O Centro de São João de Meriti viveu, na noite da última sexta-feira, uma prévia do que a Unidos da Ponte pretende levar para a Marquês de Sapucaí. O ensaio de rua transformou o asfalto em pista de desfile e reuniu comunidade, segmentos e público em uma noite marcada por identidade, pertencimento e pulsação rítmica. Antes do início do ensaio, o presidente Tião Pinheiro fez questão de prestar homenagens e agradecer à comunidade por, mais uma vez, caminhar ao lado da escola em mais um carnaval.

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Com o enredo “Tamborzão: O Rio é Baile! O Poder é Black!”, a escola de São João de Meriti aposta em uma leitura que exalta a cultura negra e periférica, colocando o funk, os bailes e o tambor como expressões de resistência, identidade e celebração. A Unidos da Ponte será a última escola a desfilar na Série Ouro, encerrando o sábado de Carnaval, no dia 14 de fevereiro, na Sapucaí.

COMISSÃO DE FRENTE

A comissão de frente apresentou uma coreografia totalmente conectada à proposta do enredo. A movimentação é ritmada, com jogadas de corpo que acompanham o tamborzão e facilitam a leitura da ideia central do desfile. A apresentação se constrói de forma leve, dinâmica e comunicativa, tornando a execução fluida e de fácil compreensão para quem assiste, além de dialogar diretamente com o clima de baile proposto pela escola.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Thiaguinho e Jéssica protagonizaram um dos momentos mais consistentes do ensaio. O casal apresentou um bailado intenso, com forte conexão entre os movimentos e leitura clara do samba e do enredo. A coreografia se desenvolve com continuidade, mantendo o casal sempre em sintonia, o que potencializa a apresentação e evidencia o entrosamento da dupla.

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Fotos: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Em entrevista, o casal destacou o processo de construção do trabalho: “Está sendo um trabalho maravilhoso, com muita dedicação e muito esforço. A gente procura fazer o melhor para a escola, e esse samba é maravilhoso, o que ajuda muito. O trabalho está fluindo e está sendo gostoso de fazer”, afirmou o casal. Sobre a fantasia, mantiveram o suspense, mas adiantaram a proposta: “Vai ser tradicional, não vai fugir dos padrões que a gente tem buscado e que o casal gosta de dançar. Tem um detalhe pequeno que vai fazer um efeito legal na avenida. Só isso que a gente pode contar agora. E, claro, tem penas, tem pedras e cores”, brincaram, entre risos.

HARMONIA E SAMBA

O canto da Unidos da Ponte apresentou diferenças perceptíveis ao longo do ensaio. As alas iniciais mostraram maior domínio do samba, com canto mais firme e entrega corporal mais alinhada à proposta do desfile. Já nas últimas alas, a queda de rendimento foi nítida, tanto no canto quanto na dança, indicando a necessidade de ajustes e reforço nos próximos ensaios para equilibrar o desempenho da escola como um todo.

O carro de som foi comandado por Matheus Gaúcho. Thiago Brito não pode estar presente por compromisso em São Paulo. Gaúcho conduziu o ensaio com intensidade, alegria e leitura clara do enredo, sustentando o samba ao longo de todo o percurso.

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Em sua fala, o intérprete ressaltou a parceria construída ao longo dos anos com Thiago Brito: “Thiago é um amigo de anos, a gente já trabalha há muito tempo junto. Já defendemos o samba em várias escolas, o que torna este trabalho uma grande parceria”, afirmou. Sobre o samba da Unidos da Ponte, Gaúcho projetou o impacto na avenida: “Aguardem por um samba alegre, irreverente e animado. A Ponte é a última escola do sábado de Carnaval, então senti que precisávamos de um samba leve e animado, e a escola vem cantando muito para fazer um grande desfile”, citou.

Vivendo seu primeiro ano na agremiação, o cantor também falou sobre a expectativa para a Sapucaí: “Minha expectativa é a melhor possível. Fui muito bem recebido na escola e agradeço, como sempre, o convite do Tião Pinheiro, nosso presidente. É uma parceria muito grande com todos os segmentos, com os mestres de bateria, então a gente vai, se Deus quiser, fazer um grande trabalho”, afirmou Matheus Gaúcho.

Evolução

A escola apresentou uma evolução organizada no início do ensaio, com cuidado nas divisões e boa leitura do conjunto. Ao longo do percurso, um ponto de atenção apareceu na divisão das musas, que em alguns momentos acabaram se sobrepondo, reduzindo o destaque individual esperado para o segmento e interferindo na leitura visual do desfile.

O diretor de carnaval, Camarão Netto, avaliou o ensaio como parte de um processo em construção: “Este é o nosso segundo ensaio de rua. A gente está começando a lapidar a questão do canto e ainda sente dificuldade de a massa como um todo cantar, mas a escola está cantando firme, porque é um samba fácil, empolgado, para cima. Ainda não chegamos aos 100%, mas isso é coisa de detalhe”, afirmou.

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Camarão também destacou o conceito central do enredo: “O nosso enredo traz o funk, o soul e o lundu, toda a raiz do tambor. O funk tem origem afro, e o nosso enredo vai trazer um pouco de cada gênero. É um ritmo que não deixa ninguém parado, como diz o nosso refrão. A cultura preta é de onde vêm o nosso samba, o funk, a raiz e a essência. O tamborzão é um poder que a gente não consegue estimar. Ele é muito importante para a cultura do samba, para a cultura preta e para a cultura do nosso país”, explicou o diretor.

OUTROS DESTAQUES

A bateria sustentou o ensaio com ritmo intenso e afinação constante, apresentando bossas bem encaixadas e mantendo a energia da escola elevada do início ao fim, reforçando o clima de baile que a Unidos da Ponte pretende levar para a avenida.

Ao levar o ensaio para o Centro de São João de Meriti, a Unidos da Ponte não apenas treinou quesitos ou ajustou detalhes de pista. A escola reafirmou o sentido do próprio enredo ao transformar a rua em baile, o tambor em discurso e o corpo em linguagem. O “Tamborzão” não surge apenas como ritmo, mas como símbolo de uma cultura que resiste, ocupa e celebra, conectando o samba às batidas que ecoam nas periferias do Rio.

Se o carnaval é território de afirmação, a Ponte mostra que desfilar é também um ato político e coletivo. Entre ajustes técnicos e momentos de potência, a escola constrói um desfile que nasce do chão da comunidade e se projeta para a Sapucaí como festa, identidade e pertencimento. Ao fechar o sábado de carnaval, a Unidos da Ponte promete não apenas encerrar uma noite de desfiles, mas abrir um grande baile onde o poder, de fato, é black.