A Unidos da Tijuca ocupou a Rua Conde do Bonfim para levar a energia do Morro do Borel a todos os tijucanos. A chuva forte que caiu na cidade não atrapalhou a adesão dos componentes ao ensaio em uma das principais ruas da Tijuca. Com o cortejo mantido e o samba na ponta da língua, cerca de 2.000 componentes demonstraram disposição para contar a história de Carolina Maria de Jesus. A amarelo-ouro e azul-pavão vai levar para a Avenida o enredo em homenagem à autora e à sua obra, desenvolvido pelo carnavalesco Edson Pereira em seu segundo ano na escola.

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A fim de mudar a leitura sobre a história da homenageada e o curso da própria Unidos da Tijuca, a escola se mostrou com muita vontade de brigar entre as seis primeiras do Grupo Especial. O ensaio deste domingo contou com a presença de todos os quesitos. A abertura foi arrepiante com a comissão de frente de Ariadne Lax e Bruna Lopes e seguiu aquecida com a elegância do casal Matheus André e Lucinha Nobre. Além disso, a integração entre Marquinhos Art’Samba, seu carro de som e a “Pura Cadência”, de mestre Casagrande, empolgou os desfilantes, que cantaram a todo momento.

COMISSÃO DE FRENTE

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As coreógrafas Ariadne e Bruna trouxeram para a Conde do Bonfim uma coreografia impactante e emocionante. O protagonismo da principal componente foi bem defendido, com uma interpretação marcante por suas falas, suas interações com os componentes masculinos, seu sofrimento e também sua suavidade nos momentos finais da apresentação. A performance contou com gestos intensos, gritos de “dor” e “revolta” que arrepiaram os espectadores e movimentos bem sincronizados.

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MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Matheus Miranda e Lucinha Nobre, se apresentou com um misto de leveza e vigor que deu o tom ao bailado. Ambos respeitaram o pavilhão com carinho; em determinado momento, Lucinha inclusive deixava seu rosto sobre a bandeira. Os giros do casal foram bem encaixados, terminando sempre com a troca de olhares entre os dois. Outro detalhe importante da coreografia é quando o samba chega ao trecho “Sou a caneta que não reproduziu / A sina da mulher preta no Brasil”, e Lucinha rodopia batendo no peito enquanto Matheus a corteja. Mesmo com esses detalhes, a concepção da coreografia é de um bailado clássico, sem acréscimos de outros ritmos.

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SAMBA-ENREDO E HARMONIA

Marquinhos Art’Samba e seu carro de som evidenciaram sua qualidade em mais um ensaio da Unidos da Tijuca. A qualidade do samba e a potência do intérprete combinam com a proposta da Tijuca, e é possível ouvi-lo durante a maior parte do desfile. A composição de Lico Monteiro, Samir Trindade, Leandro Thomaz, Marcelo Adnet, Marcelo Lepiane, Telmo Augusto, Gigi da Estiva e Juca conquistou o tijucano, como relatou acima a diretora de Carnaval Elisa Fernandes. Isso é comprovado com o canto forte e integral da comunidade, com destaque para os refrões e trechos como “Fui a caneta que não reproduziu / A sina da mulher preta no Brasil”, “Onde nascem Carolinas, não seremos mais os réus / Por tantas Marias que viram seus filhos crucificados” e “Sou a liberdade, mãe do Canindé”.

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Antes do ensaio, o intérprete Marquinhos Art’Samba conversou com o CARNAVALESCO e avaliou como foi o pré-carnaval da Tijuca.

“O nosso pré-carnaval está sendo muito bem feito. O samba está aí, sendo cantado por todos nós, em todo o Brasil. A escola está com vontade mesmo de ser campeã. A avaliação é nota 10. O canto da comunidade é só você ver. A comunidade não está cantando, a comunidade está berrando o samba”, exclamou.

EVOLUÇÃO

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O tapete amarelo-ouro e azul-pavão fluiu muito bem pela Rua Conde do Bonfim. A energia se manteve alta durante todo o ensaio, com direito a componentes emocionados enquanto cantavam o samba e desfilavam. A possibilidade de chuva não impediu a presença maciça dos desfilantes nem conteve a empolgação. As alas coreografadas se exibiram com impacto e elevaram a expectativa para o que será visto na Sapucaí. As baianas e a velha guarda da escola evoluíram com muita beleza e animação.

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OUTROS DESTAQUES

O mestre Casagrande regeu a bateria “Pura Cadência” com muita destreza. Todas as bossas foram bem encaixadas, e os ritmistas aparentaram muita felicidade e confiança com o trabalho que está sendo feito. O mestre de bateria agradeceu a presença da comunidade e acredita que está no caminho certo.

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“Quero agradecer a toda a bateria, a toda a comunidade. A escola veio em peso. O morro desceu, e quando o morro desce, a gente vai para cima. Acho que estamos no caminho certo, estamos fazendo tudo certo. Agora temos mais dois ensaios técnicos pela frente, muito importantes. Muito pé no chão e muito foco. Tem muito tempo que eu não vejo a escola cantar da forma que está cantando. Realmente é para mudar a história da Unidos da Tijuca. Hoje não vou avaliar nada, porque hoje é só agradecer a toda a comunidade que veio. Com o dilúvio que caiu hoje no Rio de Janeiro, eles vindo do jeito que vieram, provaram que querem realmente mudar a história da Tijuca. Agora é ensaiar e ensaiar, não tem mais jeito”, disse Casagrande.

A empolgação da escola transborda também no carisma da rainha de bateria, Mileide Mihaile, que já está completamente integrada à Unidos da Tijuca. Sua interação com as crianças da comunidade, componentes e as demais musas comprova esse ponto.

OPINIÃO DA DIRETORA

A diretora de carnaval, Elisa Fernandes, comentou sobre essa temporada de ensaios antes de pisar na Sapucaí.

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“É uma temporada muito importante para a escola. A comunidade comprou a ideia do enredo, do samba e do projeto. A ideia de poder mudar a história da Carolina e apresentar a história da Carolina como a família gostaria que fosse contada, e não só pelo recorte de Quarto de Despejo, acabou caindo bem para a comunidade também, que acredita que está na hora de mudar a história. A escola já não volta ao Desfile das Campeãs desde 2016, então a comunidade está acreditando que essa mudança também vai acontecer para a escola e que essa energia de mudança vai fazer a Tijuca voltar a viver seus áureos tempos, porque é uma grande escola, uma escola quase centenária. A cada ensaio, a gente sobe mais um degrauzinho. Tenho certeza de que o último degrau vai ser o desfile oficial. Nós estamos na briga, tenho certeza de que estamos na briga”, argumentou a diretora.

Na agenda da Unidos da Tijuca, até o desfile oficial na segunda-feira, 16 de fevereiro, a escola vai ensaiar na Marquês de Sapucaí nas próximas sextas-feiras, 30 de janeiro e 6 de fevereiro, e encerra essa jornada em casa, aos pés do Morro do Borel, na Rua São Miguel, no próximo dia 8 de fevereiro. A diretora de carnaval afirmou que as expectativas para pisar na Avenida estão “altíssimas”:

“A comunidade está empolgadíssima, contando os dias. Você vê o contingente hoje, com essa chuva. As pessoas estão aqui, a galera está com orgulho. Esse enredo e esse samba mexeram muito com a autoestima do desfilante. Quando eu voltei para a escola, agora na direção, percebi que o que tínhamos que fazer nesse primeiro momento era trabalhar essa questão da autoestima”, declarou.

Além disso, sentiu que a escola foi abraçada não só pela própria comunidade, como também pelos sambistas torcedores das outras coirmãs.

“É uma história que conecta muito a comunidade, não só a comunidade da Tijuca, mas a comunidade do Carnaval também. Tenho certeza de que as pessoas das outras escolas também têm um carinho muito grande com o que estamos construindo e apresentando. Acho que é isso que mexeu com essa comunidade e está fazendo os ensaios ficarem lotados: ensaios de quadra, festas na quadra. Tivemos o aniversário da escola lotadíssimo; fizemos a festa do Dia da Consciência Negra lotadíssima. As pessoas estão acreditando e estão se sentindo felizes, e a alegria dá resultado. É nisso que eu estou acreditando também”, defendeu Elisa Fernandes.