Encerrando a noite dos desfiles, o Salgueiro apresentou um conjunto estético de muita qualidade. Pode-se dizer que o aluno aprendeu com a professora. Jorge Silveira trouxe para Sapucaí um conjunto estético de muito bom gosto e de muita qualidade de acabamento e de luxuosidade nos materiais. Visual de Rosa mesmo. Com canto potente, escola conseguiu bom rendimento do samba e viu Sidclei e Marcella mais uma vez darem uma aula no quesito de mestre-sala e porta-bandeira . Com evolução quase perfeita, buraco no primeiro setor deve virar nota descartada. Já a comissão foi criativa e trouxe diversos temas que Rosa levou para a Sapucaí. Homenagem justíssima a professora!

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

Com o enredo “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau“ , o Salgueiro encerrou os desfiles do Grupo Especial com o tempo de 76 minutos.

COMISSÃO DE FRENTE

Concebida e coreografada por Paulo Pinna, a comissão do Salgueiro buscou reencontrar aquele mesmo sentimento inaugural de encantamento que Rosa imprimiu em suas aberturas. A comissão partiu de um gesto essencial, ligado ao método criativo da artista: o ato de ler e toda sua inspiração que vieram dos livros. Na apresentação, anjinhos com estética barroca vinham à frente de cinco elementos perfilados como grandes livros em uma biblioteca que formavam a palavra rosa. Desses elementos saiam diversas referências dos enredos e comissões que Rosa levou para a Sapucaí com o coreógrafo Fábio de Mello. Os anjinhos puxavam esses livros e de lá saíram a cabeça do cisne, e os livros perfilados formavam o corpo do bicho.

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Depois subia uma bandeira de pirata e os livros formavam um navio com um personagem vestido de pirata em cima. Depois os livros são movimentados e começam a se abrir revelando em imagens com relevo de elementos bem brasileiros presentes nos enredos da Rosa como onça, tucano e arara. No final os anjinhos voltam e relembram a comissão dos leques de 1994, no enredo de Catarina de Médices. Bom trabalho de Paulo Pinna, leve, engraçado, mesmo sem um clímax, a comissão apresentou bem o enredo e trouxe vários pequenos artifícios que divertiam. O único ponto a se colocar foi alguma dificuldade nos módulos para a cabeça do cisne sair. Havia uma pequena demora.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Um dos casais mais tradicionais do carnaval carioca, Sidclei Santos e Marcella Alves, trouxeram à cena lembranças da marcante passagem solo de Rosa Magalhães pela Academia do Samba, entre 1990 e 1991, representando a própria corte da agremiação, evocando os contornos medievais do enredo. O casal fez mais uma apresentação arrebatadora na Sapucaí.

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Já na entrada da apresentação do módulo, Marcella simplesmente deu 18 giros de bandeira sem parar, inclusive, se deslocando pela pista e usando bem o espaço. Em seguida, a dupla girou junta e desfraldou o pavilhão para o júri. Na sequência, a dupla mostrou muita intensidade, inclusive no momento em que a porta-bandeira muda de sentido. E o pavilhão sempre totalmente desfraldado. Coreografia de alta dificuldade, executada com muita perfeição. Bailado clássico pautado na defesa do pavilhão com muita sincronia o tempo todo.

ENREDO

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“A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau” saudou o legado da professora trazendo além do saudosismo para os salgueirenses e sambistas em geral, o reverencionamento da memória pública, através do acervo de desenhos que Rosa doou para a Universo do Estado do Rio de Janeiro que foram base para o trabalho de pesquisa do desfile. O Salgueiro abriu o desfile entrando na biblioteca da Rosa, convidando o público a reencontrar a memória afetiva dos seus carnavais.

Em seguida, veio o universo literário, com enfoque especial na literatura infantil, que ela muito bem representou. O terceiro setor apresentou uma Rosa viajante, mostrando como viajamos pelo mundo sem sair do lugar com seus enredos. Em seguida, a escola trouxe Rosa nos ensinando a amar o Brasil por meio da natureza. O penúltimo setor mostrou o amor de Rosa pelos movimentos estéticos que pensaram a brasilidade. O Salgueiro encerrou convidando Rosa a retornar ao Acadêmicos do Salgueiro, numa grande festa em vermelho e branco, sendo recebida de volta à academia do samba onde nasceu artisticamente para o mundo. O enredo foi um passeio pela obra de Rosa, como proposto por Jorge desde o início. Com boa leitura, teve um desempenho satisfatório com um final criativo ao relacionar Rosa e a corte carnavalesca elevando a condição dela de professora para monarca do carnaval.

EVOLUÇÃO

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O Salgueiro passou pela Sapucaí com muita fluidez em quase todo o seu desfile. Apenas na parte final do desfile, o último carro demorou a entrar e gerou um buraco que era visível apenas na primeira cabine de jurados o que deve fazer com que a escola não tome o 10 do jurado, mas sendo descartado. Mesmo com fantasias mais volumétricas a escola passou bem, pulando carnaval e não deixando ficar um desfile arrastado. Sem muita propensão para alas coreografadas, a comunidade do Andaraí mostrou muita espontaneidade e alegria. Desfile bem clássico.

HARMONIA

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O carro de som da Academia comandado por Igor Sorriso trouxe uma novidade que já havia sido testada nos ensaios, a utilização de um violino a fim de produzir o clima mais clássico que fascinava a carnavalesca como nos bailes de Veneza. Com bom uso das vozes de apoio que imprimiram energia e volume no canto, Igor Sorriso ficou bastante a vontade para convocar a comunidade ao canto e para fazer algumas vocalizações, terças, tudo bem dentro da obra. Com uma voz mais propensa para atingir os agudos, Igor contou com a equipe para trabalhar com potência o canto mais reto. E o Salgueiro que enfrentou problemas com o som no segundo ensaio técnico na Sapucaí e mostrou força no canto da comunidade, repetiu o alto rendimento do treino. Em uma bossa, a bateria parava e ficava só o violino cantando com os componentes. A escola veio junto.

SAMBA-ENREDO

A obra que o Salgueiro escolheu para este carnaval tem como compositores Rafa Hecht, Samir Trindade, Thiago Daniel, Clairton Fonseca, Fabrício Sena, Deiny Leite, Felipe Sena, Ricardo Castanheira, JP Figueira, Deco, Marcelo Motta, Dudu Nobre, Julio Alves, Manolo, Daniel Paixão, Jonathan Tenório, Kadu Gomes, Zé Moraes, Jorge Arthur e Fadico. A obra teve um andamento mais para frente colocado pela “Furiosa” e pelo carro de som, o que permitiu alcançar um rendimento satisfatório na Sapucaí. Cresceu. E mesmo sem ser uma joia rara do grupo achou rendimento principalmente em dois momentos de muita força se constituindo dos dois refrãos, que pegaram a Sapucaí de forma despretensiosa. E o pré-refrão “Mestra , você me fez amar a festa” era um dos trechos mais cantados. Passou bem.

ALEGORIAS

O conjunto alegórico do Salgueiro era formado por 5 carros e 2 tripés. Formado por alegoria bem grandes, o apuro estético e a plástica foram dignos da professora. Todos com excelente acabamento, bom uso de cores e materiais, trazendo um ar nostálgico mas com soluções bem atuais. Jorge finalmente conseguiu mostrar muito da sua personalidade artística e de uma forma diferente do que ele apresenta em São Paulo. Trabalho muito bom. Com 70 metros de comprimento, ocupando todo o setor 1 da Sapucaí , o abre-alas do Salgueiro trouxe símbolos reconhecíveis como querubins, ornamentos rococós, misturas de estilos, personagens de carnavais, assinados por Rosa, realezas, com referências às escolas em que trabalhou (Vila Isabel, Imperatriz e Império Serrano), o universo lúdico infantil e a natureza brasileira.

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A segunda alegoria trouxe o mundo do faz de conta se erguendo das páginas de autores do imaginário e da força das histórias que nunca cansam de ser contadas. Na alegoria, em formato de castelo de brinquedo, a parte da frente com um cisne e em cima bruxas estilizadas na estética infantil. O terceiro carro representou o percurso das viagens. O “Porto da Utopia” denominado pelo carnavalesco Jorge, se erguendo como síntese do imaginário, viajante de Rosa Magalhães. Na alegoria botes infláveis, gôndolas, canoas e embarcações de muitas nacionalidades . E até mesmo o jegue (1995), A quarta alegoria do Salgueiro trouxe o imperativo antropofágico que a mestra nos ensinou a pensar o Brasil, sempre recorrendo a artistas que enfrentaram a questão nacional de forma crítica e inventiva. São esses pensamentos que floresceram no carro nas formas selvagens, nos frutos tropicais e nas imagens da terra abundante. A presença indígena ocupou um lugar estruturante. Na frente, um grande bicho-papão, imagem-signo já presente na comissão de frente de 2002.A última alegoria representou a primeira casa carnavalesca da mestra, nos ventos da Revolução Salgueirense. Na alegoria, Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, mestres e enredos, surgiam fantasiados para coroar a homenageada como autêntica Rainha Momo, figura recorrente em sua obra e símbolo maior da folia que Rosa tanta vezes celebrou em seus carros e enredos. A alegoria se completou com as decorações de rua que marcaram diferentes momentos da história da festa, ornamentos criados por Arlindo, Pamplona e pela própria Rosa, com um Pierrot na parte de trás.

FANTASIAS

O ponto alto do desfile, as fantasias tiveram muito do padrão Rosa, mas muito mais do perfil Jorge. Volumetria, excelente acabamento, uso de materiais de alta qualidade e luxuoso. Estética primorosa e atualizada. Melhor trabalho de Jorge no Rio. O primeiro setor trouxe uma estética mais clássica, com fantasias criativa, figurinos em formato de livros de onde saíam os enredos de Rosa com a ala “ sou fidalgo, sou leitor”. O segundo setor iniciou com tons mais quentes, mantendo o dourado e uma estética mais medieval,visual que sempre mexeu muito com o coração da carnavalesca. Destaque para a ala “O bolo irreverente “ e as baianas de “ dama da corte’. O terceiro setor apresentou uma concepção de fantasias mais baseadas no universo infantil, fascinação de Rosa, com a paleta de cores encontrando tons mais claros. Destaque para a ala “ nobres no gelo” que trazia barba inclusive. O quarto setor do Salgueiro retomou o dourado e mostrou fantasias criativas como “ chegam Mouros e camelos” que traziam o animalzinho na parte da frente. Esse setor conseguiu manter uma unidade de cor mesmo retratando estéticas diferentes de culturas diversas, pois era o setor das culturas, viagens que Rosa contou na Avenida. E o quinto setor apostou nas cores mais tropicais ao tratar da propensão de Rosa a sempre trazer enredos bem brasileiros. Neste setor, maior preferência pelo verde a fim de retratar as matas em contraste com algumas cores cítricas reproduzindo o tropical. O encerramento do desfile trouxe o universo carnavalesco e a estética acompanhou com o uso de estampas de bolinhas e costeiros com pompons como na ala “Arlequins de Arlindo”. O vermelho e branco do Salgueiro também não faltou no conjunto estético das alas que compunham esse final de desfile. Primoroso o trabalho.

OUTROS DESTAQUES

Com 70 metros de comprimento, o carro abre-alas ocupou todo o setor 1 da Sapucaí. A “ Furiosa“ dos mestres Guilherme e Gustavo homenageou na fantasia o desfile de Rosa em 2003 na Imperatriz , vindo de “Piratas”, em referência quando a artista transformou esses aventureiros em personagens de sonho e delírio. Toda dourada, a rainha Viviane Araújo trouxe a fantasia “Cobiça de Ouro” lembrando os ambiciosos piratas e sua gana por ouro e pedras preciosas, com figurino também inspirado no desfile de 2003 da Rainha de Ramos. A beldade veio suspensa em uma proa de navio pirata à frente dps ritmistas. Já os passistas desfilaram com figurino fazendo referência ao desfile da União da Ilha de 2010, principalmente ao trecho “Quem é que não tem uma louca ilusão e um Quixote no seu coração?”, se tratando do casal literário na tradicional e elogiadíssima ala do Salgueiro. A ala das baianas “ Amiga do Rei” representou as damas da corte, personagem que com constância era retratada nos trabalhos da carnavalesca. No esquenta, Igor Sorriso cantou o refrão de alguns sambas históricos como “ Pega no Ganzá”, “ Água de cheiro” , “ Candaces”, “ Gaia”, “ Xangô “ , “ Malandro Batuqueiro” e, claro o “ Peguei um Ita no Norte”. O mascote Djalma Sabiá mexeu com as pessoas vindo antes da escola naquela “ ala” grande de camisa que não faz parte do desfile. No final, o arrastão do Salgueiro trouxe uma “ ala” gigante de foliões apaixonados cantando para a professora.