Por Marcos Marinho e Júnior Azevedo

O Salgueiro realizou, na noite do último domingo, seu primeiro ensaio de rua de 2026, na Conde de Bonfim, na Tijuca. Mesmo sob chuva e vento, o canto apaixonado da comunidade, a leveza da evolução e a força musical da bateria “Furiosa” sustentaram um ensaio em que cada gesto parecia apontar para a mesma direção: o Salgueiro inicia sua caminhada afirmando, ainda na rua, a celebração da obra e do legado de Rosa Magalhães. A escola será a responsável por encerrar o Carnaval 2026, posição inédita na era Sapucaí, com o enredo “A Delirante Jornada Carnavalesca da Professora Que Não Tinha Medo de Bruxa, de Bacalhau e nem do Pirata da Perna-de-Pau”, assinado pelo carnavalesco Jorge Silveira.

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Fotos: Marcos Marinho e JR Azevedo/CARNAVALESCO

Para o diretor de carnaval, Wilsinho Alves, a escolha por manter o ensaio na Conde de Bonfim, mesmo com chuva, reforça o simbolismo do local para a escola. “A Conde de Bonfim é o coração do bairro, o coração da Tijuca. É uma rua que está sempre cheia e, mesmo com a chuva que caiu hoje, a gente viu a rua lotada, com a comunidade comparecendo em peso”, afirmou.

Segundo o diretor de carnaval, a decisão foi tomada a partir de planejamento e monitoramento das condições climáticas. “Esse era o ensaio que a gente precisava fazer. O desfile está se aproximando e sabíamos que a chuva seria fraca, como acabou sendo. Tudo foi muito bem planejado, com acompanhamento do Centro de Operações do Rio, e por isso mantivemos o ensaio”, explicou. Para Wilsinho, o resultado foi positivo: “O que a gente viu foi um ensaio muito cheio, com a escola presente e respondendo bem”.

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COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Paulo Pinna, a comissão de frente do Salgueiro apresentou uma proposta de execução clara e bem estruturada a partir do próprio desenho do samba. As imagens evocadas pela obra, que remetem aos enredos criados por Rosa Magalhães, são traduzidas corporalmente pela comissão, que assume a tarefa de ilustrar personagens, universos e narrativas presentes na letra.

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Há uma preocupação evidente em dar corpo a essas figuras em cena. Nesse sentido, a coreografia dialoga diretamente com a proposta do carnavalesco Jorge Silveira, que define o enredo como uma visita à biblioteca da “Professora”, como Rosa Magalhães é carinhosamente conhecida. A comissão se insere nesse conceito, acionando referências múltiplas desse acervo carnavalesco da artista.

Formada por 20 integrantes, a comissão trabalha com uma grande variedade de formações ao longo da apresentação: desenhos em V, trios, filas indianas, agrupamentos e divisões que se reorganizam continuamente. Essas variações criam dinâmicas que dialogam com os diferentes momentos do samba e mantêm a cena em permanente movimento.

Algumas dessas soluções espaciais e formações remetem, de maneira evidente, a propostas desenvolvidas por Fábio de Melo, coreógrafo responsável por comissões de frente em desfiles assinados por Rosa Magalhães. Há, portanto, um jogo de citação e referência que parece consciente e coerente com a homenagem.

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Um dos momentos mais fortes da coreografia acontece no trecho “Mestra, você me fez amar a festa”. Nesse instante, os componentes erguem as mãos para o alto em um gesto de grande potência simbólica. A imagem sugere, ao mesmo tempo, reverência à figura de Rosa Magalhães e entrega: como se a comissão oferecesse rosas ao público, enquanto direciona o olhar do Salgueiro para a décima estrela que a escola tanto almeja. É um momento-chave da apresentação, de forte impacto.

Considerando o contexto de ensaio de rua, ainda sem figurino, adereços ou possível elemento alegórico que dará suporte à narrativa, a proposta se sustenta com clareza. As referências aos diversos personagens dessa “biblioteca” aparecem bem executadas e reconhecíveis.

Entre os pontos de atenção, destaca-se o canto. O samba pode ser mais cantado pelos integrantes da comissão, reforçando a integração entre corpo, voz e musicalidade. Além disso, em alguns momentos, ainda são perceptíveis ajustes necessários na finalização dos movimentos.

No conjunto, trata-se de uma comissão com proposta clara, bem estruturada e bem executada, que articula referências, homenagens e imagens potentes, mas que ainda pode ganhar força ao aprofundar seu convite dramatúrgico e ajustar aspectos de execução para o desfile oficial.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Sidclei Santos e Marcella Alves reafirmaram, no ensaio da Conde de Bonfim, porque formam um casal de excelência e referência no carnaval. Com desempenho seguro e refinado, os dois apresentaram uma dança de nível máximo, digna de nota 40.

Com domínio absoluto da pista, Sidclei risca o chão e abre caminhos com o bastão que carrega nas mãos, cortejando o pavilhão com a elegância clássica de um mestre-sala que conhece profundamente o ritual que executa. Cada gesto é preciso, cada deslocamento tem intenção, e o espaço responde à sua condução.

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Marcella, por sua vez, se destaca pelos giros precisos e rápidos, executados com leveza e controle. Vestidos de vermelho, os dois apresentaram o pavilhão de maneira imponente e, ao mesmo tempo, delicada, com finalizações muito bem resolvidas e absoluto respeito à dança tradicional do casal de mestre-sala e porta-bandeira. Há uma leitura clara do samba, e isso se traduz em escolhas coreográficas que dialogam diretamente com a letra.

Nos trechos em que o samba fala de “caso de amor”, o casal incorpora esse sentimento com sutileza: há um momento de carinho, materializado no gesto em que ambos tocam o rosto um do outro, reforçando o cortejo da dança tradicional do casal dentro do samba. Já no pré-refrão, no verso em que se canta “Mestra”, Marcella executa uma bandeirada em saudação a Rosa Magalhães, gesto carregado de simbolismo e respeito à homenageada.

Durante a simulação da cabine espelhada, o casal apresentou um dos momentos mais interessantes da coreografia. Em uma reverência cruzada, Marcella direciona sua saudação para um lado da cabine enquanto Sidclei faz o mesmo para o outro, os dois de mãos dadas. É um fechamento coreográfico de grande beleza e inteligência cênica, que merece atenção especial para observar sua manutenção ou ampliação no desfile oficial.

SAMBA E HARMONIA

O samba-enredo do Salgueiro para 2026 tem, em seu pré-refrão e refrão principal, o seu eixo de maior potência. Nos versos “Mestra, você me fez amar a festa / eu virei carnavalesco / sonhei ser rosa / te faço enredo”, a escola entrega uma declaração de amor direta, afetiva e profundamente identificada com a comunidade. Esse trecho é cantado com força, convicção e emoção pelo salgueirense, que demonstra estar apaixonado pela obra e plenamente conectado ao discurso do samba.

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O canto nesse momento é alto, seguro e coletivo, criando um dos pontos de maior impacto sonoro do ensaio. Essa adesão se estende também ao início do samba, que entra bem cantado, com a escola acompanhando a melodia com boa intensidade e participação consistente dos componentes.

No entanto, ao avançar para o meio da obra, o canto perde força e regularidade. A queda de intensidade no meio do samba acende um sinal de atenção. A situação se agrava quando somada à presença de alas coreografadas, que, como é natural pela exigência física da execução, tendem a cantar menos ao longo do desfile.

Há, portanto, uma margem clara de crescimento para o Salgueiro neste quesito, especialmente no trabalho de canto do miolo do samba, buscando maior uniformidade e resistência vocal ao longo de toda a obra, e não apenas nos trechos mais explosivos.

No carro de som, Igor Sorriso mostrou estar extremamente à vontade no Salgueiro. O intérprete conduz o samba com segurança, chama o público para si, interage com a comunidade, com os moradores e com quem acompanha o ensaio, encarnando o espírito salgueirense de forma festiva e comunicativa. Sua presença cria conexão direta entre escola e público, elemento fundamental para sustentar o canto na rua.

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“Sinto que estamos uma evolução. A gente vai entendendo mais como é a escola, e estou tendo um entrosamento muito bom com toda a ala musical, sobretudo, com a direção musical do Alemão. A gente está feliz e trabalhando muito para evoluir, e entregar um trabalho ainda melhor em 2026. Esse samba está em uma crescente. As pessoas vão se envolvendo… é um samba leve, fácil, muito popular. Eu acredito muito no potencial dela, vai dar conta do recado na Sapucaí”, afirmou o intéprete Igor Sorriso.

Mesmo diante da instabilidade técnica inicial com o trio elétrico, Igor Sorriso e a equipe do carro de som demonstraram profissionalismo e tranquilidade na condução do ensaio. O problema foi rapidamente resolvido, e o restante da apresentação transcorreu sem prejuízos, permitindo que o desempenho do intérprete se destacasse de forma positiva.

EVOLUÇÃO

A evolução do Salgueiro foi marcada, sobretudo, pela leveza. Os componentes desfilam à vontade, com naturalidade e prazer visível em estar na rua. Há um clima de brincadeira saudável, de troca constante entre os próprios desfilantes e com o público que acompanha o ensaio, o que se traduz em sorrisos, dança solta e uma ocupação fluida do espaço.

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Essa sensação de conforto em pista é mérito direto do trabalho que a escola vem desenvolvendo ao longo da temporada. A evolução acontece sem rigidez, permitindo que o componente performe o samba com liberdade, incorporando a obra de maneira orgânica. O resultado é uma escola que flui, que avança com alegria e que estabelece uma relação viva com quem assiste.

OUTROS DESTAQUES

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A bateria “Furiosa” do Salgueiro merece menção especial. Comandada pelos mestres Guilherme e Gustavo Oliveira, a bateria apresentou um som de altíssimo nível, com impacto, precisão e energia contagiante. A resposta do público foi imediata: a “Furiosa” animou quem acompanhava o ensaio e elevou o samba a um patamar de intensidade que marcou a noite.

A condução segura da dupla de mestres se reflete não apenas no rendimento musical, mas também no clima interno da bateria. O momento final do ensaio, em que os ritmistas confraternizam, revela um grupo visivelmente à vontade, coeso e satisfeito com o trabalho que vem sendo desenvolvido. Essa sensação de felicidade e pertencimento se traduz diretamente na qualidade do toque e na entrega coletiva.

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Outro destaque importante é a presença do violino na obra. Em momentos pontuais, o instrumento surge acompanhando o canto da escola, justamente nos trechos em que a comunidade canta com mais força. O resultado é uma camada sonora delicada e, ao mesmo tempo, emocionante, que dialoga com a letra e amplia a expressividade do samba. Quando o violino aparece sustentando o canto, o efeito é belíssimo.

“O mau tempo não atrapalhou. Fiquei até surpreso. Graças a Deus deu tudo certo. Hoje tinha que acontecer (o ensaio), porque, com esse maratona de fim de ano a gente ficou muito tempo sem ensaio e isso afeta um pouco a precisão da galera. Estrear da forma como a bateria ensaiou hoje me deixou aliviado. Fiquei feliz em perceber que a galera tá bom com as bossas na mão, andamento perfeito, afinação… isso mostra que o material está bom. Porque não é fácil manter a afinação com essa chuva que deu. O meu balanço de hoje é super positivo. Deu pra ver que estamos no caminho certo”, comentou mestre Gustavo, que também falou sobre a entrada do violino no conjunto musical salgueirense.

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“Essa ideia surgiu para trazer um pouco da criação da trilha sonora da Rosa (Magalhães). Ela foi uma carnavalesca que criou muitos personagens que estiveram presentes em vários desfiles. A gente tentou trazer um pouco disso. O violino é um instrumento que caminha muito por dentro dessas trilhas. Também tem a questão de ser um instrumento que tem um timbre que consegue soar bem no carro de som e complementar o violão, o cavaquinho… E a gente conseguiu juntar isso com algumas novidades que a bateria está fazendo esse ano. Acho que com isso a gente está conseguindo trazer um lado mais erudito da Rosa. Ela foi do teatro, foi cenógrafa… e a intenção é mostrar outros lados dela”.

“Casou perfeitamente com a Furiosa. E ainda não mostramos tudo. Podem ter certeza que vocês ainda vão ter novidades na avenida”, completou mestre Guilherme.