Quem estava no Anhembi no último sábado, viu ferver o caldeirão da Colorado do Brás. A escola apresentou um desfile tecnicamente positivo, sustentado principalmente pela plástica impecável e uma forte comissão de frente. Com enredo “A Bruxa Está Solta – Senhoras do Saber Renascem na Colorado”, a agremiação apostou na ressignificação da figura da bruxa como mulher detentora de saberes ancestrais.

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A escola foi a segunda a desfilar e encerrou sua apresentação em 1h02min51seg, dentro do tempo regulamentar e agora briga pelas cabeças.

COMISSÃO DE FRENTE

A comissão de frente abriu os portais do enredo ao representar o Grande Sabbath, ritual que inaugura o universo místico proposto pela Colorado. A encenação foi de fácil leitura e transformou o Anhembi em uma atmosfera de celebração dos saberes ancestrais.

Coreograficamente, a proposta apostou em uma construção mais ritualística, com movimentos que buscavam evocar a ideia de cerimônia e invocação. Além disso, a presença de um caldeirão com fumaça na cena ajudou na narrativa.

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Ao longo das cabines, a apresentação se manteve regular com tempo médio de execução de 2 minutos no chão. O ponto de maior impacto esteve quando Sabbath foi suspenso no tripé, que representava os quatro elementos da natureza. Após a suspensão, o ator encena um ritual em uma performance solo.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Brunno Mathias e Jessika Barbosa defenderam o pavilhão em diálogo direto com o enredo, traduzindo em dança o universo místico proposto pela escola.

Leves e visivelmente à vontade na pista, os dois apostaram em uma condução solta, marcada por alegria de quem realmente brinca na pista. Nos refrões, os passinhos laterais surgiram como resposta ao ritmo do samba. Em trechos específicos da letra, como na menção à noite de lua cheia, o casal apontava para o céu, reforçando a conexão entre coreografia e narrativa.

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Jessika, em especial, incorporou gestos que remetiam o ato de enfeitiçar, desenhando movimentos com as mãos que dialogaram com a ideia da bruxa como figura de poder e encantamento. Nas apresentações para os jurados, esse recurso ganhou força quando os dois passaram a executar o gesto em conjunto, como se, simbolicamente, “lançassem um feitiço” sobre as cabines.

HARMONIA

O canto da Colorado do Brás apresentou comportamento irregular ao longo do desfile. Os apagões potencializaram a resposta da arquibancada e dos componentes, sobretudo nos refrões, quando houve aumento evidente de volume e participação coletiva. Nesses momentos, a escola alcançou seus melhores picos de rendimento no quesito.

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Fora dos trechos de apagão, porém, o canto se manteve mais regular, com execução correta, mas sem a mesma força coletiva observada nos refrões.

ENREDO

A proposta de ressignificar a figura da bruxa como símbolo de mulheres detentoras de saberes ancestrais se desenvolveu em uma narrativa que partiu do ritual, atravessou a perseguição histórica e percorreu diferentes culturas até desembocar no presente. Na avenida, as bruxas surgiram representadas sob múltiplas formas: do imaginário popular e cultural, com personagens reconhecíveis e figuras icônicas, até referências a lendas antigas, tradições espirituais e saberes femininos ligados à cura e à ancestralidade.

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Essa amplitude de representações contribuiu para uma leitura clara do enredo ao longo dos setores, facilitando a compreensão do público. O conjunto manteve coerência ao longo da pista, com encadeamento lógico entre os setores e respeito à narrativa apresentada.

EVOLUÇÃO

O andamento do desfile da Colorado do Brás foi, de modo geral, fluido, com as alas avançando de forma correta ao longo da pista. A opção por alas mais engessadas resultou em uma leitura visual mais rígida, porém contribuiu para a manutenção do espaçamento e da organização do conjunto parte da apresentação.

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O principal ponto de atenção no quesito ocorreu na frente do Setor H, quando se abriu um espaço significativo entre o primeiro casal e a ala seguinte. O intervalo chegou a cerca de 12 grades de distância, em frente ao módulo de jurados, exigindo que algumas alas acelerassem o deslocamento para recompor o espaço vazio. Apesar da correção rápida da situação, o episódio pontual pode pesar na avaliação do quesito, já que rompeu momentaneamente a fluidez que vinha sendo mantida até então.

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SAMBA-ENREDO

O samba-enredo funcionou como eixo de sustentação do desfile, alternando momentos de maior explosão coletiva com trechos de menor resposta da escola.

Alguns momentos do samba se mostram mais favoráveis ao canto em massa, como o “Vem ver vai ferver o caldeirão”.

FANTASIAS

As fantasias desempenharam papel central na tradução visual do enredo da Colorado, especialmente por se tratar de uma narrativa que depende fortemente de símbolos. De modo geral, os figurinos se mostraram muito bem acabados, com atenção aos detalhes e forte impacto visual, garantindo leitura clara em grande parte das alas.

É válido destacar também a maquiagem dos destaques que estavam em cima da terceira alegoria “A Convenção das Bruxas”.

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Alguns setores tiveram destaque pela clareza imediata da proposta, enquanto outras alas exigiram maior atenção do público para interpretação, como as alas 09 e 10, que representavam a Bruxa de Blair e Malkin. Outro ponto de atenção foi a transição de cores a partir do segundo setor, quando o desfile passou de tons mais escuros para cores mais vivas de forma relativamente brusca, criando contraste perceptível e alterando o visual do conjunto.

Ainda assim, o alto nível de acabamento e a consistência das fantasias ao longo da pista sustentaram a leitura do enredo e o impacto cênico da escola.

ALEGORIAS

As alegorias funcionaram como marcos visuais da narrativa, estruturando os grandes momentos do enredo: o da perseguição, o dos saberes ancestrais, o da construção da bruxa no imaginário popular e o da libertação final. Cada carro apresentou uma leitura própria.

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O grande destaque entre as alegorias da Colorado do Brás foi o abre-alas, que apresentou a perseguição às bruxas como eixo central da narrativa. O carro utilizou efeitos pirotécnicos em momentos estratégicos, com faíscas semelhantes a sinalizadores e três entradas de fogos de artifício ao longo da apresentação.

Além dos efeitos visuais, o carro apostou em encenação. Atrizes representavam uma prisão, reforçando o tema da perseguição. No trecho do samba que menciona o “grito calado”, as personagens gritaram simultaneamente, criando um momento de impacto nas arquibancadas.

A segunda alegoria das “Curandeiras Indígenas”. O carro se destacou não apenas pela concepção visual, mas também pela movimentação em cima, onde as componentes realizavam coreografias que remetiam a um ritual, dialogando com a ideia de saber ancestral.

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Já a alegoria da “Convenção das Bruxas” apresentou uma mudança perceptível na paleta, com cores mais vibrantes e maior variedade visual. O carro reuniu personagens marcantes do imaginário popular, como Bruxa do 71, Úrsula, Cuca, Glinda, entre outros, além da presença de crianças remetendo à história de João e Maria na tradicional casa de doces da bruxa. A leitura foi imediata para o público, especialmente pela identificação com figuras conhecidas, consolidando o setor mais popular do desfile.

OUTROS DESTAQUES

A bateria Ritmo Responsa, comandada pelo Mestre Acerola de Angola, também interagiu com o público ao longo do desfile. Com coreografias bem executadas e intervenções pontuais, como gritos em momentos específicos do samba, eles contribuíram para elevar a energia da pista em alguns trechos. A bossa do refrão do meio se destacou como um dos pontos em que os componentes mais se soltavam.

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À frente da bateria, Talita Guastelli confirmou na avenida o que já vinha sendo observado nos ensaios. Bailarina de formação, a rainha de bateria impressionou ao desfilar durante toda a apresentação sambando na ponta dos pés, aproximadamente uma hora de desfile sustentando o movimento. A resistência e o domínio técnico chamaram atenção e se consolidaram como um dos destaques individuais.