponto de virada estética e identitária. Foi nos terreiros de candomblé que o grupo buscou a essência de sua musicalidade e de suas representações cênicas. 

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Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

No histórico Ilê de Joãozinho da Gomeia, integrantes foram batizados e passaram a integrar o núcleo artístico da companhia. A ambientação do carro evocava o xirê, reafirmando o sagrado como fonte criadora.

Na parte frontal do abre-alas, a representação de Exu, orixá da comunicação entre visível e o invisível, conduzia a narrativa visual. Frequentemente alvo de demonizações por uma cultura eurocêntrica, Exu surgia ali ressignificado, central e majestoso. 

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Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Esculturas de homens negros, com trajes inspirados nos bailarinos do grupo, reforçavam a dimensão estética e política da obra. Estamparias e referências ao Ilê da Gomeia atravessavam a composição. No alto, a imagem de Joãozinho da Gomeia abençoava a cena, como símbolo de orientação espiritual e artística.

A imponência do abre-alas emocionou quem estava na concentração. “Espetacular! O carro é maravilhoso, ele é muito bonito, gigante. Ele é lindo mesmo. Imponente. Tem que pedir licença para Exu, abrir os caminhos. Quanto mais força a gente conseguir tirar de um terreiro, ou seja de qualquer outro local faz sempre bem pra gente”, afirmou Marcos Lima, 40 anos, técnico de informática. 

A fala traduz o sentimento de reverência e reconhecimento que tomou conta dos componentes. Para muitos, abrir caminhos é também afirmar identidade.

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Marcos e Marleno. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Marleno, 46 anos, técnico de radiologia, também destacou a simbologia do momento. “O carro é muito bonito mesmo e é Exu, né. Abrir os caminhos para o Parque Acari. Abrir o desfile assim é uma energia muito boa. Exu é caminho aberto. Preconceito cultural sempre tem em relação a nossa religião, as pessoas têm a cabeça muito fechada”, contou. 

Já Gina Rumy, 47 anos, comerciante, ressaltou o impacto visual: “Essas cores vibrantes que chamam muita atenção e riqueza visual para a escola”. As declarações reforçam o orgulho coletivo que atravessa a comunidade.

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Gina e Tatiane. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Para Tatiana Pereira, 44 anos, engenheira, o carro representou mais que estética. “Vendo a alegoria senti um destaque para nossa comunidade, sendo representada na Avenida. A emoção das pessoas que contempla tudo isso”, relatou. A presença de símbolos do terreiro no abre-alas foi compreendida como afirmação de protagonismo negro em um espaço de grande visibilidade. Ainda que não conhecessem a história do Grupo dos Novos antes de ela se tornar enredo, os entrevistados reconheceram a importância da narrativa. A Avenida, nesse sentido, se transforma em sala de aula e altar.

Ao levar para a Sapucaí a história de um grupo que encontrou nos terreiros a base de sua expressão artística, o Parque Acari transforma o sagrado em espetáculo sem esvaziá-lo de sentido. O abre-alas sintetiza a ideia de que o terreiro é também espaço de formação estética, política e comunitária. 

Entre esculturas, cores e símbolos, a escola reafirma que abrir caminhos é reconhecer as origens. Se depender da força evocada na concentração, Exu já cumpre seu papel. E a comunidade de Acari segue desfilando com fé, memória e afirmação cultural rumo ao sonho do acesso ao Grupo Especial.